Bolsonaro pede que apoiadores liberem estradas e diz que outros protestos são do "jogo democrático"

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em protesto em Anápolis, Goiás

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro, que fracassou em sua tentativa de reeleição, recorreu às redes sociais nesta quarta-feira para fazer um apelo para que seus apoiadores que bloqueiam rodovias em vários Estados do país, em protesto contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no último domingo, liberem as estradas.

Bolsonaro disse compreender que seus apoiadores estejam "chateados" e "tristes", afirmando estar também. Ao mesmo tempo que pediu o desbloqueio das estradas, elogiou manifestações que vêm ocorrendo como bem-vindas e parte do jogo democrático --nesta quarta bolsonaristas pediam abertamente uma intervenção militar.

"Temos que manter a cabeça no lugar. Protestos, manifestações são muito bem-vindas, fazem parte do jogo democrático... mas tem algo que não é legal: o fechamento de rodovias pelo Brasil prejudica o direito de ir e vir das pessoas", disse o presidente.

Desde domingo à noite, logo após a definição do segundo turno da eleição presidencial, começaram bloqueios em estradas por todo o país por apoiadores do presidente.

Durante meses, Bolsonaro alimentou a desconfiança no processo eleitoral brasileiro com seguidos ataques, sem provas, contra a confiabilidade das urnas eletrônicas. No domingo, foi derrotado por Lula por uma margem estreita e perdeu a chance de conquistar um novo mandato.

No final da tarde desta quarta, o número de pontos de interdição ou bloqueio de rodovias pelo país ainda somava 146 em 17 Estados, apesar das ordem judiciais para a desobstruição e medidas de segurança que vêm sendo tomadas nesse sentido, e o movimento já afetava o abastecimento de vários setores.

"Tem que respeitar o direito das pessoas que estão se movimentando, além do prejuízo da nossa economia", continuou Bolsonaro. "A economia tem sua importância, talvez você esteja dando mais importância para outra coisa agora, é legítimo."

"Vou fazer um apelo a você: desobstrua as rodovias. Isto não faz parte, no meu entender, dessas manifestações legítimas", acrescentou.

"Não vamos perder nossa legitimidade. Outras manifestações que vocês estão fazendo, em praças, fazem parte do jogo democrático."

Nesta quarta-feira, bolsonaristas fizeram manifestações na frente do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, e do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, além de outras cidades, para pedir uma intervenção militar contra a vitória de Lula.

"Todo mundo está tendo prejuízo com essas rodovias fechadas. O apelo que eu faço a você é: desobstrua as rodovias, proteste de outra forma", continuou o presidente.

"Vamos fazer o que tem que ser feito. Estou com vocês e tenho certeza que vocês estão comigo. O pedido é rodovias", ressaltou.

Na terça-feira, 44 horas após a definição da eleição em seu primeiro pronunciamento após a derrota, quando os bloqueios de estradas já causavam transtornos em todo o país, Bolsonaro foi muito menos direto ao comentar a situação nas estradas.

O presidente preferiu afirmar que "os atuais movimentos populares são frutos de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral" e se limitou a dizer que os métodos deveriam ser diferentes dos da esquerda, "que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedade, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir".

(Por Alexandre Caverni; reportagem adicional de Ana Mano)