Perdão de dívida bilionária de igrejas coloca Bolsonaro entre a cruz e a equipe econômica

Matheus Pichonelli
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Brazilian Economy Minister Paulo Guedes (L) speaks next to Brazilian President Jair Bolsonaro (R) during a statement on financial aid for vulnerable Brazilians amid the COVID-19 pandemic, at Planalto Palace, in Brasilia, on September 1, 2020. - Brazil announced a reduction of 9.1% in the gross domestic product. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

Em seu pronunciamento de Sete de Setembro, em que exaltou o golpe de 1964, a miscigenação e o sangue dos brasileiros derramado por liberdade, Jair Bolsonaro descreveu o Brasil como uma nação “temente a Deus, que respeita a família e que ama a sua pátria”.

Enquanto panelas ainda eram ouvidas em algumas cidades do país, era possível que o presidente tenha se lembrado de que ainda esta semana precisará decidir entre o temor a Deus e outro juramento ao analisar um trecho de um projeto de lei que concede um perdão bilionário a igrejas e templos da nação.

Caberá a ele vetar ou não o dispositivo já aprovado pela Câmara por 354 votos — parte deles orientados pela liderança do governo — a 125 e endossado no Senado sem alterações.

Em ano eleitoral, ninguém quer ficar mal no púlpito, mas a equipe econômica do governo foi clara em recomendar o veto que perdoaria mais de R$ 1 bilhão em dívidas das igrejas no momento em que o governo raspa o tacho para encontrar recursos pelo auxílio emergencial e outros programas com tração para alavancar a atividade econômica avariada em 2020.

A proposta que beneficia as entidades religiosas foi pensada pelo deputado David Soares (DEM-SP), filho do pastor R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, uma das principais devedoras da praça.

Detalhe é que a Constituição já proíbe cobrança de impostos sobre templos de qualquer culto. O que a bancada religiosa pede agora é a isenção também de contribuições sociais.

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O trecho anula, por exemplo, as cobranças de contribuições previdenciárias incidentes sobre remunerações de pastores, padres e sacerdotes antes de 2015, quando houve uma mudança na lei que beneficiou as lideranças.

O possível atendimento ao pleito das igrejas pode ser lido como mais uma gota de óleo na frigideira onde se encontra Paulo Guedes, o antigo superministro da Economia que agora se bate contra a fama de quem promete demais e entrega de menos.

Um dos pontos de tensão entre a ala que quer abrir a carteira e a que quer segurar os gastos é a criação da chamada Renda Brasil. No fim de agosto, Guedes disse em uma videoconferência que estudava uma forma de o auxílio não furar o teto dos gastos quando o projeto foi criticado em público pelo presidente, de quem afirma ter tomado “um carrinho, uma entrada perigosa”. “Ainda bem que foi fora da área, se não era pênalti”, contemporanizou.

Bolsonaro, que tem entre os religiosos, sobretudo evangélicos, parte importante de sua base de apoio, está prestes a dar outro carrinho na orientação da própria equipe -- um pouco mais longe da área, mas de falta em falta o jogo segue trancado.

Sabe, ou deveria saber, que ninguém pode servir a dois senhores, pois quem se dedicar a um desprezará o outro, como está no capítulo 6 do evangelho de Mateus sobre o conflito entre Deus e o dinheiro. A agenda econômica que lute.