Bolsonaro quer o perdão das igrejas por não perdoar as suas dívidas

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
Brazilian President Jair Bolsonaro (behind) listens as an evangelical pastor speaks before deputies vote a pension reform bill at the National Congress in Brasilia, on July 10, 2019. - After several delays and amendments, pro-government deputies are working to get the necessary approval to pass a pension reform bill to the Senate before the Congress's mid-year recess. (Photo by EVARISTO SA / AFP)        (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro durante culto religioso em julho de 2019. Foto: Evaristo Sá / AFP

Jair Bolsonaro citou o risco de sofrer um processo de impeachment para anunciar o veto ao projeto de anistia às dívidas de igrejas no Brasil.

O presidente, que tem no eleitorado evangélico uma das bases de seu apoio, apelou, assim, ao perdão dos aliados para justificar o não-perdão de suas dívidas.

Relatada por David Soares (DEM-SP), filho do pastor R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, a proposta havia sido aprovada pela Câmara por 354 votos a 125 e previa a proibição de cobranças de contribuições sociais das entidades religiosas -- que já são livre de impostos.

A conta da mamata era calculada em R$ 1 bilhão.

Na berlinda para achar um “dinheirinho” nas contas públicas e manter o auxílio emergencial como vitamina da popularidade do presidente, a equipe econômica sugeriu o veto ao projeto.

Entre a cruz e Paulo Guedes, Bolsonaro ficou com seu Posto Ipiranga -- o que faz sentido em tempos de baixa arrecadação e altos desafios sociais.

Mas, para não ficar mal com sua base, Bolsonaro na prática devolveu a bola ao Congresso, que agora pode ou não derrubar o veto. Deve, nas palavras do presidente.

Leia também

Em sua postagem, Bolsonaro lançou a pressão sobre os parlamentares. “Confesso, caso fosse deputado ou senador, por ocasião da análise do veto que deverá ocorrer até outubro, votaria pela derrubada do mesmo”.

Deve ser a primeira vez que um presidente da República PEDE para ter uma decisão revertida. Foi o jeito encontrado pelo capitão para não ficar mal nem diante da Bíblia nem do dinheiro do contribuinte.

Para isso, coloca em xeque uma declaração dele mesmo sobre o poder da própria caneta. Como quem diz: “Eu assino, mas pode derrubar se quiser”.

Parece uma decisão salomônica, mas é apenas populismo dos mais baratos. Basta observar como se comportará sua base de apoio na análise do perdão que Bolsonaro não queria vetar.

Passando a boiada. Ricardo Salles falou, na reunião de 22 de abril, que o governo Bolsonaro deveria aproveitar as atenções da imprensa na cobertura da pandemia para passar a boiada no processo de desregulamentação das normas ambientais.

Foi duramente criticado e passou uns dias na berlinda.

Sobrevivente, o ministro do Meio Ambiente descobriu agora que uma desgraça não encobre a outra, e tanto quanto os mortos na pandemia (mais de 130 mil), as queimadas no Pantanal, com o consequente morticídio das espécies animais e vegetais, correm o mundo causam choque e preocupação mundo afora.

Duas respostas foram enviadas até agora diante do desafio. Um deles foi o corte no orçamento do Ibama e do ICMBio para 2021.

O outro veio do próprio ministro, que publicou no domingo um vídeo passeando num carro de boi enquanto um dos ecossistemas mais importantes da humanidade agonizava.

A provocação vinha num sorriso incontido de quem parecia competir com o chefe no sarcasmo e na indiferença. E daí?

Salles nunca esteve à altura do cargo.

Mas tem sido vitorioso na missão de reduzir o cargo ao seu tamanho moral.