Bolsonaro perde tempo ao retardar reformas

Editorial

Apesar de ruídos políticos causados, não apenas, pelo eco de declarações desastradas do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o AI-5, símbolo de um tempo longínquo, a economia real — aquela que produz, vende e emprega — continua a emitir sinais em sentido contrário aos indicadores de perda de dinamismo do PIB e de estagnação que passaram a assombrar o país a partir de 2014.

No biênio 2017/18, o país não conseguiu escapar de uma expansão frágil, em cada um destes anos, no nível de 1%. O que deve se repetir em 2019, com a diferença de que nesta segunda metade do ano multiplicam-se evidências de que a economia parece entrar em um ciclo clássico de retomada do crescimento, depois da grave recessão de mais de 7% de 2015/16.

Mas não é um movimento simplesmente espontâneo, decorrente de forças gravitacionais: o controle fiscal; o corte dos juros à medida que a inflação se mostra domada no patamar dos 3%; a melhoria das expectativas reforçada pela aprovação de uma reforma da Previdência histórica — haverá a necessidade de outras —, tudo somado resulta em um cenário menos angustiante. Mas sem que se possa garantir que a entrada em um período de crescimento sustentável esteja logo à frente.

A atmosfera de ressurreição do otimismo se deve a fatos concretos. As vendas no varejo reagem, e o exemplo positivo do momento são as estimativas elevadas para o resultado das liquidações da Black Friday, que passariam a rivalizar com o período de Natal.

Maior movimento nos balcões do comércio tem conexão direta com emprego e renda. O que se confirma na informação divulgada ontem pelo IBGE de que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em outubro teve leve redução, de 11,8%, nos três meses imediatamente anteriores, para 11,6%.

É muito pouco, e ainda há mais de 12 milhões de desempregados. O processo de absorção deste enorme contingente tem sido lento, mas segue em andamento.

As estatísticas do IBGE, da pesquisa Pnad Contínua, mostram que, em comparação com o mesmo período do ano passado, 1,4 milhão conseguiu emprego, sendo este o pano de fundo da reação em segmentos do comércio varejista.

Mas destoa neste ambiente a decisão do presidente Bolsonaro de recuar no envio da reforma administrativa ao Congresso, deixando-a com as demais para o ano que vem.

A preocupação com a importação de manifestações como as ocorridas em Chile, Colômbia, Equador etc. deriva de uma percepção descalibrada da realidade brasileira.

O que faz o governo perder a oportunidade de avançar em reformas que precisam complementar a da Previdência. E de estimular a mudança de expectativa, para melhor, que é visível no país.