Bolsonaro pinta na ONU retrato distorcido do Brasil em discurso para base radical

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NOVA YORK, EUA, BAURU, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro usou o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU, nesta terça-feira (21), para fazer um relato distorcido da situação do Brasil, em um aceno a sua base radical.

Havia a expectativa de que o líder brasileiro atendesse aos apelos da ala moderada do governo e fizesse um discurso de caráter mais diplomático e conciliador, o que não ocorreu. O tom de campanha prevaleceu, pontuado por dados falsos ou distorcidos —e por ataques à imprensa.

"Venho aqui mostrar um Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões", disse o presidente, já no início de sua fala.

Bolsonaro disse, por exemplo, que o Brasil está "há dois anos e oito meses sem qualquer caso concreto de corrupção". A verdade, no entanto, é que há diversas investigações em curso envolvendo, inclusive, aliados e familiares do presidente.

Os episódios mais ruidosos incluem, por exemplo, o caso Covaxin, em que há suspeitas de corrupção no contrato bilionário para a compra de vacinas contra a Covid-19 entre o Ministério da Saúde e a Precisa Medicamentos, representante da indiana Bharat Biotech,

Nesse sentido, a CPI da Covid, instalada há cinco meses, apura ações e omissões do governo federal na pandemia, além de repasses federais a estados e municípios. A equipe que trabalha na comissão já levantou momentos em que Jair Bolsonaro propagou um discurso negacionista que atrapalhou o combate à crise sanitária e que teria capacidade de reunir elementos para um processo de impeachment.

Há ainda o caso das "rachadinhas", esquema em que era recolhida parte dos salários dos funcionários de gabinete no Legislativo. Inicialmente, a prática foi identificada no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Mais recentemente, porém, surgiram indícios de que o próprio Bolsonaro, quando deputado federal, tinha uma atuação concreta no esquema.

Na ONU, o presidente também afirmou que no dia 7 de setembro o Brasil teve a maior manifestação de sua história. Outras ocasiões, porém, como a campanha das Diretas Já (1984), os protestos de junho de 2013 e os atos pelo impeachment de Dilma Rousseff reuniram uma quantidade muito maior de manifestantes.

"O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição, valoriza a família e deve lealdade a seu povo", disse Bolsonaro em Nova York. "Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo."

Com esse tom, o presidente deixou evidente que seu discurso, apesar de proferido na reunião de mais de cem lideranças mundiais, tinha, na verdade, o objetivo de alcançar o público doméstico. A retórica de recorrer a valores cristãos e "tradicionais" no enfrentamento a um inimigo comum —nesta fala, o socialismo— é parte da estratégia vitoriosa de Bolsonaro nas eleições de 2018. Com a popularidade em queda, o presidente tenta dar passos semelhantes na tribuna das Nações Unidas.

Embora tenha falado em respeito à Constituição, Jair Bolsonaro também fez um conjunto de ameaças golpistas nos últimos meses. Além de ser um notório defensor do período da ditadura militar no Brasil, em que direitos e liberdades individuais dos opositores ao regime foram ignorados, o presidente lançou uma série de ataques recentes a instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e a seus ministros.

A própria convocação dos atos de 7 de setembro representou um cenário de alerta em todo o país, e as manifestações, nas quais havia risco de violência e dúvidas a respeito da adesão dos militares, foram marcadas pela sensação da iminência de uma tentativa de golpe. De fato, no dia da independência, Bolsonaro voltou a atacar o STF e ameaçou desrespeitar decisões judiciais, mas recuou dias depois com a publicação da carta em que tenta convencer que não teve intenção de agredir os demais Poderes da República.

O líder brasileiro afirmou na ONU que, em resposta à pandemia de coronavírus, o governo pagou um auxílio emergencial de US$ 800, o equivalente a R$ 4.260 na cotação atual. Este foi o valor total pago em alguns casos, mas parcelado ao longo de meses, não o dinheiro que cada família recebeu para tentar suprir suas necessidades básicas.

"Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade", disse Bolsonaro, acrescentando que as políticas de isolamento e contenção dos contágios "deixaram um legado de inflação".

Assim, o mandatário insiste em um discurso já refutado por especialistas, que apontam que um combate rigoroso ao vírus serviria de base para a retomada econômica. Pesa ainda contra Bolsonaro uma série de situações em que ele minimizou a gravidade da pandemia, referindo-se à doença como "gripezinha" e contrariando medidas sanitárias básicas, como o uso de máscaras e o ato de evitar aglomerações.

Ainda no campo econômico, ao propagandear uma estimativa de crescimento de 5% para 2021, Bolsonaro omite o fato de que grande parte dessa aparente ascensão é, na verdade, um efeito estatístico, visto que o país vem de um 2020 em queda. Além disso, agentes financeiros preveem um crescimento menor que o previsto pela pasta da Economia e já falam em um PIB abaixo de 1% em 2022.

O presidente falou com animação sobre a geração de empregos sob sua administração. "Lembro que terminamos 2020, ano da pandemia, com mais empregos formais do que em dezembro de 2019, graças às ações do nosso governo com programas de manutenção de emprego e renda", disse. Houve, no entanto, uma mudança na metodologia do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de 2019 para 2020 que impede uma comparação adequada entre os números dos dois anos.

Além disso, o Brasil alcançou recordes negativos em 2021 que foram ignorados no discurso do presidente. Nunca houve tantos trabalhadores desempregados há mais de dois anos no país, e a taxa média de desemprego ao final de 2020 foi a maior em 30 anos.

Para Bolsonaro, contudo, "o Brasil vive novos tempos" e tem "um dos melhores desempenhos entre os emergentes" na economia. Ele mencionou exemplos da política de privatizações do governo e o leilão para implementação da tecnologia 5G no Brasil —previsto para o mês de outubro, deve, segundo a meta oficial, prover a nova tecnologia de internet móvel a todas as capitais do país até julho de 2022—, como argumentos para atrair investidores.

"Temos tudo o que o investidor procura: um grande mercado consumidor, excelentes serviços, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo", disse.

Bolsonaro também usou a tribuna da ONU para defender o chamado "tratamento precoce" contra a Covid, prática que envolve medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença. " Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial", disse. "Não entendemos por que muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos."

Em relação à vacinação, esta sim com eficácia comprovada para a redução no número de casos graves e de mortes por coronavírus, Bolsonaro disse que, até novembro, "todos os que escolheram ser vacinados no Brasil serão atendidos". Embora ele mesmo ainda não tenha recebido o imunizante oficialmente —uma notória exceção entre os líderes mundiais—, o presidente disse que apoia a vacinação.

"Contudo, o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada à vacina", disse o mandatário, reafirmando sua oposição a medidas como a obrigatoriedade da vacinação e a exigência de documentos que comprovem o recebimendo das doses para acesso a lugares e serviços públicos e privados.​

Na pauta do meio ambiente, uma das maiores responsáveis pelos danos à imagem do Brasil no cenário internacional, Bolsonaro afirmou que houve uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto em comparação ao mesmo mês do ano anterior. O dado é verdadeiro e tem base no sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Há, no entanto, problemas na metodologia para a obtenção desse dado. Segundo a Agência Lupa, os 918 km² desmatados representam uma área 75% superior à registrada em agosto de 2018 (526 km²), última medição para o mês, anterior ao início do governo Bolsonaro.

E o desmatamento avançou sob o comando do atual presidente. Nos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro, a média de desmatamento na Amazônia foi de 6.719 km², segundo o Inpe. Já nos dois primeiros anos da atual gestão, a média foi de 10.490 km², um aumento de 56%. Os dados de 2021 serão divulgados apenas no fim do ano, mas devem ficar novamente em torno de 10 mil km², estima o Observatório do Clima.

Embora tivesse prometido que falaria sobre a questão do marco temporal para reservas indígenas, Bolsonaro não o citou, mas afirmou que 14% do territorio brasileiro é composto por reservas, onde vivem 600 mil indígenas, e que eles "cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades".

Na área dos direitos humanos, o presidente afirmou que o Brasil "sempre acolheu refugiados" e citou os mais de 400 mil venezuelanos atendidos pela Operação Acolhida em decorrência da " grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana" —Bolsonaro não citou diretamente o nome de Nicolás Maduro.

O líder brasileiro disse ainda que o futuro do Afeganistão causa grande apreensão e que o Brasil concederá vistos humanitários para "cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos". O recorte por religião, no entanto, soa estranho para a tradição dos direitos humanos e contraria a portaria do Itamaraty, que não faz nenhuma distinção com base na crença dos refugiados.

Este foi o terceiro discurso do líder brasileiro na ONU. Em 2019, ele usou a tribuna para atacar críticos de sua política ambiental, a imprensa e países como Cuba e Venezuela. Em tom agressivo, que lembrava o da campanha eleitoral do ano anterior, disse que, antes de sua posse, o Brasil estava à beira do socialismo, algo que repetiu nesta terça no começo de sua fala em Nova York.

No ano passado, em discurso por vídeo (a Assembleia-Geral foi quase toda virtual, em razão da Covid), voltou a parte desses temas. Disse que o Brasil era vítima de mentiras sobre as queimadas na Amazônia e que boa parte delas seria motivada por "causas naturais inevitáveis". Também defendeu suas ações na pandemia e acusou a imprensa de disseminar pânico sobre a doença.

A participação deste ano durou 12 minutos, a mais curta das três oportunidades. Em 2019, Bolsonaro falou durante 32 minutos, e, no ano passado, 14 minutos.

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