Bolsonaro, sob pressão mundial, avalia enviar tropas para controlar incêndios na Amazônia

Por Paula RAMON
(Arquivo) Com gritos de "Salvem a Amazônia" e "Fora Bolsonaro", centenas de pessoas protestaram em frente à embaixada brasileira em Londres

O presidente Jair Bolsonaro avalia a mobilização do Exército para combater os incêndios na Amazônia, sob pressão dos líderes do G7 e convocatórias de manifestações contra seu governo dentro e fora do Brasil.

"A tendência é essa", disse Bolsonaro aos repórteres, acrescentando que o anúncio poderia ser feito ainda hoje.

O presidente da França, Emmanuel Macron, pediu aos pares do G7 a discutir "de emergência" o tema na cúpula que acontecerá neste final de semana em Biarritz. O bloco das principais economias ocidentais disse nesta sexta que trabalha em uma resposta "concreta" aos incêndios na Amazônia.

"Os incêndios que assolam a selva amazônica no somente são comoventes, mas também uma crise internacional. Estamos dispostos a proporcionar toda a ajuda que pudermos para controlá-los e ajudar a proteger uma das maiores maravilhas da Terra", disse o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson.

A França e a Irlanda indicaram, por sua vez, que, se o Brasil não cumprir seus compromissos ambientais, o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul pode se ver ameaçado.

O ministro finlandês das Finanças, Mika Lintilä, anunciou nesta sexta que proporá a seus homólogos europeus a proibição das importações de carne bovina brasileira para protestar contra a gestão dos incêndios na Amazonia.

O ministro finlandês, país que ocupa atualmente a presidência rotatória da UE, indicou em um comunicado que "condena a destruição da floresta amazônica e propõe que a UE e Finlândia examinem urgentemente a opção de proibir as importações de carne bovina brasileira".

"Se não houver nenhum avanço, estou disposto a levar essa questão aos outros ministros das Finanças da UE" durante a reunião informal que manterão em 13 e 14 de setembro na Finlândia, acrescentou.

Os incêndios no Brasil aumentaram 85% este ano em relação ao mesmo período de 2018. Dados de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam até 22 de agosto 76.720 focos de incêndio - 1.384 a mais que no dia anterior -, com 52,6% na região amazônica.

Outros 29,8% estão localizados no Cerrado e o restante em outros biomas, como a Mata Atlântica e o Pantanal, em alguns casos com efeitos em países vizinhos como Bolívia e Peru.

O Brasil está na estação seca, quando os incêndios são frequentes, embora especialistas concordem que o aumento acentuado dos focos deve-se ao desmatamento, que também segundo dados do INPE e de outras instituições aumentou exponencialmente nos últimos meses.

Celebridades como Madonna, Ricky Martin, Novak Djokovic e Leonardo DiCaprio acentuaram a pressão e organizações não-governamentais convocaram mobilizações em frente a embaixadas e consulados brasileiros, apesar de muitas vezes usarem fotos antigas ou de outros lugares.

Organizações não governamentais mobilizaram protestos em frente a embaixadas e consulados brasileiros, enquanto outras manifestações estão previstas para esta sexta em algumas capitais do país.

Em seu encerramento nesta sexta em Salvador, a Semana do Clima da América Latina e Caribe manifestou sua solidariedade com os atingidos pelos incêndios e lembrou que proteger as florestas do mundo é uma responsabilidade coletiva.

Porto Velho, capital do estado de Rondônia (limítrofe com Bolivia), amanheceu coberta por uma fina camada de fumaça avermelhada. Espessas colunas de fumaça podiam ser vistas sobre as florestas do estado, onde as chamas de vários incêndios são visíveis ao longo de quilômetros.

O governador do estado de Acre (fronteiriço com Bolívia e Peru), igualmente afetado pelo fogo, decretou estado de emergência.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, criticou Bolsonaro em discurso por ocasião da Semana do Clima da América Latina e do Caribe em Salvador.

"O mundo não tolerará mais uma governança irresponsável sobre a Amazônia (...) negar o aquecimento global não é uma coisa séria, não é uma coisa inteligente", afirmou.

- Preocupação comercial –

Bolsonaro inicialmente deu respostas com tom fortemente nacionalista. Na quinta-feira, denunciou uma atitude "colonialista" do presidente francês Emmanuel Macron por ter proposto levar a questão ao G7.

"Lamento que o presidente Macron busque instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos p/ ganhos políticos pessoais", tuitou o presidente de extrema-direita.

Mas isso não foi suficiente, tanto pela pressão internacional quanto, segundo a imprensa, pela preocupação dos setores do agronegócio que temem que suas exportações sejam afetadas.

Apesar da retórica, na noite de quinta-feira Bolsonaro finalmente cedeu à pressão internacional e convocou uma reunião de emergência com seus ministros, que receberam ordens para trabalhar no combate dos incêndios.

A preocupação do agronegócio, que teme pagar as consequências, também foi sentida. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina pediu para "abaixar a temperatura" da discussão.

Bolsonaro deve fazer um pronunciamento em rede nacional na noite dessa sexta-feira.

"O governo brasileiro subestimou severamente a escala de preocupação global em torno da Amazônia. Também calcularam de forma errada sobre até qué ponto desacelerar o desmatamento pode ameaçar as relações bilaterais e multilaterais", disse à AFP Robert Muggah, pesquisador do Instituto Igarapé.