Bolsonaro e Prevent Senior: uma parceria de sucesso

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
A man walks past a graffiti depicting Brazil's President Jair Bolsonaro's face in Rio de Janeiro, Brazil September 15, 2021. The Graffiti reads:
Foto: Pilar Olivares/Reuters

A certa altura da reunião com sua equipe ministerial, em 22 de abril de 2020, Jair Bolsonaro confidenciou que havia telefonado na véspera para o diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal e o repreendeu por uma nota publicada pela corporação lamentando a morte de um patrulheiro em decorrência da Covid-19. Naquele dia o país contabilizava 46 mil casos de infecção confirmados e 2.924 óbitos. O agente era uma das vítimas.

Seu comandante caiu um mês depois do telefonema do capitão.

Bolsonaro citava a bronca pra cima do diretor da PRF para dar uma ordem clara aos seus comandados: “vamos alertar a quem de direito, ao respectivo ministério, pode botar Covid-19, mas bota também (que) tinha fibrose, um montão de coisa”.

Para bom entendedor, meia ordem para omitir ou distorcer informação basta.

No caso do policial rodoviário, Bolsonaro chutava que a morte era decorrência de obesidade, e não do vírus que já fazia explodir no país o índice de internados por doença respiratória.

Bolsonaro admitia que não entendia “desse negócio”, mas temia levar medo à população —que, a depender de suas declarações iniciais sobre a pandemia, poderia manter a rotina tranquilamente sem risco de morte.

Para o ex-capitão, tudo não passava de uma “pequena crise” e havia muita fantasia nas notícias sobre um vírus que “não é tudo isso que a mídia propaga”.

A contagem das primeiras centenas de milhares de mortes não ajudou o presidente a mudar de ideia nem de estratégia. Ele seguiu maldizendo as políticas de isolamento e distanciamento social, a obrigatoriedade da vacina e do uso de máscara e seguiu promovendo aglomeração por onde passou.

Pior que isso, ele foi o principal difusor da ideia de que os números da pandemia eram superestimados e chegou a usar um relatório fraudado por um servidor do Tribunal de Contas da União como endosso. Foi desmentido prontamente pelo próprio tribunal.

No mundo editável das redes, seus apoiadores, inclusive parlamentares como Carla Zambelli (PSL-SP), não perdiam oportunidade de agradar ao chefe espalhando desinformação. Uma delas era a falsa história contada pela “prima” de um sujeito que teria morrido tentando trocar o pneu do veículo, mas que em seu obituário constava morte por Covid-19. A família, segundo a corrente, estava indignada.

Leia também:

Histórias assim corriam aos montes nos aplicativos de mensagem instantânea das melhores famílias enquanto Bolsonaro espalhava a lenda de que os brasileiros não deveriam entrar em pânico; deveriam, isso sim, serem estudados, pois pulavam em rios contaminados e nada acontecia.

Pela tese, a população poderia voltar a circular e se aglomerar normalmente porque, caso alguém sentisse qualquer mal-estar relacionado à doença, havia na praça uma tal de cloroquina, peça-chave do tal tratamento precoce, para salvá-lo de qualquer infortúnio.

O Brasil está hoje perto de atingir 600 mil mortos por Covid — e não foi por falta de tratamento precoce ou cloroquina.

A cantilena foi repetida por Bolsonaro até em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU. Ele apostou com os chefes de Estado que a história e a ciência estariam do seu lado quando ficasse provado que todos erraram, menos ele, em desdenhar da cura milagrosa.

Bolsonaro repetiu também diversas vezes que a melhor forma de criar anticorpos contra Covid era pegando a doença. A aposta na imunidade de rebanho e na eficácia de medicamentos fajutos e já abandonados por qualquer país que enfrentou a pandemia com um mínimo de seriedade não teria acontecido se o líder da nação não contasse com o respaldo de médicos, empresários e seguradoras com interesses ainda obscuros a encobrir a disposição em servir de ponte para o mundo paralelo do presidente —um mundo construído à custa das verdades, omissões e informações sonegadas no atestado de óbito.

Em seu depoimento à CPI da Covid na quarta-feira 22, o diretor da Prevent Sênior, Pedro Benedito Batista Júnior, se enroscou ao tentar explicar por que diabos a operadora de saúde alterava o código do diagnóstico de seus pacientes com Covid-19 após 14 dias de internação. A ordem deveria valer para todos os médicos da empresa.

Ao menos dois atestados de óbitos, o da mãe de um apoiador fanático do presidente e o de um negacionista que morreu apostando no tratamento precoce que não o salvou, foram alterados para não constar a causa real da morte: complicações por Covid. Aquelas que Bolsonaro queria omitir desde o começo da crise.

A ordem do presidente na reunião de 22 de abril parecia ter chegado aos hospitais aliados.

A Prevent Sênior é agora alvo de um dossiê elaborado por médicos da própria operadora dizendo que clientes serviram como cobaia do uso de medicamentos que não só não tinham eficácia contra a Covid como poderiam agravar riscos cardíacos. Eles acusam a empresa de omitir mortes para não desmentir a hipótese espalhada incansavelmente pelo capitão: a de que tratamento precoce funcionava.

Aos poucos, familiares das vítimas começam a relatar o abuso, como tem mostrado em uma série de reportagens nos canais Globo o repórter Guilherme Balza.

Já na época da divulgação do estudo, especialistas apontavam uma série de buracos nas pesquisas da Prevent Sênior alardeados pelas defensores da cloroquina.

O maior deles era (e é ainda) Jair Bolsonaro, que em abril de 2020 celebrou em suas redes os resultados milagrosos apontados pela operadora agora investigada.

Com um garoto propaganda desses, a empresa conseguiu faturar R$ 4,3 bilhões no primeiro ano da pandemia. O número de clientes saltou 10% no período.

Não se pode dizer que não foi uma parceria de sucesso. Uma cresceu em meio à crise. Outro conseguiu convencer a população de que o Brasil não podia parar — nem mesmo para chorar seus mortos, tratados apenas como efeito colateral da aposta. Bolsonaro, afinal, era messias mas não fazia milagre

A dobradinha já pede ao menos uma atualização do slogan presidencial. Brasil debaixo da terra, o lucro acima de todos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos