Bolsonaro publica vídeo tomando hidroxicloroquina e faz propaganda: 'eu confio, e você?'

João Conrado Kneipp
·5 minuto de leitura
BRASILIA, BRAZIL - JUNE 05: President of Brazil Jair Bolsonaro smiles during a conference with the press and supporters  at Alvorada Palace on June 05, 2020 in Brasilia, Brazil. Brazil has over 614,000 confirmed positive cases of Coronavirus and OVER 34,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O próprio presidente relembra da falta de evidências sobre o remédio no combate à Covid-19, mas faz propaganda: “eu confio na hidroxicloroquina, e você?” (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais no qual aparece tomando o que diz ser uma dose do medicamento hidroxicloroquina, sem eficácia científica comprovada até agora contra o novo coronavírus. O próprio presidente relembra da falta de evidências sobre o remédio no combate à Covid-19, mas faz propaganda: “eu confio na hidroxicloroquina, e você?”.

O anúncio do resultado positivo foi feito pelo próprio Bolsonaro na tarde desta terça-feira (7), em entrevista restrita a três veículos de comunicação no Palácio da Alvorada, em Brasília, na qual alegou ter sentido mal estar, cansaço, um pouco de dor muscular e febre de 38ºC durante a segunda-feira. Um exame feito no HFA (Hospital das Forças Armadas) confirmou o diagnóstico do novo coronavírus.

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Bolsonaro disse aos repórteres que tomou duas doses da medicação hidroxicloroquina combinada com o antibiótico azitromicina, e que teria sentido uma leve melhora durante a madrugada. No vídeo, o presidente diz que está tomando sua terceira dose e que tem melhorado.

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“Estou tomando aqui a terceira dose da hidroxicloroquina (risos). Tô me sentindo muito bem, estava mais ou menos no domingo, mal na segunda-feira e hoje, terça, estou muito melhor do que sábado. Então está dando certo”.

Ao fim, Bolsonaro relembra que não há eficácia comprovada no tratamento da Covid-19 pela hidroxicloroquina, mas insiste em fazer propaganda do medicamento dando seu caso como prova.

“Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus. Sabemos que nenhum sua eficácia cientificamente comprovada, mas mais uma pessoa que está dando certo. Eu confio na hidroxicloroquina, e você? Valeu, tamo junto”, finaliza ele.

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Mesmo sem comprovação científica, o Ministério da Saúde recomenda o uso da azitromicina em tratamento precoce de pacientes adultos diagnosticados com a covid-19 nos primeiros cinco dias após aparecerem os sintomas, junto com a cloroquina ou o sulfato de hidroxicloroquina.

BOLSONARO NA CONTRAMÃO DA CIÊNCIA

As declarações de Bolsonaro sobre os benefícios da hidroxicloroquina, cloroquina e do antibiótico azitromicina colidem com as orientações de entidades médicas de todo o mundo.

Brazil's president Jair Bolsonaro arrives for the National Flag Raising ceremony in front of Alvorada Palace amid the Coronavirus (COVID-19) pandemic, in Brasilia, Brazil, on Tuesday, June 9, 2020. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)
Mesmo sem comprovação científica, o Ministério da Saúde recomenda o uso da azitromicina em tratamento precoce de pacientes adultos diagnosticados com a Covid-19. (Foto: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

Apesar de o Ministério da Saúde, a pedido do presidente, recomendar o tratamento da Covid-19 com essas medicações, entidades como a OMS (Organização Mundial de Saúde) não apoiam essas medidas, pois apontam que não há comprovação científica para tal.

Além disso, diversos testes com cloroquina e hidroxicloroquina foram suspensos, após não apresentarem bons resultados no combate ao novo coronavírus.

Em 30 de junho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgou uma nota para alertar sobre os riscos desses tratamentos precoces. "Nos últimos dias, muito tem se divulgado nas redes sociais a respeito do uso de medicamentos para a covid-19. Várias destas divulgações que circulam nas mídias sociais são inadequadas, sem evidência científica e desinformam o público", diz o comunicado.

A principal orientação das sociedades brasileiras da área da saúde, diante da ausência de um medicamento comprovadamente eficaz, é que o médico decida individualmente o tratamento que adotará, sempre citando os benefícios e riscos para o paciente. As medidas terapêuticas devem ser definidas conforme as necessidades e respostas de cada caso, sem que haja a imposição do uso de qualquer remédio.

Há meses, o presidente defende o uso da hidroxicloroquina e cloroquina no enfrentamento à Covid-19. Ele afirma que se trata da melhor alternativa por não haver nenhum medicamento comprovado contra o novo coronavírus.

No entanto, entidades como a OMS, a FDA (equivalente americana à Anvisa), a Sociedade Americana de Infectologia (IDSA) e o Instituto Nacional de Saúde Norte-Americano (NIH) recomendaram, em meados de junho, que os profissionais de saúde não usem cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes com a covid-19, exceto em pesquisas clínicas.

Anteriormente, a FDA havia autorizado o uso da cloroquina e derivados nos Estados Unidos para tratar a covid-19 em caráter emergencial, tendo como base estudos preliminares, sem passar por todos os testes necessários. Porém, desde a aprovação emergencial, o avanço das pesquisas trouxe evidências sólidas de que o remédio não melhora os quadros de pessoas em estado grave. Diversos efeitos colaterais, como problemas cardíacos, foram relatados. A revisão mais recente da FDA diz que o uso das substancias foi associado a relatos de arritmia cardíaca, problemas linfáticos e sanguíneos, nos rins e fígado.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia, o relatório preliminar de um grande estudo coordenado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, apontou que as medicações não trouxeram benefícios para pacientes hospitalizados.

A utilização da cloroquina e hidroxicloquina em casos de covid-19 leves ou moderados está em estudo e ainda não há resultados. Por não haver comprovação científica, entidades de saúde apontam que o uso dessas medicações é arriscado.

Já os estudos com a azitromicina apontaram que seu uso indiscriminado e inadequado favorece a resistência bacteriana. Os efeitos do antibiótico em pacientes com a covid-19 ainda não foram comprovados cientificamente.

com informações da BBC Brasil