Bolsonaro: quem são os verdadeiros terroristas?

Manifestante pró-Bolsonaro pede AI-5 durante ato. Foto: Felipe Beltrame/NurPhoto (via Getty Images)

Foi só acontecer um ato anti-fascista nas ruas de São Paulo, Rio e outras capitais, com faixas em defesa da democracia e dispersão com bombas de efeito moral, para Jair Bolsonaro e sua turma saírem a público para tachar os opositores de terroristas.

Se fosse uma estratégia original, vá lá; mas ela é uma cópia mal feita de uma promessa do presidente dos EUA, Donald Trump, que desde que era empresário-herdeiro de um conglomerado estimula com atos e palavras a discriminação e o racismo em um país que hoje explode em uma onda antirracista.

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Antes de qualquer ato ganhar as ruas, o próprio filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, falava em “ruptura”. O presidente ameaçava não obedecer ordens judiciais. Chamava miliciano de herói. Berrava contra investigações sobre a morte de uma vereadora metralhada. E não escondia os desejos de interferir na Polícia Federal até amansar a corporação à sua imagem e semelhança.

Como se ele fosse a lei.

Como se a lei fosse um detalhe.

Como se a sequência de deboches e boicotes aos esforços para contenção do coronavírus chegassem às vítimas preferenciais da pandemia como piada, e não como raiva.

Como se essa raiva tivesse de ser tratado com chá de boldo ou à bala, como acontece desde o fim da escravidão. 

A doença que caminha a passos largos para ceifar 40 mil vidas em uma semana de aberturas e pressões atendidas tem sido mais especialmente cruel com pessoas negras no Brasil. Elas representam 55% dos mortos. 

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Nos atos organizados pelas alas anti-fascistas das torcidas, a origem periférica e historicamente marginalizada deste país estava no tom da pele sob as máscaras predominantes no protesto.

Até então, as ruas tinham outra cor. Tinha também donos, e se a lei não existia para eles, tudo era permitido.

Era permitido, por exemplo, aparecer com máscaras e tochas num cosplay de ku klux klan na frente do Supremo Tribunal Federal.

Era permitido gravar vídeo ameaçando encher de porrada e infernizar a vida de um dos ministros da Corte, inclusive expondo seus dados pessoais e descobrindo onde moram suas empregadas (a homenagem não é à toa).

Era possível pedir atos institucionais que limpassem o país das divergências e discordâncias.

Era possível queimar bonecos de autoras de quem os movimentos conservadores tinham ojeriza.

Estimular as milícias virtuais contra autoridades e formadores de opinião que apontassem o absurdo que era o estado permanente de enfrentamento alimentado pelas hienas em torno do poder.

Era possível ameaçar ou prender quem atua na fiscalização de crimes contra o meio ambiente (O Brasil é o quarto país que mais mata ativistas ambientalistas no mundo, de acordo com o relatório anual da ONG Global Witness).

Era possível enfiar o dedo na cara de enfermeiras que protestam por melhores condições de trabalho enquanto tentam minimizar o morticínio da tragédia anunciada e minimizada sistematicamente pelo presidente.

Era possível buzinar em frente aos hospitais.

E provocar aglomerações em torno de caixões.

Era possível atentar contra o trabalho da imprensa com palavras, ameaças, socos e pontapés.

Qualquer reação, em nota, era vitimismo para o presidente que só vê humanidade nas curvas das espinhas que se dobram para ele.

Nesta luta de quem esmaga e depois chama as vítimas do esmagamento de terrorista não existe equilíbrio de forças. Existe um lado que mata e outro que morre.

O ódio tomou assento no Planalto e libertou os candidatos a guarda da esquina a lidar com as divergências como bem entendem. Foi o que levou um eleitor do capitão a matar o mestre de capoeira Moa do Katendê, durante uma discussão sobre política, no meio das eleições.

De terrorismo o presidente entende.

Em seus tempos no Exército, ele foi acusado de elaborar um plano com o objetivo de “explodir bombas em várias unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras” e em vários quartéis caso o reajuste aos militares oferecido pelo governo federal ficasse abaixo de 60%. Segundo o processo, a ideia era “assustar” o ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves.

Ao leitor que tiver curiosidade vale a pena conferir também a lista de legalidades cometidas por Brilhante Ustra, ídolo do presidente, em seus tempos no Doi-Codi.

Vinte e cinco anos antes de se tornar presidente, Bolsonaro, já aninhado na política, era descrito como um “mau militar” por Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura que o ex-capitão venera.

Nos últimos meses, ele e sua militância, virtual ou acampada, se armaram e prometeram ir à guerra a quem estivesse à frente de seus planos, inclusive os sistemas de freios e contrapesos. Entre seus apoiadores abundam referências a símbolos neonazistas e supremacistas -- não exatamente conhecidos pela defesa da paz e do acolhimento. Não faltou nem mesmo citação em público a Benito Mussolini, líder fascista de falso moralismo patriótico e violento que perseguiu compatriotas e lançou a Itália ao terror, à guerra e à autodestruição.

Mas, para Bolsonaro, terrorista é quem vai às ruas gritar contra o caminhão armado e desenfreado que empilha as vítimas das balas e da pandemia que seu governo estimula com gestos, ações e deboches.