Bolsonaro, presidente, agora quer ser crítico de cinema

Cena do filme Velozes e Furiosos (Reprodução)

Jair Bolsonaro talvez esteja na profissão errada.

Se tivesse conversado com coaching de carreira no fim dos anos 1980, quando decidiu trocar a farda pelo paletó, poderia descobrir que seu negócio não era política, área em que se mostrou uma nulidade em três décadas como parlamentar, e sim o cinema.

As lives semanais indicam alguma propensão ao uso da câmara para a construção de sua própria narrativa, boa parte dela ficcional. “Um ano sem corrupção”, por exemplo, poderia ser título das mais cômicas chanchadas.

Se não encontrasse sua vocação na direção, Bolsonaro poderia ser crítico de cinema, provavelmente como um dos integrantes do coletivo “Choque de Cultura”. Lá, poderia convidar também a ministra Damares Alves para analisar as mensagens subliminares de animações como “Frozen” e provocar os participantes com uma pergunta levantada semana passada: “Há quanto tempo a gente não faz um bom filme, não é?”

Desde 2016, quando fez elogios ao torturador Brilhante Ustra durante a sessão do impeachment e a possibilidade de concorrer à Presidência deixou de ser piada para virar chance real, sabe-se muito da vida e dos hábitos do capitão. Sabemos quem são seus amigos de churrasco, sua caneta predileta, seu livro de cabeceira (do Ustra, claro), seu barbeiro favorito, sua preferência por leite condensado no pão francês.

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Mas não sabemos o que emociona o capitão quando vai ao cinema. Quem mereceria um poster na parte interna da parede do armário do presidente? The Rock? Schwarzenegger? Van Dame? Stallone?

As propostas do presidente em seu primeiro ano de mandato dão uma pista de quais seriam seus filmes favoritos. As cenas devem ter carros sem limites de velocidade, tiroteio intenso, amor à bandeira americana, piada de tiozão, exploração do homem branco na mata selvagem e combate incansável contra ursos comunistas (a parte do golden shower é melhor não comentar).

De fato, o cinema brasileiro não tem sido pródigo nessas temáticas. Prefere, nas palavras do presidente, se dedicar à questão da “ideologia”, “mentiras” sobre o passado, sempre com o intuito de fazer a cabeça da população como se o “pessoal da esquerda” fosse o mais puro, ético e moral do mundo. O presidente, como se vê, não assistiu “Bacurau”.

Tudo isso vai mudar a partir de agora. “Vamos fazer filmes da história do Brasil, da nossa cultura e arte, que interessa a população como um todo, e não as minorias”, promete o presidente. Só assim sistemas como a Cota de Tela, que garante uma porcentagem das exibições às produções nacionais, poderiam ser substituídas pela própria vontade dos brasileiros em fazer frente aos bilionários estúdios de Hollywood.

Nesse cinema-raiz a verdade vos libertará, e nessa verdade não cabem histórias sobre cocaína em avião oficial, laranjas, milícias e depósitos fracionados. 

Com a faixa de presidente, Bolsonaro finalmente poderá se dedicar ao assunto que mais gosta: analisar roteiro, referendar linguagens, filtrar o que presta e o que não presta e validar as cinco estrelas do bom gosto, da moral e dos bons costumes. Resta saber para quem vai levar o Oscar da Chapa Branca já em 2020.