Bolsonaro não quer ser presidente. Quer ser notícia. Conseguiu

Apoiadores em carreata em defesa de Bolsonaro. Ueslei Marcelino/Reuters

Como militar, Jair Bolsonaro não ganhou notoriedade como herói de guerra nem colecionando patentes no uniforme verde oliva.

Ganhou fama desobedecendo superiores, provocando rebeliões e respondendo à acusação de planejar atentados a bomba em unidades militares, num processo encerrado de maneira controversa e que custou sua saída do Exército.

Como vereador e deputado, não ganhou destaque com projetos e propostas, mas pela capacidade de dizer absurdos em programas caça-audiência.

Como presidente, por que faria diferente?

Bolsonaro, é preciso reconhecer, tem uma virtude: ele sabe como virar notícia com uma câmera na mão e pouca ideia na cabeça. Já sabia disso na virada dos anos 1980 e 1990.

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Nos anos 2010, percebeu, antes de todos os pares, que na era da comunicação em rede, engajamento e bom senso andam em correntes opostas.

Da mesma forma que o youtuber, pra se destacar, precisa calibrar nos decibéis do berreiro, encher banheiras de Nutella, explodir melancias e coisas do tipo, as figuras públicas correm o risco de desaparecer no nevoeiro do anonimato se falar o que as pessoas esperam que elas digam. Na algaravia das redes, um tuíte com foliões urinando vale mais do que mil palavras. Mesmo que custe uma suspensão ou um tuíte apagado.

Quem mais faria isso?

Enquanto o mundo para e discute noções de decoro, Bolsonaro e seus seguidores sorriem satisfeitos, como quem esconde o estilingue, já pensando na próxima vidraça.

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Se estivesse em casa cumprido a quarentena, pedindo para as pessoas ficarem em casa e obedecerem às ordens médicas, Bolsonaro estava condenado a abraçar o mesmo discurso de governadores, parlamentares, ministros, vice-presidente, comunidade científica e o bom senso.

Seria notícia no primeiro domingo de isolamento.

No segundo, sem nada novo a dizer, não estaria nas manchetes dos jornais de segunda-feira em forma de reprimenda: Bolsonaro desobedece orientação médica e vai pra galera. De novo.

A desobediência obedece a uma velha tática marqueteira: falem mal, mas falem de mim.

Bolsonaro arrisca provocar uma crise sanitária, mas se nega a ser mais um no combate à pandemia. Não quer dividir o ônus de uma crise que ele diz não ser com ele.

Pelo contrário, tenta reforçar a linha direta com a ala mais desesperada da população, a que vive do trabalho informal e não pode se resguardar na quarentena.

Bolsonaro dá, assim, uma banana ao grosso da opinião pública, à comunidade médica, e reforça o mito do presidente rebelde, o que está do lado do povo que quer trabalhar e é impedido pelos mestres e doutores da lei.

“O vírus está aí. Vamos ter que enfrentá-lo. Vamos enfrentar como homem, não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade, todos nós vamos morrer um dia”, filosofa o presidente, para aplauso de alguns, desprezo de outros, e engajamento de todos. 

Quem falaria do líder brasileiro não fosse sua condução errática, e oportunista, da crise? Alguma revista de prestígio internacional se preocuparia em dar a ele o título de presidente mais incapaz de resolver o problema?

Mas quem disse que Bolsonaro quer resolver problemas?

Quem disse que está preocupado em salvar vidas?

Quem disse que quer governar?

Como um personagem de Guimarães Rosa, que sobe na árvore para dizer palavras desconexas e vira celebridade instantânea, Bolsonaro quer ser notícia pelo contraste. Foi assim que chegou até onde chegou: com poucas ideias e muitas melancias penduradas no pescoço, uma delas em forma de golden shower.

De novo, conseguiu.