Bolsonaro 'raspa' verba para universidades em dia de jogo. Tem como ser mais cruel?

Demonstrators inflate a doll depicting Brazil's President Jair Bolsonaro during a protest in support of gun rights and Brazilian President Jair Bolsonaro, in Brasilia, Brazil, July 9, 2022.REUTERS/Adriano Machado
Menos livros, mais armas: o lema extraoficial do governo Bolsonaro.Foto: Adriano Machado/Reuters

Na tarde da última segunda-feira (28/11), enquanto um país inteiro parava para assistir ao segundo jogo da seleção brasileira na Copa do Qatar, contra a Suíça, o governo Bolsonaro botou a tesoura para trabalhar e cortou R$ 344 milhões do orçamento destinado às universidades federais.

A medida, tomada no apagar das luzes da atual gestão, foi alardeada no mesmo dia pela Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior).

A entidade disse ter recebido a notícia com “surpresa e consternação”. Os recursos seriam destinados a pagamento de luz, serviços de terceirizados, contratos, serviços e bolsas.

“Após o bloqueio orçamentário de R$ 438 milhões ocorrido na metade do ano, essa nova retirada de recursos, no valor de R$ 344 milhões, praticamente inviabiliza as finanças de todas as instituições”, comunicou a entidade.

Segundo a Andifes, “em vista dos sucessivos cortes ocorridos nos últimos tempos, todo o sistema de universidades federais já vinha passando por imensas dificuldades para honrar os compromissos com as suas despesas mais básicas”.

A entidade disse esperar que a retirada dos recursos seja revista o mais breve possível.

O corte abrupto, feito durante a partida, mostra que até o fim do ano muito estrago ainda pode acontecer no apagar das luzes da gestão.

Os (ir)responsáveis pela (anti)política educacional do atual governo parecem seguir à risca a cartilha de Ricardo Salles, que queria aproveitar as atenções da imprensa na cobertura da pandemia da Covid-19, em 2020, para “passar a boiada” da desregulamentação das normais ambientais.

Até 31 de dezembro, a boiada está liberada para pisotear o que resta do sistema educacional brasileiro.

Isso em um momento em que o futuro governo negocia com o Congresso uma saída para manter os benefícios do Auxílio Brasil, inflados por Bolsonaro na tentativa de ganhar as eleições, a partir do ano que vem. Uma saída é tirar os recursos para o programa social do teto de gastos.

O orçamento “raspado” dos institutos federais, como classificou a Andifes, mostra que a conta do Auxílio Brasil não é o único buraco orçamentário a ser fechado na transição.

Ao assumir a Presidência, Jair Bolsonaro (PL) prometeu a apoiadores que seu objetivo não era construir nada, e sim desconstruir muita coisa. Ninguém pode dizer que ele não conseguiu.

A gestão da educação nos últimos quatro anos é emblemática. Nada menos do que quatro ministros (e meio) passaram por aquele que deveria ser um dos ministérios mais importantes da Esplanada. Três saíram pela porta dos fundos. Um, por incompetência; outro, por manifestar em voz alta o desejo de prender ministros do Supremo Tribunal Federal; outro, por suspeita de ter transformado o ministério em um balcão de negócios administrado em parceria com dois pastores igualmente suspeitos. Um ex-futuro ministro fraudou o próprio currículo e sequer chegou a assumir.

Em quatro anos, Bolsonaro jamais mostrou qualquer apreço por universidades e instituições de ensino. O desprezo por consensos científicos durante a pandemia rendeu a ele uma acusação formal de charlatanismo.

Na campanha, ele chegou a “acusar” o adversário Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de querer substituir clubes de tiro por bibliotecas, como se alguém fosse prejudicado por isso.

A herança maldita deixada por Bolsonaro no campo da educação ainda está para ser dimensionada. Uma delas certamente é a apatia de estudantes que desistiram do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, e nem tentaram uma vaga para as universidades nos últimos anos.

Isso tudo não é descaso. É projeto e tem método.

Exemplo dessa situação é o processo movido pelo Ministério Público Federal contra o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Ele é acusado de atentar contra princípios da administração pública ao dizer que universidades eram locais de “balbúrdia, arruaça”, plantação e fabricação de drogas – uma grande fake news para deslegitimar as instituições públicas de ensino. Para quê? Talvez para rebaixar o prestígio das universidades junto à opinião pública e vendê-las sem resistência para a iniciativa privada em uma grande liquidação.

Com ministros do tipo, o governo Bolsonaro mostrou ser inimigo da educação brasileira desde o primeiro dia da gestão.

Mas nem na mais pessimista projeção era possível imaginar que ele mandaria cortar a verba que ainda mantém as universidades de pé em dia de jogo do Brasil. Tem como ser mais cruel?

Saberemos até 31 de dezembro.