Bolsonaro rebate manifesto em defesa da democracia e diz que 'não precisa de cartinha' para respeitar a Constituição

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira que não precisa de “nenhuma cartinha” para falar que “defende a democracia” nem de sinalização de apoio de “quem quer que seja” para mostrar que o caminho é “democracia, liberdade e respeito à Constituição”. A declaração ocorre um dia após ex-ministros do Supremo Tribunal Federal, acadêmicos, empresários e entidades da sociedade civil assinarem um manifesto em favor da democracia em reação aos seguidos ataques ao sistema eleitoral que Bolsonaro tem feito.

— Vivemos num país democrático, defendemos a democracia, não precisamos de nenhuma cartinha para falar que defendemos a democracia, que queremos cada vez mais, nós, cumprir e respeitar a Constituição. Não precisamos então de apoio ou sinalização de quem quer que seja para mostrar que o nosso caminho é a democracia, é a liberdade é o respeito à Constituição.

Bolsonaro participou da convenção nacional do Progressistas, partido do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e do presidente da Câmara, Arthur Lira. A legenda compõe a base do governo e oficializou o apoio à reeleição do presidente. Bolsonaro chegou ao auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, ao lado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Com cerca de 100 mil assinaturas, o manifesto em favor da democracia é apresentado pelos organizadores como reação aos reiterados ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral e às instituições, embora não mencione diretamente o nome do presidente. O documento será lido no Largo de São Francisco, no dia 11 de agosto, em um ato em defesa da democracia brasileira.

Há um outro manifesto em defesa da democracia articulado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes da Silva, e um grupo de grandes investidores, empresários e advogados que deve ser divulgado até sexta-feira. Gomes consultou na noite de segunda-feira um colegiado de dezenas de diretores da Fiesp, majoritariamente favoráveis à publicação do documento.

O documento terá de instituições representativas de diversos segmentos da indústria nacional e também de entidades da sociedade civil. A ideia do texto, segundo um dirigente da entidade, é mostrar que quaisquer ataques às instituições e ao Estado de Direito não têm respaldo das grandes empresas brasileiras.

O texto já tem o apoio da Fiesp, da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), além da Comissão Arns. Segundo empresários familiarizados com o assunto, o texto está em análise, também, por entidades como o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP).

O ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, presidente licenciado do PP, afirmou na Convenção que caso eleito, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que fazer concessões para construir a base do governo, prevendo que cerca de 370 deputados aliados a Bolsonaro seriam eleitos neste ano.

Ciro ressaltou que Bolsonaro não angariou apoio na política “toma lá da cá” e que blindou estatais e ministérios. Ao longo do governo, no entanto, Bolsonaro se aproximou de partidos do Centrão que já apoiaram governos petistas, como o próprio Progressista. O Centrão também teve nomes indicados para ministérios e para estatais.

— Nós vamos ter um congresso de mais de 370 deputados aliados ao presidente Bolsonaro. Olha as concessões que haverá de fazer para construir a sua base. O senhor construiu a sua base não através toma lá da cá. O senhor blindou as estatais, blindou os ministérios, não tem mais aquela história de porteira fechado e o país não quer mais retroceder a essa época.

Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto por volta das 17h40 e foi caminhando à Câmara dos Deputados. Ele estava acompanhado da primeira-dama Michelle Bolsonaro e do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e das Comunicações, Fábio Faria.

Na saída do Planalto, Michelle tirou fotos com uma noiva e cumprimentou apoiadores. Como mostrou O GLOBO, o núcleo da campanha quer intensificar a presença da primeira-dama ao lado do presidente na tentativa de diminuir a resistência do eleitorado feminino.

Durante a caminhada, Bolsonaro foi questionado por repórteres sobre os ataques que têm feito ao processo eleitoral, mas foi orientado pelos ministros a não responder. Ele também indicou que debateria com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições.

— Vou debater com o cara — disse Bolsonaro. Em outras ocasiões, Bolsonaro já indicou que iria aos debates desde que Lula confirmasse presença.

Como o GLOBO mostrou, a participação de Michelle na convenção no Rio de Janeiro no último domingo animou o núcleo da campanha que trabalha pela reeleição de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Integrantes do grupo entendem que, apesar disso, ela não deve mergulhar de cabeça no projeto eleitoral do marido, mas se dedicar apenas a agendas pontuais. A equipe de reeleição acredita que o casal junto “funciona melhor” para a missão de suavizar a imagem de Bolsonaro do que apostar em agendas separadas e, por isso, essa deve ser a prioridade.

O núcleo político do projeto da reeleição avalia que a presença dela ao lado de Bolsonaro em eventos no período eleitoral tem potencial para diminuir a resistência do titular do Palácio do Planalto entre as mulheres, grupo em que, segundo as pesquisas, o presidente não tem o mesmo desempenho que entre os homens.

Com isso, a ideia seria priorizar a participação de Michelle em eventos com o presidente em vez de ter uma agenda própria de viagens. Uma das hipóteses é que ela possa conciliar as agendas e, durante as viagens com o marido, reservar um momento para falar diretamente às eleitoras, principalmente em igrejas evangélicas ou com entidade de ações sociais ligadas às causas em que ele já atua.

Nesta quarta-feira, durante seu discurso na Câmara dos Deputados, Bolsonaro chamou Michelle de “minha superiora” e elogiou o discurso na esposa na Convenção.

— Na convenção falei por 1h10. E dona a Michelle, minha superiora, falou por 20 minutos e falou muito melhor do que eu – afirmou Bolsonaro. Michelle não discursou na Convenção desta quarta-feira.

Também participaram da convenção a ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, e o governador do DF, Ibaneis Rocha, candidato apoiado por Bolsonaro para a reeleição. O evento teve clima de campanha e reproduziu num telão por mais de uma vez o jingle de Bolsonaro e o vídeo do PL feito para a campanha de reeleição.

Pelo auditório, diversas pessoas vestiam a camisa “Cristina Bolsonaro, #juntosporBrasília”, uma referência à candidatura de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Bolsonaro e mãe de Jair Renan, a deputada distrital pelo PP.

Cristina, que atualmente trabalha no gabinete da deputada Celina Leão, acompanhou o evento usando uma camisa que estampava “Cristina Bolsonaro”, nas cores verde e amarelo. Jair Renan, por sua vez, não esteve presente por conflito de agenda com outros compromissos.

— Ele vai se engajar na minha campanha e na do pai. Ele não veio hoje porque já tinha outro compromisso — respondeu ao GLOBO.

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