Nova Previdência avança, Bolsonaro silencia, mas faz elogio ao trabalho infantil

Para Bolsonaro, Brasil aceita criança com crack, mas não trabalhando. Faz sentido a comparação?

Você já viu essa cena antes.

Na mesa do bar, o sujeito bate no peito pra dizer que, na infância, vivenciou alguma experiência condenável nos dias atuais, mas corriqueira num passado glorioso e, ainda assim, não foi prejudicado em nada na vida adulta. Por exemplo, alguém que teve de trabalhar muito cedo, que sofria bullying na escola e aguentava na boa ou que apanhava dos adultos para entrar no eixo.

Mas o menino é o pai do homem, dizia Machado de Assis, e os olhos, hábitos, discursos, vícios, dependências, agressividade e outros transtornos facilmente identificáveis no adulto de hoje são delatores de todos os prejuízos além da fala.

Se antes a conversa era digna de pena, hoje ela é fala de autoridade, e é transmitida ao vivo pelo presidente da República, que durante a sua live semanal declarou: “trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda, eu não fui prejudicado em nada. Quando um moleque de 9, 10 anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí ‘trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil’. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada”.

A comparação parece desonesta, e é (ou você já viu alguém procurar crack para compensar a frustração por não poder trabalhar aos nove anos? Ou você conhece alguém que não falaria nada, nem mesmo lamentaria, ao ver uma criança com um cachimbo na mão? Ou você acha que dá para identificar um nexo causal entre um fenômeno e outro?).

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli


A louvação ao trabalho desde cedo pode ser muito bonita, mas só beneficia quem pode se dedicar integralmente aos estudos até a vida adulta, sem concorrência, em busca das vagas nas melhores universidades e oportunidades de trabalho.

Num país de oportunidades escassas como o Brasil, onde ser criança e poder se dedicar aos livros é também um privilégio, a fala soa como escárnio – ainda mais quando o esforço do presidente em aprovar a reforma da Previdência, já chamada de reforma das reformas, se resume a um apelo para que parte de sua base eleitoral, os agentes de segurança, tivesse afrouxadas as regras para se aposentar.

Sobre a reforma, em si, nenhuma palavra – talvez para não ficar em maus lençóis com quem já o chama de traidor.

Trabalho duro mesmo ficou por conta dos deputados da comissão especial, que levaram 17 horas para aprovar, por 36 votos a 13, o texto-base da proposta, que pode agora ser analisada pelo Plenário já na próxima semana.

Pela proposta, a idade mínima para aposentadoria passa a ser 65 anos para homens do setor público e do privado, e 62, para mulheres, entre outros pontos. O sacrifício – palavras do presidente – deve ser de todos.

Nos destaques do relatório, ficou definido que a idade mínima para policiais federais é de 55 anos e a de professores, de 60 (homens) e 57 (mulheres).

Para um jovem que começa a contribuir agora, é no mínimo uma fonte de ansiedade imaginar como será o mundo até lá – um mundo, ao que parece, mais conectado, com mais trabalho autônomo, mais inteligência artificial e mais profissões em extinção.

Tudo frescura, nas palavras de quem está com a vida ganha.

No mundo ideal de Bolsonaro, livre do politicamente correto, os brasileirinhos que começassem a pegar na enxada hoje, aos 9 anos, deveriam esperar outros 56 para se aposentar com um salário mínimo – isso se as regras não mudarem novamente até lá. A boa notícia é que, se depender do presidente, eles poderão descansar treinando a pontaria em escolas de tiro com a autorização dos pais.

Ex-capitão do Exército, Bolsonaro se aposentou aos 33.