Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em fevereiro?

Isac Nobrega/Presidency Brazil/Handout via Reuters

O triunfo do bolsonarismo continuava a render entre os apoiadores no mês de fevereiro, mas o governo já tropeçava em conflitos. Polêmicas pelo twitter, áudios de WhatsApp vazados e até a demissão de um ministro levantaram o alerta de uma crise já no segundo mês de mandato, e o pano de fundo, em parte, estava na insistência do presidente Jair Bolsonaro em esticar a corda nas discussões ideológicas em detrimento de ações práticas de governabilidade. 

Bolsonaro foi eleito pelas promessas de atacar a corrupção, combater a escalada do crime, reanimar a economia e lutar contra o sistema. Ele manteve-se a reboque de polêmicas e de alfinetadas distribuídas a desafetos, principalmente aqueles da esquerda. O protagonismo do Brasil acima de todos em fevereiro, na verdade, foi do clã Bolsonaro – que está em evidência no governo como nenhum outro presidente da história permitiu. 

Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em janeiro?

Em nome do pai 

Na prática, é como se os brasileiros não tivesse escolhido apenas Jair Bolsonaro como presidente, mas também todos seus filhos políticos para comandar o país. Flávio, Eduardo e Carlos são chamados de 'pitbulls' do presidente, mas o trio faz mais que a guarda do capitão reformado do Exército. 

AP Photo/Eraldo Peres

Em apenas 49 dias de governo, Bolsonaro demitiu o Ministro à frente da Secretaria-Geral da Presidência após o ‘aval’ do filho 02 Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro. Ele é o polêmico gestor das redes sociais do pai – o mesmo que apareceu durante o desfile oficial de 1 de janeiro, sentado na parte traseira do Rolls-Royce presidencial. 

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Com seu temperamento incendiário na missão de proteger o pai, Carlos conseguiu forçar a demissão de Bebianno, que até então era figura-chave que acompanhava Bolsonaro desde a corrida eleitoral. A crise política foi desencadeada com a revelação de um esquema de candidaturas laranjas do PSL, o partido do presidente. 

AP Photo/Leo Correa

A queda de braço começou após Bebianno ter afirmado em entrevista que teria conversado com Bolsonaro com por três vezes, negando a turbulência política causada pelas denúncias das candidaturas laranjas, quando o presidente ainda estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. 

Carlos avançou e chamou o ministro de mentiroso em uma publicação no Twitter, e aí começou a lavação de roupa suja dentro do que os 280 caracteres que a rede social permitiu. O Presidente da República seguiu o filho e endossou os ataques na rede social, inclusive dizendo que Bebianno mentiu.  

Brasil governado pelo fígado

Os Bolsonaros ainda lidavam com as notícias da candidatura laranjas do PSL, que receberam milhares de reais apenas para cumprir tabela, quando foram divulgadas as trocas de mensagens via WhatsApp entre o presidente e seu ex-ministro. 

Os dois trocaram farpas, fizeram acusações e se desentendem sobre diversos assuntos. O tom do presidente não foi nada apaziguador, um spoiller do descontrole que seria ainda visto pelos brasileiros nos próximos meses. Enquanto Bibiano fala com tranquilidade: “Eu só prego a paz, o tempo inteiro”. Você pode conferir a conversa da dupla aqui.

Gustavo Bebianno teve sua baixa no dia 18 de fevereiro, e foi substituído pelo general da reserva Floriano Peixoto Neto. Fica a dúvida se os filhos se deslumbraram com o poder, mas o que dá para arrematar é que o início do Governo Bolsonaro não tropeçou em adversários políticos, como era de se esperar. O Brasil governado pelo fígado gerou problemas com seu próprio núcleo. 

Além disso, o fato do filho interferir em questões que deveriam ser tratadas exclusivamente pela presidência começou a ser vista com preocupação – e não apenas dentro do Itamaraty. 

SERGIO LIMA/AFP via Getty Images

E não é a apenas a fidelidade canina que rendeu apelidos a ele. Para alguns políticos do PSL, Carlos Bolsonaro tem outro nome: Tonho da Lua, o icônico personagem interpretado por Marcos Frota na novela Mulheres de Areia. Era uma pessoa com problemas psiquiátricos e dificuldade de lidar com o bem e o mal. E foram os seus rompantes de raiva e a dificuldade de dialogar que o fez ganhar a alcunha pouco bondosa. 

A laranja que mais incomoda 

Carlos não é o único filho do presidente que gera polêmica. O primogênito Flávio, 37 anos e senador (PSL), é suspeito de irregularidades financeiras que quase ofuscaram o início do mandato de seu pai com o ‘Caso Queiroz’. 

O Ministério Público aponta indícios de que uma organização criminosa foi montada no gabinete do 01 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, para desviar dinheiro dos salários dos funcionários, a chamada “rachadinha”. Para encobrir a ação fraudulenta, os valores eram lavados com a compra e venda de imóveis.

AP Foto/Leo Correa

Na segunda quinzena de fevereiro, Agostinho Moraes da Silva, primeiro depoente ouvido sobre o caso de movimentações suspeitas admitiu que, todos os meses, depositava dois terços de seu salário de aproximadamente R$ 6 mil na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho do presidente Jair Bolsonaro.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) constatou que Queiroz teve movimentações atípicas e incompatíveis com sua renda. O valor das transações foi de R$ 1,2 milhão em uma conta, no período entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Ele alega que as transferências para Queiroz eram investimentos que o assessor desempenhava no ramo de compra e venda de veículos. Agostinho não apresentou documentos que comprovassem suas afirmações. 

Mourão, o vice moderado 

Mas enquanto os ânimos estavam alterados, uma única figura do governo mostrava-se ponderada. O vice, General Hamilton Mourão, surpreendia pelos espasmos de sensatez e pelo papel de mediador que adotou no governo, além de manter uma agenda com ‘inimigos’ do planalto. 

“Diz a velha prática que roupa suja a gente lava no tanque da casa e não da casa dos outros. Esta crise está ligada às denúncias em relação aos gastos de campanha do PSL e a um certo protagonismo do filho do presidente que, no afã de defender o pai, interferiu levando as discussões e debates em rede social que acabam sendo de domínio público, o que não é bom”, disse o vice, adotando uma postura ponderada sobre a briga envolvendo o filho o Bolsonaro e Bibianno. 

É inegável que militarismo voltou ao poder, e a figura do vice-presidente sensato se constrói a medida que afasta o seu passado de elogios ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar

O militar mais brando do governo recebeu, entre outros, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT),Vagner Freitas, militante do PT e um dos coordenadores da campanha de Fernando Haddad à Presidência da República. Esteve também com o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB. No governo, Mourão é âncora de política externa de Bolsonaro, mas também tem se mostrado um grande estrategista

Vai ter que aprovar isso aí

Em uma reunião com integrantes do governo para discutir a proposta para a reforma da Previdência a ser enviada ao Congresso, considerado um momento crucial para o governo, Bolsonaro virou o protagonista. 

Dessa vez por usar uma camisa falsificada do Palmeiras, dessas que se compram na porta do estádio, no modelo verde limão. Para completar, a equipe de engravatados, incluindo o “superministro” de economia Paulo Guedes, posou para uma “foto oficial” ao lado do presidente que usava chinelos, uma calça de náilon e um paletó sobre a mesmo uniforme do ‘verdão’.  

Reprodução

Enfim, no dia 20 de fevereiro, Bolsonaro apresentou à Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição 6/2019, da Reforma da Previdência. O projeto previa uma idade mínima para a aposentadoria, sendo de 65 anos para funcionários privados e públicos, aumento o tempo mínimo de contribuição para 20 anos, entre outras coisas. Mas a PEC ainda faria um grande passeio pela Câmera dos Deputados. 

texto elaborado pela equipe econômica chegou ao Congresso em um momento de crise do governo, logo após a demissão de Bibianno. A falta de diálogo entre o Palácio do Planalto e lideranças da Câmara desgastou ainda mais a relação. O mês carregava ainda o fatiamento das propostas de Segurança e um revés na Câmara com a derrubada do decreto que regulamenta pontos da LAI (Lei de Acesso à Informação). 

Literalmente, não estava sendo fácil para o presidente ultraconservador nos costumes, mas liberal na economia. A nação continuava dividida e se recusava a ouvir o outro. Nenhum livro, não importa o tempo, será capaz de cobrir essa história caleidoscópica – sem falar nas consequências – em sua totalidade.