Bolsonaro sabia da compra de vacinas, mas recuou após pressão de apoiadores em redes sociais

GUSTAVO URIBE, NATÁLIA CANCIAN E DANIEL CARVALHO
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SOROCABA, SP, 21.10.2020 - JAIR-BOLSONARO-SP - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, durante visita a centro tecnológico na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, nesta quarta-feira (21). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
SOROCABA, SP, 21.10.2020 - JAIR-BOLSONARO-SP - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, durante visita a centro tecnológico na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, nesta quarta-feira (21). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro foi informado no último final de semana da intenção da compra, pelo Ministério da Saúde, de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, em desenvolvimento pela empresa chinesa Sinovac com o Instituto Butantan.

Segundo assessores tanto do Palácio do Planalto como do Ministério da Saúde, Bolsonaro, inicialmente, não se opôs à iniciativa, mas mudou de posição no final da tarde da terça-feira (20), após repercussão negativa de seus apoiadores nas redes sociais.

Desde o anúncio feito pelo ministro Eduardo Pazuello, em reunião virtual com governadores, eleitores bolsonaristas iniciaram campanha nas redes contra o que chamam de "vacina chinesa".

As críticas chegaram ao perfil oficial do presidente, que decidiu adotar um recuo estratégico. Na própria terça-feira (20), segundo relato feito à Folha, ele telefonou a Pazuello para informar que se posicionaria contra o anúncio.

Na manhã desta quarta-feira (21), antes de o presidente se manifestar nas redes sociais, Pazuello chegou a entrar em contato com representante do governo paulista. Segundo um auxiliar da gestão estadual, ele informou que a compra de doses seria menor do que a anunciada no dia anterior.

A tentativa do ministro de diminuir a tensão, no entanto, não deu certo. Após as críticas do presidente, Bolsonaro e Pazuello se falaram por telefone para ajustar a mudança de discurso e combinar a divulgação de uma nota pública, na qual alegaram que houve "interpretação equivocada".

Como lembraram auxiliares palacianos, Pazuello costuma informar todas as iniciativas de sua pasta a Bolsonaro e não faz nada sem o conhecimento do chefe do Executivo, o que não foi diferente neste episódio.

Em conversas reservadas na manhã desta quarta, o presidente elogiou a rápida reação de Pazuello e disse que ele não é como o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que resistia a obedecer e a seguir as suas orientações.

Segundo aliados do general, apesar de ter recebido diagnóstico de que está com Covid-19, ele demonstrava tranquilidade nesta manhã, sem receio de retaliação do presidente.

Além da reação negativa nas redes sociais, o recuo do presidente, segundo assessores, deveu-se à comemoração do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Após o anúncio de Pazuello na terça-feira, Doria disse que "venceu o Brasil".

O tucano é pré-candidato à sucessão presidencial em 2022, quando Bolsonaro pretende disputar a reeleição. Em mensagem a ministros, relatada à Folha, o presidente ordenou que, a partir de agora, sua equipe não trate sobre iniciativas de imunização com o governador paulista.

Pessoas próximas a Pazuello dizem que uma declaração de Bolsonaro contra a vacina CoronaVac direcionada ao seu eleitorado fiel já era, em parte, esperada, dado o tom adotado pelo presidente nos últimos dias.

A atitude agressiva, no entanto, pegou de surpresa parte do grupo. Nas redes sociais, Bolsonaro chegou a falar em traição. Fez ainda um comunicado na internet sobre o que chamou de "vacina chinesa de João Doria": "Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem", escreveu. "Diante do exposto, minha decisão é a de não adquirir a referida vacina."

A afirmação de não investir em uma vacina que não ultrapassou a fase de testagem, porém, contrasta com a decisão do próprio governo, que anunciou em agosto um acordo para compra de 100 milhões de doses da vacina em desenvolvimento pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca. O valor investido também foi de R$ 1,9 bilhão.

À Folha, secretários de saúde que acompanharam o encontro de terça ressaltaram que a crítica feita por Bolsonaro não faz sentido, uma vez que a maior parte dos insumos para todas as vacinas já provêm da China, o que teria sido, inclusive, citado na reunião entre o ministro e os governadores.

Como mostrou a Folha, Pazuello enviou no dia 19 de outubro ao diretor-geral do Instituto Butantan, Dimas Covas, um ofício em que confirmava a intenção de compra das doses. No ofício, o ministro informava ela requeria aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

No encontro virtual com governadores, o ministro disse que a CoronaVac seria "a vacina brasileira" e que o seu ofício "é o compromisso da aquisição dessas vacinas".

A declaração do presidente Jair Bolsonaro de que o governo não deve comprar a Coronavac gerou reação de secretários estaduais de saúde.

Em nota divulgada nesta quarta (21), o Conass, que reúne os gestores, voltou a defender que todas as vacinas que tiverem estudos concluídos e forem aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sejam incluídas no Programa Nacional de Imunizações, "independentemente da sua origem ou nacionalidade".

Em uma indireta às falas do presidente, a nota diz ainda que "nenhuma convicção pessoal pode se sobrepor à ciência".

"O método científico pressupõe controle, sistematização, revisão e segurança sobre o seu campo de investigação, de modo que seu resultado não pode simplesmente ser desconsiderado por contendas outras."