Bolsonaro se descontrola e abandona entrevista ao ser questionado sobre mentira em debate

Passadas duas horas e meia do último debate antes do segundo turno, o presidente Jair Bolsonaro (PL) não conteve seu temperamento durante entrevista aos jornalistas que acompanhavam o programa nos Estúdios Globo, na capital carioca. Incomodado com questionamentos sobre seu isolamento internacional, com o “rótulo” de candidato e com a ida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Complexo do Alemão, Bolsonaro deixou a coletiva visivelmente irritado e com resposta atravessada, sob a assessoria do ex-juiz e senador eleito Sergio Moro (União-PR), que chegou a representar o presidente para a imprensa.

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Bolsonaro chegou à sala de imprensa minutos depois do fim do debate, acompanhado de uma comitiva de aliados. Entre os presentes, estiveram os ministros Fábio Faria e Ciro Nogueira, além do ex-secretário e um dos coordenadores da campanha do presidente, Fábio Wajngarten, o assessor Filipe Martins, o deputado Hélio Lopes (PL-RJ) e o pastor Silas Malafaia. Foi Moro, no entanto, quem entrou no estúdio onde ocorreu a entrevista ao lado de Bolsonaro, permaneceu com o presidente durante todo o tempo e assumiu o microfone quando ele se recusou a responder.

Avisado pela produção da Globo de que o tempo para sua entrevista havia acabado, Bolsonaro se recusou a deixar a sala, e passou a dar a palavra para Sergio Moro. Houve ainda tempo para mais uma pergunta, que o presidente não respondeu. Ele foi questionado sobre o porquê de insistir na mentira, em dizer que Lula teve que negociar com traficantes para realizar ato no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, embora já tenha sido noticiado que o ato foi organizado pelo ativista e jornalista Renê Silva. A pergunta irritou o presidente, que perdeu a compostura, deu tapa no púlpito de onde falava e logo se retirou, sob orientação de membro de sua equipe.

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— Ou, você tem moral para me chamar de mentiroso? Você tem moral para me chamar de mentiroso? O cara entrou, entrou… — disse sem terminar a frase, antes de deixar o local abruptamente, acompanhado de seus aliados.

— Tira ele daí, tira ele daí — afirmou membro de sua equipe no local.

O único remanescente no local foi o ex-juiz Sergio Moro, que se dedicou a defender a postura do presidente e responder no lugar de Bolsonaro.

— Na verdade, essas questões são relacionadas ao apontamento de que existe uma política de insegurança pública dos governos do PT — afirmou o ex-juiz.

"Portunhol"

Tal como já havia feito no debate, Bolsonaro citou o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) já na primeira resposta, o que classificou como uma “desgraça”, e valorizou a política econômica de seu governo, ao afirmar que triplicou o valor do Bolsa Família (sem mencionar a mudança no cenário da inflação), reduziu o preço dos combustíveis, e que o “Brasil está bem com todos os países do mundo”. Avisado de que, como candidato à Presidência, ele teria só mais um minuto para falar, no entanto, Bolsonaro pediu que fosse tratado pelo cargo que ocupa atualmente.

— Se for candidato, eu vou embora. Eu sou presidente da República, candidato eu era lá dentro — disse, de maneira ríspida.

Em outro momento, o presidente foi questionado por jornalista da RTP, de Portugal, sobre o isolamento do Brasil em nível internacional. Apesar de o repórter falar português, no entanto, o presidente afirmou não entender “espanhol ou portunhol”.

— Não entendi o que você falou. Você vai repetir e vou continuar não entendendo. Eu não falo espanhol nem portunhol. Me desculpa, aqui, mas não falo — pontuou o presidente, antes de citar encontros com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o da Rússia, Vladimir Putin, além de conversas com o “mundo árabe” e “relações” na América do Sul.

Alckmin troca acusações com Moro

Diferentemente de Bolsonaro, no entanto, o ex-presidente Lula optou por não ir à entrevista com os jornalistas após o debate. No lugar do petista, foi o candidato a vice em sua chapa, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB). Ao chegar no local, Alckmin não esperou receber perguntas para fazer seu pronunciamento. Conforme mostrou a colunista do GLOBO Malu Gaspar, ele leu um trecho do livro "Contra o sistema da corrupção", de Moro, no qual o senador eleito relata que Bolsonaro tentou impedir a transferência do líder de facção criminosa Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, para fora de São Paulo.

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No debate, Bolsonaro alegou ter transferido Marcola para um presídio federal, o que não procede — o presidente não participou das tratativas.

— Moro escreve no seu livro que Bolsonaro lhe mandou um e-mail pedindo que não fosse feita a transferência de Marcola. Foi impedida antes dele assumir pelo MP-SP e foi autorizada no começo de 2019 por ordem do TJ-SP — disse Alckmin aos jornalistas após ler o trecho do livro em que Moro relata a tentativa de dificultar a transferência do criminoso.

O candidato a vice não respondeu a perguntas da imprensa e deixou o local na sequência. — É importante esclarecer — disse Alckmin, de saída.

Questionado sobre o assunto, ao lado do presidente, Moro criticou Alckmin pela política penitenciária voltada para líderes de facções criminosas. O ex-juiz disparou contra Alckmin e fez uma defesa enfática de Bolsonaro, com quem ficou rompido entre 2020 e este ano.

— Sobre o episódio que Alckmin falou, de fato planejamos a transferência dos líderes desta facção. Isso teve o consentimento do presidente Bolsonaro. Antes ele externou preocupação e pensou até em cancelar a operação, mas não cancelou. Se houve receio, foi por no máximo dois dias, e o próprio presidente mudou de opinião", disse Moro, contradizendo seu próprio livro. "O governo do PT e Geraldo Alckmin se omitiram diante da morte de 50 policiais e atentados terroristas de 2006 em São Paulo — disse Moro.