Bolsonaro se irrita com pergunta sobre imóveis e diz que família é perseguida

Bolsonaro discursa em cerimônia no Palácio do Planalto

Por Eduardo Simões

SÃO PAULO (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) se irritou nesta terça-feira com uma pergunta sobre reportagem que mostrou que familiares seus compraram dezenas de imóveis em dinheiro vivo, questionou o casamento da jornalista que formulou a pergunta durante entrevista à Jovem Pan e disse ser uma "covardia" o que chamou de perseguição promovida contra parentes seus.

Durante a entrevista, a jornalista Amanda Klein indagou Bolsonaro sobre reportagem do portal UOL segundo a qual, desde a década de 1990, Bolsonaro, sua mãe, irmãos, filhos e ex-mulheres negociaram 107 imóveis, sendo 51 deles pagos total ou parcialmente com dinheiro vivo, com o registro da forma de pagamento em cartório constando como "em moeda corrente nacional", que, também segundo o portal, é expressão padronizada para repasses em espécie.

A jornalista questionou o presidente sobre a origem dos recursos e mencionou suspeitas de rachadinha --prática em que o parlamentar se apropria de parte do salário de seus assessores-- em gabinetes parlamentares de Bolsonaro e dos filhos.

Segundo a reportagem do UOL, a negociação de ao menos 25 desses 51 imóveis adquiridos com dinheiro vivo geraram investigações dos Ministérios Públicos do Rio de Janeiro e do Distrito Federal.

Em resposta à pergunta, Bolsonaro questionou a vida privada da jornalista.

"Amanda, você é casada com uma pessoa que vota em mim, eu não sei como é o teu convívio na sua casa com ele, mas eu não tenho nada a ver com isso. Não responda, por favor", disse, quando a jornalista disse que sua vida particular não era pauta da entrevista, mas a de Bolsonaro sim, por ele ocupar a Presidência da República.

"Eu sei que eu posso pedir uma certidão negativa, certidão de 11 reais, se eu pegar os bens do seu marido. Eu vou pedir, Amanda, respeitosamente, uma certidão de 11 reais do seu marido nos fóruns onde por ventura tenha correspondência, tenha casa, imóveis, e quero ver na escritura, quando ele comprou, se está escrito 'em moeda corrente' ou não. E daí, Amanda, vai estar escrito 'em moeda corrente' e você vai falar o quê? Que foi em dinheiro vivo também?", disparou o presidente.

Bolsonaro disse não ter mais contato com suas duas ex-mulheres --cujas negociações de imóveis também são citadas pelo portal-- e chegou a afirmar que o objetivo era de atacar sua mãe, que já faleceu, já que a reportagem do UOL cita que imóveis adquiridos no nome dela também foram pagos em espécie.

"Tenho duas ex-mulheres, não tenho contato com elas, ambas casaram depois que separaram de mim, não sei qual é a vida econômica que elas têm", disse.

O presidente afirmou ainda que seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), comprou imóveis na planta, "que você paga uma mixaria por mês", e depois os vendeu.

"Por que jogar na minha conta 12 parentes que compraram imóveis ao longo de 32 anos? Isso não é justo", afirmou o presidente, que classificou de mentirosa a acusação de prática de rachadinha no seu gabinete e no de seus filhos.

"Isso é uma covardia que fazem", disse, afirmando que sua família está sendo perseguida. "Se algum deles tiver alguma coisa errada, vá atrás. Agora, comprar imóveis em moeda corrente não é dinheiro vivo. Fazer levantamento desde 1990?", questionou.

O questionamento de Bolsonaro ao casamento de Amanda Klein acontece após o presidente atacar a também jornalista Vera Magalhães, por causa de uma pergunta que o desagradou durante o debate entre presidenciáveis no final de agosto, e de recentemente usar as redes sociais para fazer piada com a apresentadora Gabriela Priolli, levando apoiadores seus a atacarem a apresentadora, que está grávida de seis meses.

As pesquisas de intenção de voto, que mostram Bolsonaro em segundo lugar atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apontam também que o presidente patina entre o eleitorado feminino e sua campanha à reeleição tem escalado a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, na tentativa de melhorar o desempenho eleitoral do presidente entre as mulheres.