Bolsonaro se irrita com pergunta e chama repórter de idiota na Bahia

JOÃO PEDRO PITOMBO
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**ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 08.04.2021 - Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de cumprimento aos oficiais generais promovidos. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
**ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 08.04.2021 - Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de cumprimento aos oficiais generais promovidos. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

CONCEIÇÃO DO JACUÍPE, BA (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ofendeu uma repórter nesta segunda-feira (26) durante ato de inauguração da duplicação de trecho da BR-101 na cidade de Conceição do Jacuípe (102 km de Salvador).

A repórter Driele Veiga, da TV Aratu, afiliada local do SBT, questionou o presidente sobre as críticas de que foi alvo após ter posado para uma foto em Manaus com o apresentador Sikêra Júnior, da RedeTV!, e uma placa onde estava escrito “CPF cancelado”, que faz referência a pessoas que foram mortas.

“Não tem o que perguntar, não? Deixa de ser idiota”, disse o presidente ao responder ao questionamento. A repórter estava ao vivo no programa jornalístico local Que Venha o Povo, da TV Aratu.

Em nota, o Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) repudiou a atitude do presidente ao agredir verbalmente uma profissional “somente por estar exercendo seu ofício que é entrevistar aquele investido em cargo público”.

“A maior autoridade do país não pode incentivar desrespeito aos direitos humanos e nem agir com grosseria com a imprensa, que é os olhos e a forma de comunicação entre os poderes e a sociedade”, afirmou em nota o presidente do Sinjorba, Moacy Neves.

A Associação Baiana de Imprensa também repudiou o episódio, classificando-o como uma “assediosa agressão verbal contra a jornalista”, e se solidarizou com a repórter.

Políticos da Bahia como o governador Rui Costa (PT), o presidente nacional do DEM, ACM Neto, o deputado federal Jorge Solla (PT) e o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) se solidarizaram com a jornalista.

A TV Aratu informou à reportagem que não iria se manifestar sobre o episódio. Em mensagem postada em suas redes sociais, a repórter lamentou a agressão.

"A mim o xingamento não ofendeu. Só mostrou que estava no caminho certo. Sou jornalista e estou aqui para perguntar, por mais que a indagação incomode. Se fosse para agradar o entrevistado eu não seria jornalista e sim publicitária".

A interrupção de entrevistas e ofensas a jornalistas têm sido uma marca de Bolsonaro quando confrontado com temas incômodos, como suspeitas envolvendo seus familiares ou ministros. ​

Em agosto do ano passado, ele afirmou ter vontade de agredir um repórter do jornal O Globo após ser questionado sobre os depósitos feitos pelo ex-policial militar Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Após a insistência do repórter sobre os pagamentos à primeira-dama, Bolsonaro, sem olhar diretamente para o repórter, afirmou: "A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?”.

Meses antes, em maio, ao ser questionado por repórteres sobre mudanças na Polícia Federal, Bolsonaro mandou os profissionais de imprensa calarem a boca e atacou a Folha de S.Paulo, chamando o jornal de "canalha", "patife" e "mentiroso".

Em dezembro de 2019, o presidente disse a um repórter que ele tinha uma "cara de homossexual terrível" e mandou jornalistas ficarem quietos.

Há um mês, Bolsonaro foi condenado a indenizar a jornalista Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S.Paulo, em R$ 20 mil por danos morais.

A decisão de 16 de março é da juíza Inah de Lemos e Silva Machado, da 19ª Vara Civil de São Paulo. Ela determinou ainda que o presidente pague as custas processuais e honorários advocatícios no valor de 10% da condenação. Cabe recurso.

A magistrada considerou que Bolsonaro violou "a honra da autora, causando-lhe dano moral, devendo, portanto, ser responsabilizado". Ainda segundo a juíza, "a utilização no sentido dúbio da palavra 'furo' em relação à autora repercutiu tanto na mídia como também nas redes sociais, expondo a autora".

A repórter acionou a Justiça após sofrer um ataque, com cunho sexual, no dia 18 de fevereiro de 2020.

"Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]", disse o presidente, em entrevista diante de um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada, na ocasião. Após uma pausa durante os risos, Bolsonaro concluiu: "a qualquer preço contra mim".

A palavra “furo” é um jargão jornalístico para se referir a uma informação exclusiva.