"Bolsonaro sequestrou a masculinidade", diz Grostein, diretor de "Quebrando Mitos"

Os diretores do filme
Os diretores do filme "Quebrando Mitos", o ator e cantor Fernando Siqueira (à esquerda) e o cineasta Fernando Grostein

“Sabe quando estoura a fossa da casa, você tenta fechar e ela continua vazando?”, pergunta o cineasta Fernando Grostein em uma videochamada enquanto ajustava os detalhes finais da pós-produção de “Quebrando Mitos”, documentário que lançou na última sexta-feira (16/9) no YouTube e na página oficial do filme.

“Toda hora tentamos fechar a rodagem, mas a realidade continua nos desafiando. Estamos trabalhando de madrugada para fazer o filme mais atual possível. E toda hora surgem mais materiais que precisamos colocar e atualizar de novo. Dá para ver na nossa cara de cansaço, né?”, explica Grostein, de seu estúdio na Califórnia, ao lado do ator e cantor Fernando Siqueira, seu companheiro e codiretor do longa.

Em processo permanente de atualização, “Quebrando Mitos” é um filme que tem o presidente Jair Bolsonaro no centro de uma trama que, segundo os diretores, soaria inverossímil se fosse um roteiro de ficção. O capitão é a personificação do fenômeno investigado ao longo do documentário: a masculinidade catastrófica.

Essa masculinidade catastrófica, expressa no culto às armas e à violência, no desmatamento e no desprezo por modelos familiares que não sejam formados por pessoas brancas e heterossexuais, produz imagens o tempo todo e em tempo real. Daí o esforço dos diretores para encaixar, de última hora, o discurso de Bolsonaro no Sete de Setembro, quando instigou uma multidão a aclamá-lo como “imbrochável” –um traço evidente do fenômeno que o filme tenta destrinchar.

“Nossa reflexão é a seguinte: o homem não precisa ser assim. Nós, homens LGBTQs, temos naturalmente amor ao masculino, mas ao masculino virtuoso”, resume o diretor, que há anos administra a página “Quebrando o Tabu”, uma plataforma de direitos humanos com mais de 10 milhões de seguidores derivada de um filme homônimo sobre a guerra às drogas, lançado em 2011.

A ideia do filme surgiu após uma série de ameaças recebidas por Grostein ao assumir publicamente, em 2017, sua orientação sexual e compartilhar em um vídeo o seu processo de aceitação. As hostilidades chegaram ao auge com a eleição de Bolsonaro, até então um líder político conhecido por espalhar barbaridades em programas de auditório, entre elas o seu desprezo por pessoas LGBTQ. O diretor percebeu que forças obscuras usariam sempre pessoas como ele como “bode expiatório” para desviar atenção e decidiu mudar de país.

“Nosso filme começa numa coisa muito específica, quando a história do Bolsonaro bate na minha vida com as ameaças que ainda recebo, e vai para uma proposta mais estrutural.”

Com depoimentos de Jean Wyllys, Carlos Alberto Santos Cruz e amigos de infância de Bolsonaro, o filme optou por trazer à cena pessoas que conviveram e/ou foram vítimas da personalidade do atual presidente.

A abordagem jornalística se impõe à proposta de colocar a masculinidade do capitão no divã. “No Bolsonaro é tudo tão escancarado que não precisa colocar um psicanalista entre os entrevistados. Fica tudo muito evidente quando a gente coloca a cena do Bolsonaro segurando um tripé para metralhar (a "petralhada", durante ato de campanha em 2018) no baixo ventre, quase imitando um falo e sorrindo como se estivesse com prazer quase sexual com a morte. Depois tem a fala do ‘imbrochável’. Aquilo já fala por si”.

Para Grostein, “do mesmo jeito que Bolsonaro sequestrou a camiseta da seleção brasileira, ele sequestrou a masculinidade”. “Em vez de a masculinidade ser aquela relação importante que a gente tem com pais e avôs legais, ele transformou a relação de masculinidade como algo ligado a autoritarismo, à brutalidade e à pulsão pela morte.”

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Como vocês avaliam a ascensão da extrema direita no mundo e como ela dialoga com a masculinidade tratada no filme? Esse avanço é uma demonstração de força ou um último rugido?

Fernando Grostein: Depende da perspectiva. Forças obscuras são sempre evocadas para desviar a atenção utilizando nós, pessoas LGBTQs, como bode expiatório. Eles desvirtuam a ideia de masculinidade, no melhor senso da palavra, para exercer o obscurantismo contra quem não for homem, branco e heterossexual. Na última década, quando a gente vê a invasão do Capitólio e a desmoralização da Presidência da República no Brasil, com uma série de ataques às instituições, a história andou para trás. Mas se a gente abre a escala para os últimos cem anos, e lembra que nos EUA brancos e negros não podiam andar juntos no mesmo ônibus durante parte do século 20, a gente percebe avanços. Ou seja, nos últimos cem anos a história evoluiu, e nos últimos dez houve um soluço.

Por que esse soluço aconteceu?

F.G: Em parte como efeito rebote de conquistas como, por exemplo, a Presidência de Barack Obama (primeiro presidente negro dos EUA). E também porque nunca estivemos tão conectados como estamos agora, através de algoritmos maliciosos que agem como traficante de drogas, que buscam tornar o usuário de redes sociais numa espécie de dependente de jatos de prazer e castigo como se fossem ratos de laboratório. Se eu falar com desrespeito agora com você, ofender você, isso vai viralizar em segundos. Se eu te elogiar, não vai acontecer absolutamente nada. Isso porque os algoritmos estão programados para isso, e é assim que as empresas conseguem lucrar. Toda essa lógica está orientada de uma forma que, em vez de contribuir para a construção de uma comunidade, um mundo melhor, ela cai numa visão de curto prazo e que destrói valor para a comunidade. É importante destacar o trabalho de plataformas como o Sleeping Giants, que conseguiu desmonetizar milhões em dinheiro que iam parar nas nas mãos de células de ódio, com vínculos nazistas, da internet.

O filme coloca um país inteiro no divã após eleger um presidente como Bolsonaro. Em algum momento vocês pensaram em ouvir também psicanalistas para entender o fenômeno? Ou essa papel já tinha sido assumido pela direção?

F.G: A gente optou por escolher entrevistados que tivessem uma conexão mais próxima possível com o assunto. O general Santo Cruz foi amigo do Bolsonaro e trabalhou no governo com ele. O João Evangelista foi amigo de infância. O Ditão, do quilombo de Eldorado, teve convivência com a família Bolsonaro. O Jean Wyllys foi vítima do Bolsonaro. Foram muitos os entrevistados e fomos afunilando. Faço psicanálise há mais de 25 anos e sou apaixonado pelo tema, mas colocar um psicanalista falando daria um tom muito especulativo ao filme. A gente buscou uma abordagem jornalística, com ajuda de uma agência de checagem, e preferiu deixar os fatos falarem por si. Com o Bolsonaro, é tudo tão escancarado que não precisa colocar um psicanalista (para analisar sua personalidade). Basta a gente mostrar a cena dele segurando um tripé para metralhar (a “petralhada”, em ato de campanha em 2018) no baixo ventre, quase imitando um falo e sorrindo como se estivesse com prazer quase sexual com a morte. Depois vem a fala do “imbrochável”. Se você bota isso num roteiro de ficção, ninguém vai achar que aquilo é verdade. Aquilo já fala por si mesmo.

Poster do filme
Poster do filme "Quebrando mitos"

Ainda assim havia uma multidão com ele no Sete de Setembro. Como explicar esse fascínio?

F.G: A geração dos nossos bisavós carregava um monte de coisas que foram passadas para nós. Se nossos ancestrais foram brancos e europeus, provavelmente ou foram donos de escravos ou conviveram com escravos. Se foram negros, foram escravizados. O mundo está mudando, mas ainda tem uma carga negativa que vem de lá pra cá, com um forte componente racial e patriarcal que tem o homem heterossexual branco no centro de poder. Não é coincidência que todas as presidências nos EUA, sem exceção, foram compostas apenas por homens. Isso na democracia mais antiga do mundo! Ninguém abre mão de privilégio sem resistência. Com a morte da rainha, o príncipe Charles não se negou a abrir mão do que tinha direito. Ele gozou dos seus benefícios, como isenção de impostos.

Como vocês veem, nas manifestações de rua, esse apelo por intervenção militar, com elogios aos tempos da ditadura, etc?

F.G: É a tentação do autoritarismo. Eu fiz um curso recentemente em que o professor falava da tentação da solução do “Big man in the room”. Funciona assim: deu algum problema? Chama o “Big man” pra resolver. Pode ser o superman, o presidente, o chefe, o CEO, o advogado poderoso. São expedientes que a gente reproduz e que vem lá de trás. Essa paixão pela ditadura entre algumas pessoas é parte dessas ideias equivocadas do passado, de que você pode recorrer ao porrete de um general para resolver nossas questões. E falo isso com absoluto respeito às Forças Armadas, que não estou dizendo que não devem existir. A questão é perceber o equívoco nessa tentação de achar que a solução passa pelo homem forte e autoritário para resolver problemas no grito, na força. Temos outras formas de resolver problemas. Uma delas, inclusive, é olhar os mais diversos pontos de vista. Se a gente só tem o ponto de vista do homem branco e heterossexual no centro de poder para atacar problemas, a gente está comprometido com os mesmos pontos cegos e, portanto, com os mesmos equívocos.

Com esse elogio ao passado autoritário, vem também a imposição de um modelo de masculinidade. É isso?

F.G: Do mesmo jeito que o Bolsonaro sequestrou a camiseta da seleção brasileira, ele sequestrou a masculinidade. Em vez de a masculinidade ser aquela relação importante que a gente tem com pais e avôs legais, ele transformou a relação de masculinidade como algo ligado a autoritarismo, a brutalidade e a pulsão pela morte. Esse filme é uma resposta que a gente está propondo para isso.

Fernando Siqueira: Para fazer esse filme, ficamos horas assistindo a depoimentos sobre estupro, suicídio, machismo, imagens de chacina e isso tudo deixou todo mundo esgotado. Então um dia a gente estava andando numa rua e viu uma venda de garagem. Uma família estava se mudando, e tinha um piano velho ali. A gente trouxe aquele piano para casa, ele estava um pouco desafinado, mas ainda assim eu ia tocando nos finais dos dias e noites editando. A música servia para limpar. E aí comecei a tocar mais e mais. A gente achou na música uma maneira de limpar essa escuridão que a gente tinha mergulhado. Foi uma maneira de fazer o filme seguir.

Fernando Grostein. Isso também é masculinidade, sabe? Não é o porrete. É tocar música em notas graves, notas agudas. Por que ser homem quer dizer, necessariamente, descer o porrete nos mais fracos, exercer a força bruta pra machucar? Ser homem também é tocar uma música bonita, ser homem também é ter delicadeza. Homem também chora, homem tem também fragilidades. O que acontece é que uns disfarçam melhor que outros. Mas a condição humana é inerente à masculinidade.

Dá para dizer que esses líderes autoritários deixaram de vivenciar também esse tipo de experiência com as artes, a música, os livros, os filmes? Ou seria um acaso que a própria classe artística tenha virado alvo de grupos conservadores?

F.G: No filme “Quebrando o Tabu”, entrevistei muitas pessoas para entender a questão das drogas. E as coisas estão conectadas. Uma das maneiras de ajudar pessoas com problemas com drogas era despertar a questão do esporte ou das artes. Anos depois eu colaborei para reativar um grupo de teatro dentro de uma penitenciária de segurança máxima. Entre os alunos havia ladrão de bancos, sequestrador, assaltante, traficante. E era muito nítido que nenhuma daquelas pessoas teve os privilégios que eu tive, que foi nascer numa família afetuosa. Parece um papo ingênuo, meio “Imagine”, do John Lennon, mas o afeto, o carinho, a arte e o esporte têm papel fundamental para reduzir a criminalidade, a marginalização, para despertar o que as pessoas têm de melhor. É necessário criar um ambiente onde o ser humano possa florescer e brilhar.

A professional interpreter of the Brazilian sign language (LIBRAS) gestures as Brazil's President and candidate for re-election Jair Bolsonaro attends the celebrations of Evangelical leader Silas Malafaia's birthday during an evangelical service at Assembleia de Deus Vitoria em Cristo in Rio de Janeiro, Brazil, September 15, 2022. REUTERS/Ricardo Moraes
"Do mesmo jeito que Bolsonaro sequestrou a camiseta da seleção brasileira, ele sequestrou a masculinidade", diz Grostein. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Esse ambiente é compatível em um contexto em que as armas se transformaram em símbolo de masculinidade?

F.G: A indústria armamentista financia candidatos que constantemente estão empurrando a população para uma ilusão de que o único jeito de lidar com nossas questões é o caminho da guerra. O que falta perceber é que tem alguém lucrando com isso. A indústria armamentista não tem interesse em que as pessoas floresçam. Ela tem interesse em criar inimigos. Quanto mais inimigos, mais armas, mais tiros, mais bomba e mais lucro pra eles. Esses congressistas financiados por essa indústria quase sempre encarnam o macho autoritário, protetor, que se aproximam da figura do patriarca, que está nas nossas memórias e do inconsciente coletivo daquilo que nossos bisavós nos ensinaram. Mas que no fundo estão servindo organizações que estão lucrando com isso. É um lucro de poucos em detrimento do lucro do comum.

No discurso de Sete de Setembro o Bolsonaro diz que é “imbrochável” e chama a primeira-dama, Michelle, de “princesa”. O caso do assassinato da Marielle Franco, que fugia completamente desse modelo, tem um espaço importante do filme. Vocês acham que o documentário trata de certa forma também da construção de uma feminilidade?

F.G: Sinto que, do mesmo jeito que sequestram o conceito de masculino e o desvirtuam para outros fins, fazem o mesmo com o feminino. E isso acontece há muito tempo. Quando a gente é garoto a gente é ensinado que o cara que fica com muitas meninas é garanhão, mas se a garota fica com muitos homens é galinha, piranha e pode ser descartada. A questão feminina é desvirtuada por muitos homens para benefício e lucro desses homens. E é papel nosso apoiar mulheres na luta pelos seus direitos e por igualdade. É um absurdo que uma democracia como a dos EUA nunca teve uma presidente mulher. A Marielle Franco desafiou o sistema. Era uma mulher negra, LGBTQ, que veio da favela e que tinha um discurso de resistência política muito importante. É de suma importância que o Brasil valorize, para sua história, a importância de uma mulher do tamanho da Marielle.

Como é, para pessoas LGBTQs, se confrontar com essa imposição de modelos, do que é família, do que é feminino, do que é masculino?

F.G: A gente está abrindo nossa vida como uma forma de romper estigmas para que muitas pessoas saibam que não estão sozinhas. Escrevi um artigo para a revista “piauí” contando alguns abusos que sofri. Fiz um vídeo dizendo que me sentia um ET por ser gay e desde aquela época eu recebi muitas mensagens de pessoas dizendo como aquilo foi importante para elas. Então é importante entender que elas não estão sozinhas. Nós sofremos gaslighting (manipulação), dizem que estamos nos vitimizando, que afinal todo mundo sofre, etc. Fazem de tudo para deslegitimar nosso sofrimento, descredibilizar as coisas que temos a dizer, deslegitimar nossa história para perpetuar abusos e não assumirem as responsabilidades sobre as coisas que fazem com a gente. Então a gente quis ser transparente com o espectador e mostrar de onde viemos, para que eles entendam quais são nossos pontos cegos e até onde a gente consegue enxergar. Toda família conservadora tem uma pessoa LGBTQ e quase toda pessoa LGBTQ tem uma família conservadora, mas o diálogo geralmente é cheio de mal entendidos. Os grupos de Whatsapp racharam e os Natais não são mais a mesma coisa. Este é um filme para as famílias verem juntas e discutirem em cima de fatos, a fim de que cada um tenha o seu ponto de vista. Não precisa pensar igual, mas é uma forma de as pessoas discordarem em cima de fatos e argumentos e não com discursos de quinta série como foi o Sete de Setembro.