Bolsonaro soltou brado de "imbrochável" e virou a piada do bicentenário

Brazilian President Jair Bolsonaro (C), First Lady Michelle Bolsonaro (L) and Portugal's President Marcelo de Souza attend a military parade to mark Brazil's 200th anniversary of independence in Brasilia, on September 7, 2022. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro ao lado da primeira-dama Michelle Bolsonaro e do presidente de Portugal, Marcelo de Sousa, durante a parada militar de 7/9. Foto: Evaristo Sá/ AFP (via Getty Images)

Jair Bolsonaro queria mostrar força durante a festa do bicentenário da Independência do Brasil.

Conseguiu, no máximo, prestar tributos à sua própria ilusão de virilidade, como definiu certa vez o ator Pedro Cardoso.

No dia em que o país celebrou os 200 anos do grito de D. Pedro 1º, o presidente tomou em mãos o microfone para bradar em público que é “imbrochável”.

Fez isso diante de uma multidão que deixava claro, em mensagens e cartazes expostos desde a véspera, o que a levava até ali. Uma das placas, por exemplo, pedia a destituição dos membros do STF, do TSE e do Congresso.

Deve ser por isso que os chefes dos Poderes evitaram posar ao lado do capitão durante os atos. A força de um governante também pode ser medida pelas lacunas.

Na plateia, o desejo de reinstalação dos poderes imperiais estava reeditado, agora com a camisa da seleção.

Pelo menos durante a manhã, Bolsonaro passou longe do figurino incendiário que levou ao ato do ano passado na avenida Paulista, quando chamou Alexandre de Moraes de “canalha” e prometeu dali em diante não cumprir qualquer ordem do Supremo.

Dessa vez, na capital, ele usou a cerimônia de Estado para fazer “apenas” propaganda eleitoral. Para os padrões atuais, saiu barato.

Em busca do voto das mulheres, que nas pesquisas demonstram apoio majoritário ao adversário Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente apresentou a companheira, Michele Bolsonaro, como um troféu ao chamá-la de princesa e pediu para que os eleitores fizessem “várias comparações” entre as opções em jogo. “Até entre as primeiras-damas”, disse. “Podemos fazer comparações até entre as primeiras damas. A minha é uma mulher de Deus, de família e ativa na minha vida.”

O subtexto era um ataque velado a outra mulher, ou mulheres, no caso as companheiras de outros candidatos a presidente.

Era isso mesmo: Bolsonaro queria que o eleitor comparasse quem fazia melhor o papel de figura decorativa à autoridade masculina –e “imbrochável”, frisou mais de uma vez.

Fez isso um dia após atacar outra jornalista mulher ao ser questionado sobre uso de dinheiro vivo por seus familiares para compra de 51 imóveis no valor de R$ 56 milhões. Bolsonaro desconversou dizendo que o marido da entrevistada era seu eleitor.

No palanque em Brasília, diante do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, e do convidado especial da festa, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, Bolsonaro mostrou que em três anos e meio não aprendeu ainda o que separa a figura pública dos seus fetiches privados. Só o primeiro precisa prestar contas de atos e palavras.

A lambança mostrou também que está engajado em transformar o país em uma grande república de bananas –tudo com a ajuda de um coração monárquico imerso em formol.

Murilo Rubião e outros representantes do realismo fantástico tupiniquim não imaginariam tamanha distopia.

O presidente “imbrochável” pode não ter conseguido um voto a mais, além do cercadinho, com seu brado calibrado na desconfiança.

Se nada der certo, pode ao menos mandar o currículo para a partir de 2023 reforçar o elenco como personagem de si mesmo em “A Praça é Nossa”.

Ou como modelo de alguma propaganda de medicamento revigorante.

Fale com seu médico, presidente. Eu falaria.