Bolsonaro sugere que lockdown leve a invasão de supermercado

DANIEL CARVALHO E FÁBIO PUPO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um dia após ensaiar um tom mais moderado, usando máscara e fazendo uma defesa mais amena de procedimentos ineficazes, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a atacar governadores que estão adotando medidas restritivas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus. Em audiência virtual com pequenos e micro empresários, ao lado do ministro Paulo Guedes (Economia), nesta quinta-feira (11), o presidente disse que "lockdown não é remédio" e que governadores que restringem serviços em seus estados estão encampando uma luta pelo poder. "Até quando nós podemos aguentar esta irresponsabilidade do lockdown? Estou preocupado com vida, sim ", questionou Bolsonaro. "Até quando nossa economia vai resistir? Que se colapsar, vai ser uma desgraça. Que que poderemos ter brevemente? Invasão a supermercado, fogo em ônibus, greves, piquetes, paralisações. Onde vamos chegar?" Em 25 de março do ano passado, ao falar com jornalistas e criticar ações tomadas por governadores, Bolsonaro mencionou pela primeira vez o risco de saques a supermercados, o que não aconteceu até um ano depois. "O caos está aí. Detalhe: se tivermos problemas, que poderemos ter, os mais variados no Brasil, como saques a supermercados, entre outras coisas, o vírus continuará entre nós também", afirmou na época. Ele citou dois governadores que adotaram medidas do tipo --seu às vezes aliado Ibaneis Rocha (MDB-DF) e seu adversário declarado João Doria (PSDB-SP). "Nós aqui buscamos salvar empregos e, na ponta da linha, um ou outro, como o de São Paulo, por exemplo, vai para a destruição", afirmou Bolsonaro, logo após Doria anunciar uma "fase emergencial" mais dura de seu plano de combate à pandemia. O presidente se queixou das medidas de restrição "até para cancelar o futebol", novamente aludindo a medidas anunciadas por Doria. "Ficamos praticamente um ano em lockdown. E começamos este ano, como estamos vendo em alguns estados no Brasil, novas medidas seriamente restritivas. Até para cancelar o futebol", disse Bolsonaro. Para o presidente, a adoção de medida restritiva tem apenas uma consequência, que, para ele, é "transformar os pobres em mais pobres". "Sou preocupado com vidas, antes que peguem um extrato da minha conversa, alguém, e publique nos jornais como se fosse o presidente sem coração. Mas, como sempre disse, a economia e a vida têm que andar de mãos dadas." Jair Bolsonaro disse que, no DF, onde está em vigor um toque de recolher entre 22h e 5h, "toma-se medida, por decreto, de estado de sítio". O presidente disse ouvir das pessoas que elas querem trabalhar. "Quem é que rema contra isso daí? Com que intenção? Não vou falar que não tem coração, que coração já demonstrou que não tem. Agora, tem uma tremenda ambição. Parece que tem gente que está lutando pelo poder e só consegue atingir a figura do presidente da República se continuar tomando medidas como essas. Porque ainda grande parte do que acontece no Brasil o pessoal culpa o presidente", afirmou. "Isso eu não posso admitir que continue acontecendo. Porque eles não querem salvar vidas, eles querem é poder", afirmou sem citar nomes. Bolsonaro afirmou não estar fazendo um desabafo e que, para ele, seria "muito fácil adotar uma política semelhante à que alguns estão adotando e suprimindo cada vez mais liberdades individuais, que parece que não são mais garantidas pela Constituição, em troca de continuar presidente sem dor de cabeça, apenas lamentando". "Eu não tenho que lamentar, eu tenho que agir. Agir defendendo as pessoas infectadas, lutando por vida, dando esperança para estas pessoas", afirmou. O presidente voltou a defender o tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada cientificamente ou com a ineficácia já atestada pelos cientistas. Na tentativa de se livrar das críticas de ineficiência no combate à pandemia, Bolsonaro listou ações do governo ao longo do último ano. "A acusação de negacionista, terraplanista, genocida não cola", disse o presidente.