Grave! Abandonados e sem lives de Bolsonaro, fãs já cogitam voltar a ver novela

A person with a national flag on the back looks on during a protest held by supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro against President-elect Luiz Inacio Lula da Silva who won a third term following the presidential election run-off, at the Army Headquarters in Brasilia, Brazil, November 3, 2022. REUTERS/Diego Vara
Foto: Diego Vara/Reuters

Não é só Jair Bolsonaro (PL) que se afundou na fossa depois das eleições para presidente de 2022.

Seus seguidores se perguntam há mais de três semanas por onde anda o mito que eles se acostumaram a assistir toda quinta-feira, religiosamente. Os encontros não eram só entretenimento, como os domingos com Silvio Santos.

Eram a possibilidade de ouvir a palavra do presidente para saber o que era certo e o que era errado, o que podia gostar e o que não podia, o que era pecado e o que era a redenção.

Desde que Bolsonaro vestiu o figurino de garoto-propaganda de cloroquina, não deve faltar gente que não toma agora nem o diazepam para dormir sem antes consultar o presidente.

Não só.

Fico imaginando o drama de dona Adélia (nome fictício, claro) ao ver a confusão mental de tio Osvaldo (idem) nesses dias de ressaca entre eleição e Copa do Mundo.

Por exemplo: sem uma voz de comando clara, ele não sabe se é pra tirar a bandeirinha da janela ou deixar lá. Não sabe se é pra gostar de futebol ou se a ordem agora é dizer que esporte é o ópio do povo para ninguém discutir o avião emprestado ao Lula (PT) para viajar ao Egito.

A última ordem que o tio recebeu era pra desobstruir estradas. Mas e a calçada da rua do quartel general? Era pra ficar lá desobstruindo a passagem dos pedestres ou não?

E a moto? O que fazer agora com sua máquina de duas rodas se não tem nenhuma motociata marcada com os parsa até o fim do ano?

A verdade é que nos últimos quatro anos a imagem de um presidente salvador deu aos seus seguidores uma razão de viver, um sentido, uma paixão para uma vida talhada na acomodação. Além de um programa de quinta-feira à noite.

O vazio que sucede o silêncio da derrota é avassalador. Até parece que o Brasil retomou a normalidade.

Bolsonaro não sumiu apenas das lives semanais. Ele sumiu da vista. Segundo levantamento do Congresso em Foco, o (ainda) presidente trabalhou em média 25 minutos por dia desde a véspera do primeiro turno das eleições até quinta-feira (9/11). Em parte do período ele estava trabalhando para se reeleger. Em outra parte, estava sofrendo porque não conseguiu.

O tio do WhatsApp tanto copiou o exemplo do ídolo que agora também não sai do quarto. Só uma pessoa é capaz de devolver a ele o ânimo, pedir para parar de frescura e mimimi e fazê-lo se questionar até quando vai chorar como maricas. O problema é que essa pessoa, até onde se sabe, anda sem ânimo, foi sequestrada pelo coitadismo e também não sabe quando vai parar de chorar.

Dona Adélia deve andar preocupada.

Sem muito o que fazer, o marido certamente já cogita voltar a assistir à novela das oito. Seria um retorno sem volta ao mundo pré-2018, quando o presidente "imbroxável" deu ao “conge” a inspiração e o vigor dos tempos em que o Pelé ainda atuava.

É grave, muito grave.

Logo que acabou a eleição, não faltou analista comemorando o fato de que, pelos próximos quatro anos, ninguém precisaria fingir que leva a sério alguém que leva comediante para repercutir resultado do PIB, pede palmas ao próprio pênis em discurso de Sete de Setembro e faz piada com mortos e doentes em plena pandemia. Afinal, presidente é presidente, e tudo o que fala tem importância, mesmo que seja bobagem. Agora, na função de ex, Bolsonaro pode simplesmente ser ignorado por quem leva seu ofício a sério.

Mas o surto de melancolia que varreu parte do país junto com o sumiço de seu mito preocupa.

Imagina, a essa altura, tia Adélia ter que assinar canal de streaming porque o “conge” não sabe mais o que fazer em seus embalos de quinta-feira à noite? Se os brasileiros pudessem mandar um recado ao capitão, o dela certamente seria: “Volta”.