Vacina de Bolsonaro contra prevaricação não tem eficácia

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Brazilian President Jair Bolsonaro holds his mobile phone during the launching ceremony of a new registry of professional fishermen, at Planalto Palace in Brasilia on June 29, 2021. - The Brazilian government announced the suspension of the contract to purchase 20 million doses of the Indian-made vaccine Covaxin. Covaxin's contract became the target of the COVID-19's Parliamentary Inquiry Committee in the Senate and the Federal Public Ministry after a health ministry's server denounced
Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Jair Bolsonaro se vacinou.

Não contra a covid-19, mas contra a suspeita, agora formalmente investigada pela Polícia Federal, de que prevaricou ao ser alertado a respeito de possíveis falcatruas na compra da Covaxin e não tomou providência alguma.

O suposto ato de prevaricação não vale para ele, avisou o capitão, já se antecipando para criar anticorpos contra a avalanche que se forma.

A vacina retórica tem baixa eficácia.

Bolsonaro quer fazer o eleitor acreditar que prevaricação só vale quando o acusado é um servidor público. Não seria seu caso.

O presidente, afinal de contas, é um servidor...privado, certo?

Quanto mais se tenta entender a estratégia, mais delicada parece ser a situação do presidente.

O jeito é embaralhar as letras da língua portuguesa para ver onde dá.

No dicionário bolsonarista, corrupção é o que a esquerda faz quando chega ao poder.

Quando a suspeita sobra para ele e os amigos, o termo é outro. É desvio patriótico.

Pela lógica, não seria errado pegar dos funcionários públicos os salários que eles deveriam receber por não trabalhar em um gabinete patriótico. Como o destino é o bolso do patriota, um cidadão de bem, não se trata de corrupção, mas de reembolso patriótico da renda alheia.

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Da mesma forma, vagabundagem só vale para a turma petista. Quando você tem funcionário inepto escolhido a dedo, daqueles que recebem dinheiro para trabalhar pelo país e gasta seu tempo em bobagens postadas nas redes sociais, ou passeando de moto e jet ski, não se deve falar em mamata. E sim em protesto contra o sistema.

Os aliados do centrão já não são os velhos sangue-sugas dos tempos da esquerdalha, quando corriam ao ouvir Bezerra da Silva cantando “se gritar pega ladrão”. São ajudantes de obras patrióticas.

Orçamento paralelo em troca de apoio não é toma-lá-dá-cá. É remuneração por serviços patrióticos.

Mansões, casas em condomínios e outros luxos não são itens incompatíveis com o vencimento de parlamentar quando ele é patriota, mas sim o prêmio do descanso do guerreiro alimentado com pão e leite condensado.

Bolsonaro gosta de falar em “narrativas” toda vez que o fio das histórias são contrárias ao seu enredo.

Mas a tortura da língua portuguesa é o que tem feito desde que saiu do Exército como transgressor e foi eleito presidente como mito.

No caso das vacinas, ele já mostrou as solas do arsenal da novilíngua que faria inveja a Guimarães Rosa.

Sentados, estamos todos à espera do que terá a dizer quando as investigações sobre as ofertas furadas para compra de outras vacinas, as da Astrazeneca, chegarem ao colo presidencial, como sugerem mensagens do celular de Luiz Paulo Dominguetti obtidas pela CPI da Pandemia e divulgadas pelo site O Antagonista.

Um dos envolvidos, desses que falam em nome de Deus, precisou de atestado médico para faltar à CPI e não precisar dizer o que sabe e como conseguiu reuniões com o presidente para falar de vacina sem nunca ter passado perto de um laboratório do tipo.

Bolsonaro pode tentar. Haja fantasma cubano e desvio da língua para dar outro nome ao que resume o governo Bolsonaro até aqui: uma imensa engabelação.

Já são 535 mil mortes na pandemia.

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