Bolsonaro telefona para Netanyahu para discutir uso de spray em estudo contra Covid-19

DANIEL CARVALHO
·3 minuto de leitura
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 27.01.2021 - O presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa ao sair do Ministério da Economia, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 27.01.2021 - O presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa ao sair do Ministério da Economia, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) conversou na manhã desta sexta-feira (12) com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, para discutir o uso experimental de um spray que tem sido feito naquele país contra a Covid-19.

"Dentre outros assuntos, tratamos da participação do Brasil na 3ª fase de testes do spray EXO-CD24, medicamento israelense que, até o momento, vem obtendo grande sucesso no tratamento da Covid-19 em casos graves", escreveu Bolsonaro em suas redes sociais.

O diálogo, por telefone, foi acompanhado presencialmente pelo embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley. Ao deixar o Palácio do Planalto, o diplomata disse apenas que foi uma boa conversa.

A droga para câncer de ovário está sendo usada em um novo tratamento desenvolvido pelo centro médico Ichilov, de Tel Aviv.

"Não tem comprovação cientifica, assim como a vacinas não têm ainda certificado definitivo. Está na mesma situação desse outro remédio e tem dado certo em muitos casos", disse Bolsonaro em sua live de quinta-feira (11), fazendo uma falsa equivalência entre o remédio e os imunizantes utilizados contra a Covid-19.

Esta não é a primeira vez, durante a pandemia do novo coronavírus, que Bolsonaro defende o uso de remédios sem comprovação científica. Desde o início do ano passado, o presidente defende medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina.

O jornal Folha de S.Paulo revelou que o Ministério da Saúde usou a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para a produção de 4 milhões de comprimidos de cloroquina, com o emprego de recursos públicos emergenciais voltados a ações contra a Covid-19 e com destinação prevista do medicamento a pacientes com coronavírus.

Na transmissão ao vivo que fez na quinta-feira, ele afirmou que ninguém fez nada errado nem houve desperdício de recursos na produção de comprimidos de cloroquina, porque, além da Covid-19, doença para a qual o remédio não tem comprovação científica de efeito, há outras enfermidades tratadas com a substância, como malária e lúpus.

Documentos da pasta obtidos pela reportagem, com datas de 29 de junho e 6 de outubro, mostram a produção de cloroquina e também de fosfato de oseltamivir (o Tamiflu) pela Fiocruz, com destinação a pacientes com Covid-19.

O dinheiro que financiou a produção partiu da MP (Medida Provisória) nº 940, editada em 2 de abril pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para o enfrentamento de emergência do novo coronavírus, como consta nos dois documentos enviados pelo Ministério da Saúde ao MPF (Ministério Público Federal) em Brasília. A MP abriu um crédito extraordinário, em favor do ministério, no valor de R$ 9,44 bilhões.

"Está uma polêmica muito grande sobre hidroxicloroquina, fabricou a mais, gastou, era dinheiro do Covid, não era. Pessoal, tem a Covid aí, outras doenças continuam. Não é só Covid. A malária continua. O lúpus continua. Nós temos aqui, em média, 200 mil casos de malária no Brasil. Não sei quantos comprimidos a pessoa toma para se cuidar de malária. Mas muita gente, na região amazônica, toma preventiva", disse Bolsonaro.

Na transmissão, o presidente disse que "tem muito médico que usa a hidroxicloroquina, a ivermectina para o tratamento precoce" e que a produção de comprimidos é da ordem de 13 milhões, com validade de quatro anos.

"Ninguém está fazendo nada errado ou jogando fora", disse Bolsonaro.

Um documento do Ministério da Saúde, enviado ao MPF (Ministério Público Federal) no dia 4 de fevereiro, aponta a distribuição de cloroquina produzida pela Fiocruz a pacientes com Covid-19, e não dentro do programa nacional de controle da malária, como originalmente previsto.

Esse documento também contradiz o ministério, que afirmou à imprensa não ter concretizado a aquisição do medicamento para distribuí-lo dentro da política de combate ao novo coronavírus.