Bolsonaro tem coice para quem questiona e cheque para quem bajula

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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech during the announcement of sponsorship of olympic sports team by the state bank Caixa Economica Federal at Planalto Palace on June 1, 2021. - Brazil's President Jair Bolsonaro said on Tuesday that, if it depends on his government, his country will host the 2021 Copa America, in a bid to reduce uncertainty over the hosting of the world's oldest national team tournament. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá / AFP) (via Getty Images)

Foi o que na minha terra chamam de jogo de compadres.

Em visita a Manaus, o epicentro na segunda onda do coronavírus, Jair Bolsonaro voltou aos velhos tempos de atração de auditório numa entrevista camarada para a TV aliada. Lá, fez piadas com um produtor de cabelos compridos, brincou com um homem com cabeça de cavalo e foi convidado a cancelar o CPF —gíria miliciana para quem é morto a tiros— de quem quisesse em rede nacional.

A visita descontraída parecia um velho clube do Bolinha, em que só meninos podem entrar.

A figura risonha que passeia sobre corpos é o exato oposto do presidente questionado na segunda-feira 21 por uma repórter de uma emissora afiliada da TV Globo sobre a recusa em usar máscara em tempos de pandemia.

Exaltado, Bolsonaro xingou a profissional de imprensa e aproveitou para dizer tudo o que pensava sobre a emissora declarada inimiga. Como se a jornalista fosse a própria dona do veículo.

A cena não é nova.

Tem sido repetida desde os tempos em que Bolsonaro era deputado. Quando não gosta da pergunta, ele quase sempre responde com coice. Principalmente se do outro lado do gravador ou do microfone estiver uma mulher. Ou alguém com “uma cara terrível de homossexual”.

Em 2018, havia quem ainda apostasse que aquela figura agressiva fazia apenas jogo de cena para chamar a atenção e que, uma vez vestida a faixa, o presidente aprenderia a se comportar como gente. Sabiam de nada, inocentes. Ou sabiam?

Esperar alguma mudança de comportamento a essa altura do campeonato é inútil. Bolsonaro é isso e será sempre —principalmente quando acorda com o pé virado, como dizem também na minha terra, e as orelhas queimando.

Dias antes do seu mais recente piti, uma multidão foi às ruas em dezenas de cidades brasileiras pedir seu impeachment.

Como quem acusa o golpe, o capitão costuma dobrar a aposta na radicalização toda vez que se sente acuado. O que parece demonstração de força é só sinal de fraqueza. Insegurança, diriam os especialistas.

Até aí, novamente, nada de novo no front.

O que espanta é a diferença de tratamento entre quem o questiona e quem demonstra disposição em emprestar seu espaço em uma concessão pública para servir de escada para o piadista eleito presidente.

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Nos programas de auditório com dublê de jornalistas, tem sempre um suposto formador de opinião a fazer as vezes de Dedé e emprestar as costas para as piruetas do Didi. Faz parte do espetáculo. O problema é quando a trupe resolve brincar de presidente. A piada de mau gosto vira, então, terra arrasada.

Vetor do negacionismo durante a pandemia, o governo Bolsonaro pagou caro para veicular publicidade oficial com seus garotos-propaganda escolhidos a dedo. Eram justamente os que defendem o presidente com unhas e dentes e os recebe em entrevistas como recebem a visita de um compadre.

Um deles se justificou dizendo que faz propaganda de tudo, até de remédio. Por que não faria do governo? “Eu vivo disso.”

Poderia pelo menos deixar isso claro aos espectadores antes das entrevistas suaves em que se embola o clichê sobre amigos, amigos, negócios à parte.

Na testa de quem já engoliu a linha segura do conflito de interesse, da amizade e dos negócios, tem também um outdoor escrito que o cliente sempre tem razão.

Na lógica bolsonarista, lixo é quem questiona. Amigo é quem bajula.

A uns, o coice. A outros, o cheque.

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