Bolsonaro tem semana pós-eleição recluso e sem agenda de trabalho, motociata ou comentários nas redes

*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 30-10-2022: O candidato a reeleição para à presidência da república, Jair Bolsonaro, vota na Escola Municipal Rosa da Fonseca, na vila militar, na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 30-10-2022: O candidato a reeleição para à presidência da república, Jair Bolsonaro, vota na Escola Municipal Rosa da Fonseca, na vila militar, na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A primeira semana pós-derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL) foi de reclusão e sem agenda de trabalho. O mandatário também dispensou uma série de atividades que foram recorrentes ao longo do seu primeiro mandato: lives, motociatas e encontros com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

De acordo com aliados, o chefe do Executivo ainda está inconformado e irritado com o resultado das urnas. Bolsonaro tinha convicção de que ganharia a disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (30). No final, ele foi derrotado pelo petista por 50,9% dos votos válidos contra 49,1%.

Ainda segundo assessores, o presidente tirou alguns dias para processar o revés, que ele não admitiu publicamente. Bolsonaro tampouco congratulou a chapa vencedora, como é tradição.

Na quinta-feira (3), ele teve uma passagem relâmpago pelo Palácio do Planalto, de cerca de meia hora. Foi cumprimentar o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), que estava no local para a primeira reunião da transição.

"Foi positivo. O presidente convidou. Estávamos saindo já e [ele] reiterou o que disse o ministro Ciro Nogueira [Casa Civil] e o ministro general [Luiz Eduardo] Ramos [Secretaria-Geral], da disposição do governo federal de prestar todas as informações, colaborações, para que se tenha uma transição pautada pelo interesse público", contou Alckmin a jornalistas.

Foi a segunda ida de Bolsonaro ao Planalto na semana. A primeira foi no dia seguinte à eleição. Na ocasião, o presidente teve encontro com Paulo Guedes (Economia) e outros ministros.

Após a proclamação do resultado, Bolsonaro não atendeu a ligações de ministros e aliados. Ele falou brevemente com o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Alexandre de Moraes, segundo o próprio magistrado contou no domingo a jornalistas.

Ao menos dois ministros chegaram a ir para o Alvorada ainda na noite de domingo, mas foram barrados na entrada.

Com o passar o tempo, Bolsonaro começou a responder mensagens e passou a receber algumas visitas. A semana do mandatário foi marcada pela romaria de auxiliares e aliados ao Alvorada para prestar solidariedade.

Bolsonaro esteve com Valdemar Costa Neto, presidente do PL, para conversar sobre seu futuro. Disse ao dirigente que quer continuar no partido; e quer ter um papel como líder da oposição. Ele deve ser conselheiro ou presidente honorário da legenda, com direito a assento na Executiva Nacional e salário.

Bolsonaro encerrou seu silêncio de 45 horas para um rápido discurso na terça (1º) em que não parabenizou Lula e falou em "sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral". A fala foi considerada um reconhecimento da derrota pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Na quarta (2), ele divulgou um vídeo em que pediu que seus apoiadores desobstruíssem estradas pelo país.

Nos dias posteriores ao resultado, Bolsonaro priorizou contato com auxiliares mais próximos, como ajudantes de ordens, o ministro Célio Faria (Secretaria de Governo) e o general Braga Netto, vice na sua chapa. O ex-ministro da Defesa esteve todos os dias no Palácio da Alvorada.

O mandatário ainda recebeu visitas de Onyx Lorenzoni (PL), também derrotado na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, Jorginho Mello (PL), governador eleito de Santa Catarina; e Ives Gandra Martins Filho, ministro do TST (Tribunal Superior do Trabalho).

Bolsonaro viajou intensamente durante os 75 dias de campanha, com especial foco no Sudeste. Ele deu prioridade a participação em cultos de igrejas evangélicas, motociatas e fez incontáveis lives.

Na semana após a derrota, não houve a tradicional live transmitida às quintas-feiras. Ele tampouco recebeu apoiadores que se concentram no cercadinho do Palácio da Alvorada. Nas redes sociais, eleitores se queixaram do silêncio do "capitão".

O chefe do Executivo foi alvo de críticas por não ter condenado de forma enérgica os atos e bloqueios de geraram desabastecimento em cidades do interior e chegaram a provocar cancelamentos de voos no aeroporto de Guarulhos (SP), o principal do país.

O vídeo apelando para o fim dos bloqueios foi um dos únicos conteúdos publicados em suas redes desde a vitória de Lula. Bolsonaro disse que outras manifestações em praças e locais públicos são "do jogo democrático". Ele não comentou o caráter antidemocrático dos atos.

O chefe do Executivo também disse que "está tão chateado e tão triste" quanto seus apoiadores, mas que é preciso ter "a cabeça no lugar".

"Mas tem algo que não é legal: o fechamento de rodovias pelo Brasil prejudica o direito de ir e vir das pessoas, está lá na nossa Constituição e sempre estivemos dentro das quatro linhas", afirmou.

O clima de melancolia da semana em que o presidente perdeu a reeleição teve ainda a retirada das bandeiras gigantes do Brasil que tinham sido afixadas nas fachadas do Palácio do Planalto e da Alvorada.

O pedido do governo ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) era para que os símbolos ali ficassem até dia 19, mas eles foram retirados na quinta-feira.