Bolsonaro tenta definir seu futuro na eleição de presidentes do Congresso

Jordi MIRO
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O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em 12 de janeiro de 2021 no palácio do Planalto, em Brasília

O presidente Jair Bolsonaro manobra para que o Congresso eleja nesta segunda-feira (1) líderes que lhe permitam governar sem temer um impeachment e ser reeleito em 2022. Mas, segundo analistas, corre o risco de virar "refém" de partidos do ‘centrão’, que "cobram caro" por seu apoio.

Os presidentes da Câmara e do Senado, eleitos a cada dois anos, determinam a agenda de temas a votar e quais ficam no papel. O líder da Câmara dos Deputados decide, ainda, se admite pedidos de impeachment ou se os engaveta.

Mas os analistas lembram que os candidatos apoiados pelo presidente são do chamado 'centrão', formado por partidos conservadores que tendem a ir atrás de quem mais lhe oferece cargos ou a liberação de emendas parlamentares para suas circunscrições.

Muitos deles foram aliados da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016) e quando ela se viu debilitada, não hesitaram em votar sua destituição.

"O centrão somente é fiel a qualquer governo se existem condições para isso, e as condições não estão colocadas. Você está em uma economia extremamente frágil, numa popularidade em queda" e em plena segunda onda da pandemia do coronavírus, explicou à AFP o cientista político Thiago Vidal, da consultoria Prospectiva.

"O governo fica mais refém do centrão do que o contrário", acrescentou.

- 61 pedidos de impeachment -

A Câmara acumula 61 pedidos de impeachment, apresentados por partidos da oposição ou ex-aliados, artistas, juristas ou ONGs que denunciam a participação do político em atos antidemocráticos ou crimes ecológicos ou contra as minorias.

Cerca de vinte estão relacionados com sua gestão errática da pandemia, que já deixou quase 225.000 mortos no Brasil, um balanço superado apenas pelos Estados Unidos. Mas Bolsonaro sempre negou sua gravidade, criticou as medidas de distanciamento social e o uso de máscaras e questionou a eficácia das vacinas.

Apesar de contar com uma base fiel, sua popularidade experimentou forte queda desde o fim da ajuda emergencial, que no ano passado permitiu a 68 milhões de pobres sobreviver à crise.

Seu índice de aprovação caiu 37% em dezembro para 31% em janeiro e a rejeição subiu de 32% a 40%, segundo o instituto Datafolha.

Os mercados se opõem a renovar a ajuda emergencial e exigem avanços no programa de ajustes e privatizações.

E, nas últimas semanas, vários protestos e panelaços - inclusive de grupos da direita - pedem o impeachment.

Pouco depois de assumir o mandato, Bolsonaro rompeu com o Partido Social Liberal (PSL), partido nanico ao qual aderiu para se candidatar à Presidência e tentou governar com o apoio das bancadas da Bíblia (religiosos), do Boi (empresários do setor agropecuário) e da Bala (das armas).

O presidente tentou fundar um partido, o Aliança pelo Brasil, mas não conseguiu. E agora depende de políticos identificados com um sistema de toma lá, dá cá, do qual prometeu se diferenciar na campanha presidencial.

O atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM (centro direita), apoiou as medidas de ajuste, mas travou a "agenda de costumes" da bancada religiosa, com a qual Bolsonaro conta para se reeleger.

"O governo está desesperado para tomar conta da presidência da Câmara dos Deputados. Esta desesperado para desorganizar a agenda do meio ambiente, desesperado em flexibilizar a venda e entrega de armas, entre outras agendas que dizem respeito à sociedade e minorias", declarou Maia em dezembro.

Na luta pela sucessão, Maia apoia Baleia Rossi, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, centro).

Mas Bolsonaro parece em condições de impor seu candidato, Arthur Lira, do partido Progressistas (PP, direita).

Durante a disputa, o presidente liberou emendas orçamentárias e informou que poderia recriar os ministérios da Cultura, dos Esportes e da Pesca, transformados em secretarias, a fim de oferecer uma fatia maior ao 'centrão'.

"Se tiver um clima no Parlamento - pelo que tudo indica, as duas pessoas que nós temos simpatia devem se eleger -, não vamos ter mais pauta travada. A gente pode levar muita coisa avante, quem sabe até ressurgir os ministérios, esses ministérios", disse na quinta-feira.

No sábado, porém, mudou de parecer. "Não está previsto, não é fácil criar ministério, burocracia, um pouco mais de despesas", declarou.

Para o Senado, Bolsonaro apoia Rodrigo Pacheco (DEM), que também conta com o apoio do Partido dos Trabalhadores (PT), dos ex-presidentes Lula e Dilma.

Bolsonaro afirmou que os projetos para destituí-lo "não levam a lugar nenhum". "Nós continuaremos nesta cadeira até o final de 2022", declarou.

O analista Sylvio Costa, do Congresso em Foco, não acha que Bolsonaro resolva seus dilemas com a eleição de 'seus' candidatos no Congresso.

"O centrão cobra caro para apoiar governos, como já verificaram todos os ex-presidentes desde o fim da ditadura militar", afirmou.

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