Bolsonaro tenta ganhar tempo para não ceder a pressões do centrão

DANIEL CARVALHO, JULIA CHAIB E GUSTAVO URIBE
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 22.10.2020 - Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de formatura do curso do Instituto Rio Branco, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 22.10.2020 - Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de formatura do curso do Instituto Rio Branco, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Depois de uma semana que definiu como "bastante complicada", o presidente Jair Bolsonaro tem nos próximos dias a missão de contornar queixas do centrão enquanto ganha tempo para buscar soluções e não ceder de imediato à crescente pressão do bloco, que hoje lhe garante alguma estabilidade no Congresso.

A insatisfação da cúpula das siglas com o governo não se esgota no desejo de ver Ernesto Araújo fora do comando do Ministério das Relações Exteriores.

Dirigentes desses partidos avaliam, sob reserva, que os ministros de Bolsonaro, até mesmo aqueles oriundos do Poder Legislativo, estão distantes do dia a dia da Câmara e do Senado.

Parlamentares já pediram a Bolsonaro que cobre de seus auxiliares mais atenção às demandas das bancadas e que atenda os congressistas desde questões banais, mas que não são facilmente contempladas pelos ministros, como a realização de audiências, até a liberação de verbas e, eventualmente, indicação a cargos.

As reclamações de desamparo atingem até mesmo integrantes de partidos como DEM e PSD, que têm nomes de seus quadros na Esplanada dos Ministérios --Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral) e Tereza Cristina (Agricultura), no primeiro caso, e Fábio Faria (Comunicações) no segundo.

Parlamentares do centrão dizem nos bastidores que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) por vezes tem atuado mais como líder do governo do que o deputado Ricardo Barros (PP-PR), que ocupa formalmente a função. Aliados do presidente da Câmara afirmam que a interlocução fica nas costas do correligionário e ele tem limitações, por isso o ideal seria contar com o apoio de integrantes do governo.

Além de barrar um eventual processo de impeachment e de garantir a aprovação de pautas de interesse do governo, o centrão é considerado como fundamental para o plano de Bolsonaro de tentar a reeleição no ano que vem.

Em discurso recente, Lira elevou o tom contra o governo, chegando a falar em remédios "amargos" e "fatais", mas logo depois minimizou as declarações.

O atual chefe do Palácio do Planalto teme defecções no hoje bloco aliado por causa da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que retornou ao tabuleiro político e deve polarizar com Bolsonaro em 2022.

"Se você for olhar nas últimas eleições, quando o centrão fazia parte da base do governo, apoiava a reeleição", disse à Folha o ministro Fábio Faria.

"Eu acho que os partidos, pelo menos [aqueles] com os quais tenho conversado e que estão no governo, estão totalmente engajados na campanha de 2022", acrescentou o ministro.

Apesar do otimismo do ministro, a possibilidade de um racha no centrão em torno das candidaturas de Bolsonaro e de Lula é considerado inevitável por integrantes do bloco. Hoje, na opinião de deputados e senadores, a tendência é de que partidos como PTB, PP, PSC, Patriota e Republicanos apoiem o presidente.

E que siglas como PROS, Avante e Solidariedade apoiem o petista. O PL e o PSD são considerados uma incógnita. O apoio deles, segundo integrantes das legendas, vai depender dos acordos para as disputas estaduais e do desempenho dos presidenciáveis nas pesquisas de intenção de voto.

Em uma ofensiva ao PL, Lula tem manifestado, em caráter reservado, o desejo de que o empresário Josué Alencar, filho do ex-vice-presidente José Alencar, seja seu candidato a vice-presidente em 2022. O petista pretende se reunir com o empresário, que é filiado ao PL, nos próximos meses.

Além da preocupação eleitoral, Bolsonaro tem um receio imediato: o redesenho da Esplanada dos Ministérios que o centrão tem tentado impor. Diante da pressão de parlamentares para demitir Ernesto Araújo, Bolsonaro tenta ganhar tempo.

O presidente já recebeu o diagnóstico de que é inevitável a saída do último discípulo que o ideólogo Olavo de Carvalho tem no primeiro escalão.

A leitura de ministros e outros assessores é que, apesar de o chanceler já ter sido alvo de desgaste em outros momentos, a situação está no limite, já que a exoneração é cobrada publicamente pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que chegaram ao comando de suas Casas com apoio do chefe do Executivo.

Bolsonaro, no entanto, não quer entregar o ministro de imediato, menos de dez dias depois de ter cedido à pressão e sacrificado o general Eduardo Pazuello, seu então ministro da Saúde. Pazuello foi demitido depois de uma reunião entre Bolsonaro e Lira, que tentou emplacar indicações para o cargo.

As sugestões do deputado Dr. Luizinho (PP-RJ) e da médica Ludhmila Hajjar foram preteridas, o que irritou o presidente da Câmara e aliados, elevando a temperatura da relação.

Integrantes do núcleo duro do presidente dizem que Bolsonaro sabe que, se ceder novamente, terá que fazer concessões seguidas, já que os parlamentares também tentam tirar do governo ministros como Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Milton Ribeiro (Educação).

O presidente não quer dar a impressão de que exonerou o auxiliar a pedido do presidente da Câmara.

Depois das dificuldades para importação de vacinas conta Covid-19 da Índia e de insumos para produção de imunizantes da China, em janeiro, por dificuldades diplomáticas, a cabeça de Ernesto voltou a ser pedida na quarta-feira (24), após uma reunião no Palácio da Alvorada em que estavam presentes, Bolsonaro, Lira, Pacheco, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Luiz Fux, governadores aliados e ministros, incluindo o chanceler.

Em seu discurso no encontro, Lira pediu que o Itamaraty ampliasse o diálogo com nações consideradas estratégicas para o combate à pandemia do coronavírus. Ele citou como exemplo os Estados Unidos e a China.

No dia seguinte, Bolsonaro recebeu o presidente da Câmara e líder do centrão no Planalto e fez questão de acompanhá-lo até o carro, diante das câmeras, para sinalizar que estava tudo bem. Segundo relato de aliados de Lira e de Bolsonaro, o deputado voltou a criticar o ministro das Relações Exteriores na reunião privada que teve com o mandatário. Na ocasião, ele foi claro e pediu a exoneração de Araújo.

O presidente do Senado, que tem um perfil mais tranquilo e discreto, também foi a público por mais de uma vez queixar-se de Ernesto.

Na estratégia de ganhar tempo, o presidente da República está oferecendo ao Senado a cabeça de um auxiliar de patamar mais baixo, o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, flagrado fazendo gesto obsceno e racista durante sessão do Senado em que acompanhava Ernesto.

Bolsonaro sondou Pacheco para saber se a saída de Martins do núcleo de influência da Presidência da República diminuiria a pressão pela demissão de Ernesto.

A estratégia, segundo assessores do Planalto, seria ressaltar o papel de Martins em decisões da política externa para tentar convencer senadores de que, com a saída dele, Ernesto, um diplomata de carreira, estaria livre para conduzir questões internacionais de forma mais tradicional, menos ideológica, fazendo mudanças na postura em relação à China, ao governo do americano Joe Biden e às pautas do 5G e ambiental.