Bolsonaro tenta usar Forças em intimidação, e nota de comandantes traz instabilidade, diz Santos Cruz

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***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 05.02.2021 - O general Santos Cruz posa para fotos em sua chácara, nos arredores de Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 05.02.2021 - O general Santos Cruz posa para fotos em sua chácara, nos arredores de Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Entusiasta da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 e ministro com assento no Palácio do Planalto nos primeiros seis meses de 2019, o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz afirmou que o governo tenta arrastar as Forças Armadas para o jogo político e usá-las como instrumento de intimidação política e de "jogo de poder pessoal".

Santos Cruz criticou manifestações institucionais do Ministério da Defesa e das Forças Armadas nesse contexto do jogo político promovido por Bolsonaro, numa referência à nota conjunta emitida pela pasta e pelas Forças para intimidar o trabalho dos senadores na CPI da Covid.

"A CPI é política, ao mesmo tempo que faz a investigação. Há o desgaste. Não pode haver essa manifestação institucional. Quando ela acontece, acarreta mais desgaste ainda. Não contribui em nada, traz só instabilidade e alarmismo. Isso começa com o mau exemplo vindo de cima", afirmou o general.

Na noite do último dia 7, o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, e os comandantes das três Forças divulgaram uma nota com o pretexto de rebater afirmações feitas pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Aziz havia afirmado, numa sessão da CPI, que há muitos anos o Brasil "não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo".

A declaração foi feita a partir do surgimento de diversos militares das Forças nas suspeitas de irregularidades e corrupção na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro.

Na nota conjunta, as cúpulas militares disseram repudiar as declarações. E concluíram com uma ameaça: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro".

Para Santos Cruz, demitido do cargo de ministro da Secretaria de Governo da Presidência em 13 de junho de 2019, manifestações do tipo são prejudiciais.

O general, que integrou o governo, criticou a presença de um grande número de militares no governo Bolsonaro.

"Por que nós estamos tendo problema hoje? O governo desequilibrou a representação social, com um grande número de militares. Não vejo nada demais a presença dos militares. Mas a sociedade tem gente capaz em todas as áreas. Você não pode ir só numa fonte. Isso foi feito de forma proposital, pra tentar transferir o prestígio das Forças Armadas para o governo", disse.

Ele citou o caso do Ministério da Saúde, chefiado pelo general da ativa Eduardo Pazuello até março deste ano e loteado com militares em cargos-chave, durante os piores momentos da pandemia.

"Você vê o governante dizer: "O meu Exército." Não existe "meu Exército". Isso culminou com o Ministério da Saúde, com um oficial da ativa que levou mais um grupo grande de militares. A CPI pega essse ministério", afirmou o general.

Santos Cruz participou de uma live promovida pela entidade Parlatório S.A., na noite deste domingo (11). Estiveram presentes na conferência o ex-presidente Michel Temer; o ex-porta-voz do governo Bolsonaro, general Otávio Rêgo Barros; e o ex-juiz Sergio Moro, ex-ministro da Justiça do mesmo governo.

O general criticou ainda o discurso golpista de Bolsonaro com ameaças sobre a realização das eleições em 2022.

"Há ameaças a alguns atributos da democracia. A eleição é um atributo da democracia, é um dos fundamentos, as eleições periódicas. Até isso aí vem sendo atacado", disse.

Os ataques, segundo o ex-ministro de Bolsonaro, são num "nível inaceitável". "Nos últimos dias, houve uma aceleração da deterioração de relacionamento, de conduta, de comportamento político. Isso tem um efeito muito forte na sociedade."

Santos Cruz disse que pessoas e instituições precisam reagir de forma consistente a esse tipo de discurso golpista. "Como que não tem eleição? Foi com eleição que ele [Bolsonaro] chegou ao poder. Temos instituições muito fracas, no Judiciário, o Congresso."

A manifestação dos comandantes militares, como elemento de piora desse quadro, foi citada mais de uma vez pelo general da reserva.

"O desrespeito parece querer se institucionalizar. O momento é um pouco tenso também por conta da participação das Forças Armadas. Um protagonismo que não ajuda o bom ambiente.", disse o ex-ministro.

As Forças Armadas são apenas parte das instituições responsáveis pelo ambiente democrático, conforme o ex-ministro de Bolsonaro. "Elas não são as únicas nem as maiores responsáveis", afirmou.

"Você via militares dizendo que estavam em missão [no governo]. Não tem missão nenhuma. Quando você vai para uma atividade política, a responsabilidade é sua, individual, não tem nada a ver com a instituição", disse o general.

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