O terraplanismo ambiental de Bolsonaro agora é assunto no mundo todo

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta populares no Palácio da Alvorada. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Jair Bolsonaro ganhou, na última semana, uma grande oportunidade de mostrar ao mundo que não era o capitão motossera que muitos enxergam em sua conduta, até então marcada mais pela fala estabanada do que pela ação.

Ao primeiro sinal de alerta de incêndio florestal, ele poderia chamar uma reunião de emergência, convocar uma coletiva e prometer tomar todas as medidas necessárias para debelar as queimadas na Amazônia, no Cerrado e outros biomas de um país, literalmente, em chamas.

A chance virou cinzas quando ele decidiu brigar com os fatos e alimentar teorias da conspiração. Primeiro, ao não desautorizar Ricardo Salles quando seu ministro do Meio Ambiente usou a palavra “sensacionalismo” para comentar o fenômeno que escureceu os céus de São Paulo. Depois, quando, sem apresentar prova alguma, acusou ONGs que atuam na região de estarem por trás das queimadas.

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Para quem ouve em silêncio a negação da história e de dados científicos para dizer que não houve tortura no Brasil, que assassinos são, na verdade, heróis da pátria e que os índices de desmatamento apontados pelo Inpe são razões para a demissão de seu diretor, e não para medidas urgentes, ficou mais difícil engolir a narrativa bolsonarista quando a própria garganta está entupida da fuligem que o governo finge não ver.

Emparedado pela ONU, pela Nasa, pela Madonna e pelo presidente da França, Emmanuel Macron, Bolsonaro se queixou em púbico de “sensacionalismo” do colega francês e identificou em sua fala uma “mentalidade colonialista” – como se soberania nacional equivalesse ao direito de arrebentar o próprio território e recursos naturais.

É claro que a devastação das florestas não vem de hoje. É claro que há inúmeros fatores, e extensas irresponsabilidades em diversos âmbitos, públicos e privados, que explicam o fenômeno que se viu nos céus do país e correu o mundo.

Mas é, talvez, inédita a demonstração de tamanho despreparo de um líder de Estado em reconhecer a gravidade da questão, preferindo jogar no campo simbólico da “cortina de fumaça” a fumaça real de um país que aboliu as suas metáforas desde o mar de lama em Mariana.

Como o adolescente que tenta espantar a fumaça jogando o cigarro embaixo do tapete, o presidente da República tentou fazer que não era com ele até onde deu; nos primeiros dias da crise, deixou uma população inteira no vácuo ao se questionar quais são as reais causas dos incêndios, quem são os responsáveis e o que se espera dos órgãos de defesa do meio ambiente, desestruturados desde o início da gestão, para evitar que o fogo se alastre.

A pressão internacional levou o ministro do Meio Ambiente a rascunhar, ainda na quinta-feira, uma ideia de força-tarefa pró-Amazônia, com foco na prevenção e na regularização dos garimpos hoje ilegais.

Na sexta, no auge do bombardeio, o presidente foi a público e prometeu enviar o Exército para as regiões mais afetadas pelos focos de incêndio. Foi seu primeiro sinal de compromisso com a floresta que ajudou a colocar em risco desde que foi eleito.

Será suficiente?

Jair Bolsonaro passou a campanha de 2018 fazendo críticas ao trabalho do Ibama e prometendo acabar com a “indústria das multas ambientais” e “tirar o Estado do cangote de quem produz”. Também prometeu não demarcar nenhuma terra indígena em seu mandato, uma senha que abre a estrada para a devastação de atividades como o garimpo em áreas hoje protegidas.

Já na transição, o site do Observatório do Clima listou uma série de falácias do presidente eleito a respeito do tema, mostrando com dados que não há indústria da multa; que as punições aplicadas ao agronegócio não correspondem ao que ele afirmava em campanha; e que o dinheiro não estava indo para ONGs.

Uma vez empossado, Bolsonaro e equipe seguiram em seu terraplanismo ideológico – e não só a respeito do meio ambiente.

Seu chanceler chegou a contestar os estudos relacionados ao aquecimento global com um testemunho pessoal, de quando passou frio em uma viagem a Roma, na Itália. Argumento parecido usou um filho do presidente, o vereador Carlos Bolsanaro, em um dia de baixa temperatura no Rio.

A teimosia do clã Bolsonaro em brigar com os fatos começou a assustar não apenas a comunidade internacional, mas parte de seus parceiros comerciais. O agronegócio, sentindo a fumaça, reagiu, e tudo mudou desde então.

Quem consegue enxergar a realidade com uma ideia mínima de longo prazo sabe que o país flerta com o suicídio ao queimar sua imagem como player da preservação ambiental; até porque, nesse ritmo, não se sabe o que esperar de uma safra regada a agrotóxicos proibidos mundo afora e chuva tóxica produzida pela queimada.

O compromisso ambiental que o governo agora finge prezar é condição essencial para acordos como o que se desenha entre União Europeia e Mercosul e já custou a suspensão de repasses milionários da Alemanha e da Noruega para o Fundo Amazônia. O risco de o país sofrer um amplo boicote, com impacto profundo no bolso dos produtores que o presidente jura defender, hoje parece fora do horizonte - principalmente após líderes de Estado jogarem água na fritura durante a reunião do G7, em que Macron virou voz isolada -, mas não deixa de ser real.

O fato de haver interesses comerciais atingidos pelo acordo UE-Mercosul, e as potências europeias se aproveitarem disso, deveria ser razão suficiente para evitar afirmações atabalhoadas que criem brechas para acordos delicados construídos no campo da diplomacia. Pois uma coisa é falar com militantes de Twitter; outra é se comunicar com o mundo real.

A inteligência da resposta tardia à crise, porém, pode ser resumida na diplomacia do deputado Eduardo Bolsonaro, provável futuro embaixador brasileiro em Washington, nos EUA, ao compartilhar um post chamando o chefe de estado francês de “idiota”.