Bolsonaro transforma festa do Bicentenário em atos eleitorais com milhares nas ruas

Multidão se reúne em Copacabana, no Rio de Janeiro, para comemoração do Bicentenário da Independência e atos pró-Bolsonaro

Por Ricardo Brito e Gabriel Stargardter

BRASÍLIA,RIO DE JANEIRO (Reuters) - O presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), transformou as comemorações do Bicentenário da Independência em demonstrações de força para sua campanha ao levar milhares de apoiadores para as ruas em atos eleitorais nos quais atacou o principal adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e lançou críticas, desta vez indiretas, contra a cúpula do Judiciário a menos de um mês do primeiro turno.

"Hoje todos sabem quem é o Poder Executivo, o que é a Câmara dos Deputados, o que é o Senado Federal e também o que é o Supremo Tribunal Federal", declarou Bolsonaro. Após citar o STF, o presidente fez uma pausa que foi preenchida por vaias do público em sua fala em um trio elétrico na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Praticamente a mesma fala se repetiu em ato no Rio de Janeiro, também em meio a fortes vaias.

No Rio, Bolsonaro também fez uma defesa enfática dos empresários que foram alvos recentemente de uma operação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal e autorizada por Alexandre de Moraes, ministro do Supremo. Durante toda a jornada, o presidente esteve em vários momentos ao lado de Luciano Hang, um dos alvos da operação.

"Hoje (quarta) estive com empresários acusados de golpistas, pelo amor de Deus, não tiveram nada mais do que sua privacidade violada. Quero que cada vez mais vocês tenham liberdade para decidir seu futuro", afirmou.

Diferentemente do 7 de Setembro passado, nesta quarta, Bolsonaro não fez ataques diretos ao STF nem voltou a levantar questionamentos ao sistema eleitoral por meio das urnas eletrônicas. No ano passado, em São Paulo, ele chegou a ameaçar não acatar decisões judiciais do ministro de Moraes, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mesmo assim, o 7 de Setembro foi uma exibição de poder de mobilização popular de um presidente que ainda não se comprometeu a respeitar os resultados eleitorais de outubro sem adicionar condicionantes vagas como cobrar "transparência" --a mensagem estava no trio elétrico no Rio onde Bolsonaro discursou-- e que tem feito declarações ora mais incisivas e ora mais duras contra os demais Poderes.

Nesta quarta-feira, prometeu enquadrar "dentro das quatro linhas da Constituição" quem ousar sair delas e, mais cedo, chegou a dizer que em 2022 o "bem" venceria o "mal", como já havia acontecido antes no Brasil, citando 2018, quando foi eleito, mas também 1964, quando houve o golpe de Estado --Bolsonaro é um defensor da ditadura.

As críticas sem provas do mandatário ao sistema de votação também alimentam os temores de oponentes e observadores de que Bolsonaro esteja preparando o terreno para questionar os resultados eleitorais como seu aliado Donald Trump fez em 2020 nos Estados Unidos, com o agravante de que tentaria arrastar consigo ao menos parte dos militares e outras forças de segurança.

AUSÊNCIAS

Se demonstrou força popular, a captura da festa do Bicentenário da Independência por Bolsonaro parece ter provocado, nos eventos oficiais, ausências notórias, como as dos presidentes do Supremo, Luiz Fux, do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) --este, um importante aliado de Bolsonaro que preferiu passar o feriado fazendo campanha em Maceió. Os dois últimos exaltaram no Twitter a data comemorativa.

A campanha à reeleição do presidente comemorou o fato de o mandatário não ter disparado de forma mais incisiva contra o STF e o TSE, segundo duas fontes. Elas avaliam que os ataques não ajudam na tarefa do presidente de reduzir a rejeição e conquistar votos para se reeleger.

No Supremo, segundo duas fontes, a avaliação foi a de que o feriado transcorreu sem incidentes e até mesmo as falas do presidente não causaram preocupação, ainda que a cúpula do Judiciário fosse o principal alvo de cartazes bolsonaristas.

"A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela não há a quem recorrer", dizia um dos cartazes no Rio de Janeiro. "Onde recorrer contra o ativismo do STF quando o Senado se cala???", questionava outro, em Brasília. "Prisão para o Xandão" (com uma foto do Moraes, como se estivesse atrás das grades), de acordo com um terceiro.

LULA NA MIRA E QUESTIONAMENTO NO TSE

Líder nas pesquisas eleitorais, Lula foi o principal alvo dos ataques do presidente nos atos. No duro discurso que fez no Rio, disse que tipo de gente como o ex-presidente tem de ser "extirpado da vida pública" e ainda o chamou de "quadrilheiro".

"Não é apenas não voltar à cena do crime, esse tipo de gente tem que ser extirpado da vida pública", disse.

Nesta semana, a campanha do candidato à reeleição subiu o tom e passou a usar pessoas chamando o ex-presidente de ladrão em suas peças de propaganda no rádio e na TV. Segundo fontes da campanha, a ideia é intensificar ataques sobre casos de corrupção nas gestões petistas para desgastar Lula.

As manifestações de apoio a Bolsonaro levaram milhares de pessoas nas duas cidades e também em São Paulo, tendo sido filmadas pela equipe da campanha e devem ser usadas em breve na propaganda eleitoral. Elas já estão sendo fortemente exploradas pelo presidente e por aliados até mesmo para contestar resultados adversos em pesquisas de intenção de voto.

"Nunca vi um mar tão grande aqui com essas cores verde e amarela, aqui não tem a mentirosa Datafolha, aqui é o nosso 'datapovo', aqui a verdade, aqui a vontade de um povo honesto, livre e trabalhador", disse Bolsonaro, em Brasília, ecoando falas suas, de seus filhos de aliados que pregam que as pesquisas de opinião são falsas e não retratam seu apoio no eleitorado.

No Rio, Sidney Granja, um mecânico de 58 anos que participava do ato do presidente, disse ter certeza de que Bolsonaro, atrás de Lula nas pesquisas, ganhará no primeiro turno. “O Judiciário está ultrapassando e interferindo no Executivo”, concordou com o presidente.

Durante todo o dia, o presidente entremeou atos oficiais e de campanha como, por exemplo, quando quebrou o protocolo de segurança para cumprimentar apoiadores e posar para fotos com seu candidato a vice-presidente, o general da reserva Walter Braga Netto (PL), em imagens captadas inclusive pela emissora oficial, a TV Brasil, que é proibida legalmente de transmitir atos político-eleitorais.

A jornada levou advogados eleitorais a avaliar que o presidente poderia ser investigado por abuso de poder. A campanha de Lula já anunciou que irá ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) questionar a conduta do presidente.

(Reportagem adicional de Anthony Boadle, Ueslei Marcelino e Adriano Machado, em Brasília, e Rodrigo Viga Gaier e Gabriel Stargardter, no Rio de Janeiro)