Bolsonaro triplica viagens ao Nordeste, mas analistas veem 'desdém' por falta de visita a cidades atingidas por enchente

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As férias de Jair Bolsonaro em Santa Catarina, num momento em que a Bahia demandava atenção em razão da tragédia causada por chuvas torrenciais, vão na contramão dos acenos dados pelo presidente ao Nordeste ao longo de 2021. Em seu terceiro ano de mandato, o presidente triplicou o número de discursos em terras nordestinas em comparação a 2019: 21 ocasiões ante sete. Cientistas políticos, no entanto, consideram o número insuficiente diante da imagem calcificada de "desdém" do presidente em relação à região, reafirmada com a decisão de não viajar para o sul da Bahia.

O levantamento do GLOBO, com informações do próprio Palácio do Planalto, contabiliza apenas viagens com discurso oficial, feitos, por exemplo, em cerimônias de inauguração de obras, de posse, solenidades militares, eventos empresariais e formaturas. Discursos no Distrito Federal e fora do país não foram considerados.

Além de 25 mortos e centenas de feridos, as enchentes na Bahia no mês passado deixaram milhares de pessoas desabrigadas e 153 cidades em estado de emergência. O governo federal, entretanto, recusou ajuda humanitária oferecida pela Argentina ao estado, e Bolsonaro chegou a afirmar ao site ND Mais, de Santa Catarina, que esperava "não ter que retornar antes" do fim de sua folga.

Carlos Melo, professor do Insper, afirma ser difícil de explicar as razões pelas quais Bolsonaro preferiu ignorar a tragédia baiana, mas relaciona a postura ao fato de a Bahia ser governada por um quadro do PT, Rui Costa.

— De algum modo, não deixa de ser um enfrentamento que ele faz ao fato de ser um governo do PT, aos setores da sociedade que têm essa postura mais humanitária, que se preocupa com enchentes, com Covid, fome. Bolsonaro quer mostrar pro seu eleitor que ele dá pouca importância para isso, que ele é durão — diz.

O cientista político Cláudio Couto, da FGV, elenca o comportamento de Bolsonaro em relação ao Nordeste como mais um item na lista do que qualifica como "menosprezo presidencial" à região, que inclui termos pejorativos em relação aos nordestinos:

— Depois de chamar os governadores da região, jocosamente, de "paraíbas", e de se comportar dessa forma desdenhosa em relação às enchentes na Bahia, será difícil mudar a percepção negativa que se tem dele na região. Ademais, Lula nada de braçadas por lá. É muito popular, oriundo da região e tem uma postura bem mais positiva em relação ao Nordeste — afirma Couto.

As pesquisas indicam que o Nordeste é a região mais fiel ao PT, onde a intenção de voto em Lula chega a 63%, segundo o último Datafolha. Já Bolsonaro tem suas maiores intenções de voto no Norte e no Centro-Oeste (29%), seguido pelo Sul (27%). Somados, os nove estados nordestinos têm 38 milhões de eleitores e correspondem a 27% de todo o eleitorado brasileiro.

O maior número de visitas ao Nordeste em 2021 diverge da atenção dada por Bolsonaro à região em seu primeiro ano de mandato — quando ele também formou um Ministério sem nenhum nordestino. Desde a posse, ele demorou quase cinco meses para fazer sua primeira visita à região. A estreia foi em Recife, na inauguração de um conjunto habitacional.

A participação do Nordeste nos discursos oficiais de Bolsonaro passou de 11% em 2019 para 20% em 2020, e para 31% no último ano. O Sudeste, por outro lado, perdeu espaço. Se a região concentrava 52% das viagens com discurso oficial do presidente no primeiro ano de mandato, a taxa em 2021 foi de 25% em 2021.

Enquanto Couto afirma que a maior importância do Nordeste na agenda de Bolsonaro decorre da preocupação em agradar os eleitores da região, Melo associa as viagens presidenciais à rede de alianças que Bolsonaro formou para criar uma base de sustentação ao seu governo na Câmara.

— É lá que reside o Centrão, no Piauí de Ciro Nogueira, nas Alagoas de Arthur Lira. Se Bolsonaro não equilibrar, essas lideranças vão pular do barco. Então ele precisa mostrar de alguma forma a esses eleitores especiais que ele é capaz de sustentar uma campanha — afirma Melo.

A via de mão dupla em relação ao Nordeste tem paralelo também no Norte do país, que subiu na escala de prioridades do presidente no último ano. Em 2019, Bolsonaro fez oito discursos oficiais na região. No ano seguinte, com a chegada da pandemia, o número caiu para três, mas subiu para 11 em 2021.

Em janeiro de 2021, Manaus se tornou mais uma vez o epicentro da pandemia no Brasil. O estado passou por um colapso na saúde: operava com toque de recolher a partir das 19h, os leitos haviam se esgotado, pacientes estavam sendo transferidos para outros estados e não havia mais oxigênio para quem tinha dificuldade para respirar. Mesmo assim, o presidente só foi visitar o estado três meses depois: em abril, foi a Manaus para uma reunião com pastores evangélicos, mas não deu nenhuma declaração sobre a tragédia.

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