Bolsonaro usa falso relatório do TCU para defender remédios ineficazes contra Covid

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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech during the announcement of sponsorship of olympic sports team by the state bank Caixa Economica Federal at Planalto Palace on June 1, 2021. - Brazil's President Jair Bolsonaro said on Tuesday that, if it depends on his government, his country will host the 2021 Copa America, in a bid to reduce uncertainty over the hosting of the world's oldest national team tournament. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech during the announcement of sponsorship of olympic sports team by the state bank Caixa Economica Federal at Planalto Palace on June 1, 2021. - Brazil's President Jair Bolsonaro said on Tuesday that, if it depends on his government, his country will host the 2021 Copa America, in a bid to reduce uncertainty over the hosting of the world's oldest national team tournament. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a utilizar um falso relatório do Tribunal de Contas da União para levantar a hipótese de que houve supernotificação de mortes por Covid-19 no Brasil.

Segundo Bolsonaro, essa teoria também apontaria que os remédios sem eficácia contra a doença, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, foram responsáveis por um suposto número menor de mortes no Brasil em relação a outros países. E que essa supernotificação poderia ter sido motivada pelos governos estaduais buscando mais recursos federais.

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O falso relatório citado por Bolsonaro foi produzido pelo auditor da TCU Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques. De acordo com o próprio Tribunal, no entanto, o texto se tratava de "uma análise pessoal" de Marques e não tem "respaldo em nenhuma fiscalização do TCU", além de dizer que "não há informações em relatórios do tribunal que apontem que 'em torno de 50% dos óbitos por Covid no ano passado não foram por Covid', conforme afirmação do presidente Jair Bolsonaro".

O auditor foi afastado do órgão, que está realizando uma investigação sobre o assunto. Segundo a Folha de S.Paulo, ele é filho de um militar amigo pessoal de Bolsonaro, que teria repassado o texto ao presidente.

Apesar dos desmentidos do Tribunal de Contas da União, Bolsonaro se referiu ao texto, durante a sua live nesta quinta-feira (10), como "um relatório não conclusivo do TCU". Ele citou um critério que estabelecia que parte dos recursos federais seriam enviados aos estados de acordo com o número de notificações de covid.

"O TCU diz, no documento de mais de 100 páginas, que esse critério apresenta o risco de incentivar a supernotificação do número de casos da doença, visando maior aporte de recurso por parte do estado - quanto mais mortes por covid, mais dinheiro para o estado", disse Bolsonaro, citando o relatório falso.

Em meio a ataques contra a imprensa e a defesa de ações do governo federal em relação à divulgação do número de casos de covid-19 no país, um tema controverso principalmente no início da pandemia, Bolsonaro buscou reforçar sua teoria de que houve supernotificação de casos utilizando até os números de óbitos nos anos anteriores no Brasil.

O presidente afirmou que as mortes no país estavam numa crescente desde 2015. "Se tirarmos os 200 mil óbitos de 2020 [relacionados à pandemia], esse número é decrescente em relação ao ano anterior. Ou seja, sem a pandemia, teria morrido menos gente no Brasil em 2020 do que em 2019. É outro indício robusto de supernotificação", disse Bolsonaro.

Ele pediu que os parlamentares acionassem o TCU para "fazer uma investigação criteriosa nesses óbitos". "Porque muita gente tinha várias comorbidades e tinha covid também. E acabava prevalecendo o quê? Covid. Talvez, repito, talvez, para conseguir mais recursos federais. Isso poderia, não estou afirmando, mas poderia ser patrocinado pelos respectivos secretários estaduais de saúde", especulou.

Depois, o presidente, citando o documento falsamente atribuído ao TCU, voltou a dizer que essa supernotificação "gira em torno de 50%, 60%". Nesse momento, afirmou que, ao se retirar essas mortes, o Brasil teria um número "bastante reduzido" de óbitos por milhão de habitantes em relação a outros países. "Qual seria o milagre disso aí? Com toda certeza, o tratamento imediato, feito com aquilo que você sabe", disse.

Bolsonaro disse que questionou várias pessoas em reuniões sobre o que elas teriam utilizado para se tratar da doença e mencionou que "60%, 70%", delas respondiam que utilizavam o "remédio contra a malária" (hidroxicloroquina) ou o "remédio contra o piolho" (ivermectina).

"Então, o milagre, com toda certeza, uma vez apurados esses números aqui, de termos o menor número de óbitos por milhão de habitantes, é o tratamento inicial. É o remédio da malária, é o remédio do piolho. Não tem outra explicação", clamou.

Ele disse, ainda, que não apostou nos medicamentos "de graça". "Não foi da minha cabeça. Porque eu não errei nenhuma. Quando baixei o imposto da vitamina D, fui criticado, 'sem comprovação científica'. Eu falava em isolamento vertical, e que a escola não poderia fechar. Eu não perdi nenhuma", disse Bolsonaro, que voltou a negar ter chamado a covid-19 de "gripezinha" de forma generalizada.

Eficácia de vacinas

Bolsonaro esteve acompanhado na live pelo ministro do Turismo, Gilson Machado. Apesar do discurso alinhado ao do presidente, Machado citou, por diversas vezes, o otimismo em relação à retomada do turismo por causa do avanço da vacinação no país.

"Estive em mais de 15 municípios [do Brasil], presidente, nos últimos 26 dias. O que a gente tem visto é que, realmente, quem foi vacinado, naquele nível de 60 anos para cima, diminuiu bastante o número de mortes. Os prefeitos estão dizendo isso daí", disse Machado durante a live.

A frase do ministro contrasta com a afirmação que Bolsonaro fez ontem, questionando a comprovação científica das vacinas e dizendo erroneamente que elas estão em "estado experimental". Ele as comparou, como já fez outra vez, aos medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

Ataques a Doria

Na live de hoje, Bolsonaro ainda fez ataques a João Doria (PSDB). Ele provocou o governador paulista, que foi fotografado em um hotel do Rio de Janeiro no último fim de semana. "Ele fecha teu estado e, ou vai para Miami, ou fica num hotel do Rio de Janeiro com a sunguinha apertadinha. Aquela canela fina. Tem que dar exemplo, poxa", disse Bolsonaro, citando que Doria estava sem máscara.

"Distanciamento é pra você, rapaz", falou o presidente se dirigindo à população. "Esse cara está todo dia com a máscara preta, um gomex na cabeça e falando da vacina dele. O sunguinha apertadinha está dando um péssimo exemplo", atacou.

Durante o discurso, ele ainda citou o estudo que pediu ao ministério da Saúde sobre a desobrigação do uso de máscaras e confirmou sua presença em um passeio com motos na capital paulista. Depois, voltou a atacar o governador.

"Vai ficar refém de máscara até quando? Isso está servindo para multar a gente, pessoal. Eu estou sendo ameaçado de ser multado em São Paulo se não usar máscara, porque 'é um cidadão como outro qualquer'. Ô hipócrita, você não respeita seu povo, não respeita ninguém, vai ameaçar o presidente da República?", xingou.

"Não tem moral para mais nada, está completamente descredibilizado no seu estado, tomou medidas ditatoriais, fechando lojas de forma indiscriminada, destruindo milhões de empregos. Você destruiu a cidade de Aparecida, que vivia de romeiros, com essa neurose, essa obsessão, de achar que vai salvar a vida de todo mundo. É um crime que cometeu em seu estado."