Bolsonaro vai a Garanhuns, terra natal de Lula, e desdenha de pesquisas ao falar em vitória no 1º turno

RIBEIRÃO PRETO, SP, CARUARU, PE e GARANHUNS, PE (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participou de mais uma motociata sem capacete neste sábado (17), ao fazer campanha em cidades de Pernambuco, encerrada com discursos em Caruaru e Garanhuns em que disse que vencerá a eleição presidencial no primeiro turno.

Bolsonaro iniciou a motociata em Santa Cruz do Capibaribe e passou por Toritama antes de chegar a Caruaru. A distância entre as cidades é de 42 quilômetros. Depois, visitou Garanhuns, terra natal de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera a corrida eleitoral.

Na motociata, o presidente repetiu o que já tinha feito anteriormente, como nos atos do 7 de Setembro, quando esteve numa motociata de 13 quilômetros sem capacete, o que configura infração gravíssima conforme o Código de Trânsito Brasileiro.

Ao chegar ao palanque montado para o ato em Caruaru, o presidente disse que será vitorioso em primeiro turno na eleição deste ano. Pesquisa feita pelo Datafolha entre terça-feira (13) e quinta (15) mostrou que Lula lidera a corrida eleitoral com 45% das intenções de voto, uma vantagem de 12 pontos em relação a Bolsonaro, que tem 33% e busca a reeleição.

"E um detalhe, para presidente da República nós vamos ganhar no primeiro turno. Vamos mostrar que nós não queremos a volta dos escândalos que tínhamos há pouco, no passado", disse Bolsonaro, logo após pedir votos para candidatos pernambucanos.

Em Garanhuns, onde a participação do presidente num evento fez com que o PT orientasse seus militantes a ficarem em casa neste sábado, Bolsonaro atacou Lula em seu discurso, sem citar o nome do adversário, em alusão a escândalos de corrupção dos governos petistas.

O presidente também voltou a falar em conquistar um novo mandato já no próximo dia 2 de outubro. "Se Deus quiser, será no primeiro turno", afirmou.

Segundo Eraldo Ferreira, dirigente do PT na cidade e primo do ex-presidente Lula, a orientação para a militância não sair às ruas foi dada para que não haja conflito.

"É fato que esse governo e o bolsonarismo têm agredido a Justiça, de forma verbal e até física a imprensa, militantes nossos têm perdido a vida. Não achamos prudente ficar na rua porque acreditamos que essa gente, além de violenta, é covarde em seus atos", afirmou.

De acordo com Ferreira, esse tipo de confronto não interessa ao partido. "Melhor que deixemos que ele faça sua marcha, o Bolsonaro, porque faz tempo que deixou de ser a marcha para Jesus, é marcha para Bolsonaro, marcha para o fascismo, e nós, amanhã, retomamos nossa campanha de forma tranquila e pacífica."

O ato da Marcha para Jesus em Garanhuns foi marcado por alusões a Lula. Em diversas ocasiões, os apoiadores do candidato à reeleição citaram que Garanhuns é a terra do ex-presidente, classificando o petista como corrupto e ladrão.

O discurso inclusive contrariou a fala de um locutor do evento, que disse que Lula não nasceu na cidade —o ex-presidente nasceu em Caetés, que à época era distrito de Garanhuns.

Durante a marcha na principal avenida de Garanhuns, uma apoiadora de Lula estendeu uma bandeira alusiva ao ex-presidente em um prédio. Os bolsonaristas reagiram em coro com vaias e xingamentos ao petista.

Garanhuns é um dos redutos do lulismo no estado. Em 2018, o petista Fernando Haddad obteve 72,22% dos votos válidos no segundo turno, ante 27,78% de Bolsonaro, à época no PSL.

No município, as opiniões sobre a ampliação dos auxílios às vésperas da eleição é guiada pelo voto, conforme a Folha mostra na série Raízes Presidenciais. A campanha eleitoral esquentou na cidade depois do início da propaganda de rádio e TV. Os lulistas alegam saudade dos tempos de Lula como presidente, enquanto os focos bolsonaristas fazem contestações.

DIFERENÇA

No Nordeste, Bolsonaro busca reduzir a desvantagem em relação a Lula. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (15) mostra o petista com 60% das intenções de voto entre eleitores do Nordeste ante 23% do atual presidente.

Bolsonaro também buscou ao longo do discurso em Garanhuns reforçar vínculos com evangélicos, segmento em que o candidato à reeleição lidera a disputa presidencial, apesar de Lula ter reduzido a diferença, conforme o Datafolha.

A escolha das cidades contempladas pela motociata foi estratégica. Santa Cruz do Capibaribe, que possui 111 mil habitantes, foi a única cidade de Pernambuco em que Bolsonaro venceu no segundo turno das eleições de 2018. Em Caruaru, maior cidade do interior do estado, o presidente ganhou no primeiro turno há quatro anos, e no segundo perdeu por margem estreita.

PROGRAMA SOCIAL

Num discurso de nove minutos em Caruaru, o presidente disse ainda que o preço da gasolina caiu e que vai investir recursos no Brasil, "não em Cuba ou na Venezuela", em nova crítica a Lula.

Bolsonaro afirmou ainda que vai manter o Auxílio Brasil "lá em cima" num eventual segundo governo. A afirmação foi feita no momento em que o presidente falava dos gastos do governo com a pandemia da Covid-19.

"Nós gastamos em 2020 o equivalente a 15 anos de Bolsa Família. Por falar em Bolsa Família, nós atendemos aos mais necessitados. Lá atrás, o Bolsa Família começava pagando R$ 80 por mês para a família e se a família, o chefe, arranjasse emprego, ele perdia o Bolsa Família. No nosso governo, nós acabamos com o Bolsa Família e criamos o Auxílio Brasil, e o valor passou a ser no mínimo R$ 600. E mais, você pode arranjar emprego que você não vai perder o Auxílio Brasil."

Em outro trecho do discurso, o presidente afirmou que o país está vencendo a crise, com preços dos combustíveis caindo, assim como o desemprego. "Gasolina lá embaixo, Auxílio Brasil lá em cima."

Após o tour pelas cidades pernambucanas, o presidente irá para Londres, para participar do funeral da rainha Elizabeth 2ª.

"Daqui a pouco vou para Londres participar da despedida, dos últimos atos, da rainha Elizabeth 2ª. Contato com chefes de estado do mundo todo", disse, em Caruaru.

Na Assembleia-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), onde deverá chegar segunda-feira (19), a agenda extra do presidente deverá ser marcada por reuniões bilaterais com presidentes de países que, juntos, somam apenas 0,75% das exportações brasileiras.