Bolsonaro vai se reunir por videoconferência com Witzel e Doria nesta terça-feira

Sérgio Roxo, Daniel Gullino, Gustavo Maia, Thais Arbex e Naira Trindade

RIO, BRASÍLIA E SÃO PAULO — O presidente Jair Bolsonaro terá um encontro virtual nesta terça-feira com seus dois principais adversários políticos na crise do coronavírus: os governadores do Rio, Wilson Witzel (PSC), e de São Paulo João Doria (PSDB). O presidente vem acusando os dois de tentar tirar proveito do avanço da pandemia no Brasil, de olho na sucessão presidencial em 2022. De seu lado, Witzel e Doria fizeram pesadas críticas na semana passada a Bolsonaro, que estaria sendo omisso na crise sanitária, segundo eles. Witzel chegou a reclamar que não tem diálogo com o governo federal.

A conversa entre os três se dará por uma videoconferência com o presidente, da qual participarão também os demais governadores de estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Na última segunda-feira, Bolsonaro iniciou a rodada da reunião virtual com os chefes dos Executivos estaduais pelos das regiões Nordeste e Norte. Depois, falou que a conversa foi de “cooperação” e o “entendimento”.

Foi uma mudança de tom na relação do presidente com os governadores. No domingo, ele havia declarado que os governadores “enganam a população”, e chegou a chamá-los de “exterminadores de empregos” por causa das restrições impostas e seu impacto na economia. Em rápido pronunciamento após a reunião de segunda-feira, Bolsonaro afirmou que as videoconferências foram “excepcionais” e disse que o coronavírus é o “inimigo comum” de todos, sem deixar de ressaltar preocupação com o desemprego.

— O que mais imperou entre nós foram as palavras cooperação e entendimento. Sabemos e temos a consciência que o efeito colateral, que pode ser o desemprego, pode ser combatido. Então, partindo essa premissa, foram duas reuniões excepcionais, onde anunciamos reposta às cartas dos governadores e de associações representativas dos prefeitos.

O discurso foi bem diferente do que vinha sendo adotado até então. No domingo, em entrevista à TV Record, Bolsonaro disse que governadores “fogem de sua responsabilidade e atacam governo federal” e que “brevemente, o povo saberá que foram enganados por esses governadores e por grande parte da mídia nesta questão do coronavírus”. Disse ainda fazer contato direto com prefeitos para tratar da pandemia, porque alguns governadores estariam criando uma crise “muito pior do que o próprio coronavírus”.

Governadores do Norte e do Nordeste avaliaram o diálogo como positivo o diálogo com Bolsonaro nesta segunda-feira, mas ainda esperam saber os critérios para a distribuição dos recursos anunciados. Há dúvida, principalmente, em relação aos R$ 8 bilhões anunciados para ações na saúde. O ministro da Saúde fará uma videoconferência com os secretários estaduais da área amanhã para discutir o tema. De acordo com os participantes, Bolsonaro e seus auxiliares também não conseguiram explicar como serão aplicado os R$ 2 bilhões prometidos para a assistência social.

— Não dá para lamentar nem comemorar. Embora tenha sido positivo por ter havido uma reunião, em que o governo reconheceu e atendeu parte de nossa agenda, ficaram algumas lacunas — disse ao GLOBO o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), que chegou a ir à Justiça para poder ter o direito de medir a temperatura de passageiros que desembarcam em Salvador e se colocou contra a medida provisória que concentra no governo o poder de restringir a circulação de pessoas, evitou citar o nome de Bolsonaro, mas elogiou a inciativa:

— Quero saudar e parabenizar a Presidência da República por ter aceito essa reunião e feito essa reunião. Esse não é o momento de pensar em política ou em partido político. Por isso, quero agradecer a oportunidade de inciar o diálogo com o governo federal - afirmou.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, também disse ser muito importante a abertura de diálogo. De acordo com os participantes, foram discutidas tanto as necessidades para o atendimentos dos infectados nas unidades de saúde como a situação fiscal dos estados após a crise econômica provocada pela pandemia. As demandas dos estados devem ser analisadas.