Sob Bolsonaro, a “velha política” manda abraço

Valdemar Costa Neto dá depoimento sobre "mensalão" em 2005. Ele hoje avaliza indicações para postos-chave do governo Bolsonaro. Foto: Jamil Bittar JB/KS

Enquanto não vem a público o registro da reunião do dia 22 de abril com seus ministros, fica por conta do leitor imaginar o que levou o presidente Jair Bolsonaro a encontrar tempo, no meio da pandemia do coronavírus, para promover nomeações aparentemente aleatórias no Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) e no FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).

No comando do órgão de combate a secas está Fernando Marcondes de Araújo Leão. Filiado ao Avante, ele chegou ao posto no início de maio por indicação do Centrão, segundo o colunista da revista Época Guilherme Amado. Em seu currículo consta uma dívida de R$ 176 mil com a União, parte dela relativa a tributos não pagos (R$ 142 mil) e outra parte, de uma multa trabalhista.

Seu padrinho, segundo o colunista, é o deputado Sebastião Oliveira (PL-PE), alvo, na semana passada, de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal, que investiga supostos desvios em obras na capital pernambucana. 

Já Garigham Amarante, novo diretor de ações educacionais do FNDE, trabalhava até ontem como assessor da liderança do PL (Partido Liberal) na Câmara. Com orçamento bilionário (R$ 55 bilhões), o órgão do Ministério da Educação é responsável, entre outras atribuições, pela gestão de programas de livros didáticos e pelo transporte escolar.

Leia também

O novo gestor não tem ligação com a área. Ele é advogado, mas já prometeu em entrevista à TV Globo que vai estudar e trabalhar muito para não fazer nada de errado. O cargo, segundo ele, é um desafio.

A indicação foi feita pelo presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Nos bastidores conta-se que a chefia do órgão ficará por conta do Partido Progressista (PP), antiga legenda de Bolsonaro -- e também de Paulo Maluf. Até 2016, nenhum partido tinha mais filiado investigado na Lava Jato do que o PP.

Também neste mês, Bolsonaro nomeou o ex-ministro de Minas e Energia Beto Albuquerque (PSB) para o conselho da usina Itaipu Binacional. Ele terá a companhia dos ex-deputados José Carlos Aleluia (DEM ) citado em delação da Odebrecht, e Carlos Marun (MDB), ex-ministro de Temer e aliado de primeira hora de Eduardo Cunha na Câmara. Ambos foram reconduzidos ao posto pelo governo que prometia acabar com nomeações políticas e o loteamento promovido pelos antecessores.

Siga o Yahoo Notícias no Google News

A presença de indicados do Centrão em postos-chave do governo acontece no momento em que ameaça chover à mesa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), pedidos de impeachment contra Jair Bolsonaro após as suspeitas levantadas por Sergio Moro e possíveis crimes de responsabilidade na crise do coronavírus.

Não só.

Segundo reportagem publicada no site da Agência Pública por Gilberto Nascimento, autor de “O reino: A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal”, o sonho de consumo de Bolsonaro e também do bispo Edir Macedo é ver o deputado Marcos Pereira (Republicanos) na cadeira hoje ocupada por Maia. 

A aliança envolveria o acolhimento de familiares do presidente no partido da Universal e impulsionaria a pauta de reivindicações da igreja e congêneres.

Até lá tem muita água para correr, mas o apoio do Centrão garantiria já ao menos um cinturão de conforto para o presidente eleito prometendo acabar com o que chamou de toma-lá-dá-cá.

Com a mudança de postura, ele terá de convencer sua militância que loteamento é só o que governos adversários promovem; no caso dele, é patriotismo.

Além do PP (40 deputados eleitos em 2018) e do PL (39), o Centrão é composto por integrantes do Republicanos (31), do Solidariedade (14) e do PTB (12), além de uma ala do PSD (36), do MDB (34), do DEM (28), do PROS (10), do PSC (9), do Avante (7) e do Patriota (6).

Coincidência ou não, o cacique do PTB, Roberto Jefferson, ex-deputado condenado no mensalão, já se arma, literalmente, e promete matar ou morrer pelo capitão em postagens pelas redes.

Parece uma ameaça. E é.

Já são 16,8 mil mortes pelo coronavírus no país.


Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.

Nosso objetivo é criar um local seguro e atraente para os usuários se conectarem a interesses e paixões. Para melhorar a experiência de nossa comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários dos artigos.