Bolsonaro vira garoto-propaganda de cloroquina em outdoor no ES: 'Tratamento precoce salva vidas'

João de Mari
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Publicidade fere pelo menos cinco artigos da regulamentação de 2008 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Foto: Divulgação/Facebook/M.Gonçalves)
Publicidade fere pelo menos cinco artigos da regulamentação de 2008 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Foto: Divulgação/Facebook/M.Gonçalves)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se tornou garoto-propaganda do medicamento defendido por ele próprio para o tratamento do novo coronavírus, a cloroquina, em um outdoor em Vitória, no Espírito Santo, instalado na quarta-feira (5).

Embora não tenha eficácia comprovada sequer em casos de doenças respiratórias, tampouco em pacientes diagnosticados com Covid-19, apoiadores de Bolsonaro instalaram a peça publicitária com a foto do presidente ao lado de uma caixa de sulfato de hidroxicloroquina, um derivado da droga, que também é defendida fortemente por ele.

Em um vídeo que circula pelas redes sociais, gravado e transmitido ao vivo pelo deputado estadual bolsonarista Capitão Assumção (Patriota-ES), é possível ver aglomeração de ao menos 20 pessoas, sem máscaras, vestidas com camiseta das cores da bandeira nacional.

“Estamos aqui para inaugurar mais um outdoor do nosso presidente Bolsonaro. Vou mostrar a alegria da turma aqui. Está ao vivo, galera! Está ao vivo!”, disse, dirigindo-se aos apoiadores, que gritavam palavras de ordem em apoio ao presidente.

Ainda é possível ver o deputado dizendo que a propaganda foi uma homenagem a Bolsonaro, citando que desde março o presidente defende o uso da cloroquina.

Os apoiadores seguravam um cartaz com os dizeres “foda-se, eu apoio o Bolsonaro”, bandeiras do Brasil e de Israel. A propaganda foi instalada em frente a uma farmácia no bairro Jardim Camburi, o mais populoso da capital capixaba.

Acontece que a publicidade fere pelo menos cinco artigos da regulamentação de 2008 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a propaganda de remédios. Segundo a norma, a infração sanitária é passível de multa.

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De acordo com a regulamentação do órgão, as informações sobre medicamentos devem ser comprovadas cientificamente e somente é permitida a propaganda de medicamentos regularizados. O que não acontece com a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina, que são utilizadas para combater a malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide.

Diversas pesquisas em todo o mundo alertam que, além de representar riscos para pacientes, não há benefício na droga para tratar a doença provocada pelo novo coronavírus. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu definitivamente, em junho, as pesquisas para avaliar a eficácia das drogas.

No entanto, Bolsonaro seguiu defendendo publicamente a droga. Após ter declarado e julho que testou positivo para a Covid-19, disse estar usando o medicamento e se “sentindo muito bem”.

A convocação para o “evento” foi feita por Assumção nas redes sociais. Em um vídeo, o parlamentar diz que a propaganda foi financiada por “patriotas”. Segundo o jornal Estadão, os auxiliares do parlamentar atribuem a ele a iniciativa.

Não foi detalhado quanto custou a peça publicitaria, tampouco o que motivou os apoiadores do presidente a criar o outdoor. A reportagem entrou em contato com a assessoria do deputado e com a Secretaria de Comunicação (Secom) pedindo informações sobre o caso, mas não teve resposta até a publicação.