Bolsonaro volta a responsabilizar ONGs por queimadas e ataca até ator de Hollywood

Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

Resumo da notícia

-Brigadistas do Pará foram presos pela acusação de terem iniciado incêndio na Amazônia; delegado que comandava inquérito foi trocado

-Bolsonaro utiliza caso como prova de seu argumento de que as ONGs são responsáveis por queimadas

Por Marcos Tordesilhas Freitas

O presidente Jair Bolsonaro atacou o ator Leonardo DiCaprio e ONGs relacionadas à preservação do meio ambiente em sua transmissão no Facebook nesta quinta-feira (28).

Bolsonaro fez referência à prisão preventiva de quatro membros de uma ONG local, a Brigada de Incêndio de Alter do Chão, após uma investigação da Polícia Civil do Pará. Eles foram detidos na terça (26), soltos pela Justiça nesta quinta e responderão ao caso em liberdade.

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Segundo o inquérito comandado pelo delegado José Humberto Melo Júnior, da polícia paraense, os quatro homens faziam imagens dos incêndios e revendiam para outras ONGs – o delegado disse que a WWF-Brasil comprou fotos das queimadas por R$ 70 mil que teriam sido usadas para obter doações internacionais. Melo Júnior citou no inquérito uma suposta doação de US$ 500 mil do ator Leonardo DiCaprio à ONG.

O delegado utilizou como provas contra os brigadistas vídeos publicados no YouTube de "um local onde estão só eles e o fogo está começando" e grampos de conversas entre os acusados, segundo a Folha de S.Paulo.

A WWF-Brasil negou ter recebido doação de Leonardo DiCaprio e afirmou que os R$ 70 mil repassados à ONG não estavam relacionados à compra de imagens e eram parte de uma parceria técnica em que a Brigada e outras ONGs locais pudessem usar equipamentos de combater ao fogo.

Após a prisão, o Ministério Público Federal em Santarém (PA) afirmou que, em sua investigação paralela sobre as queimadas, não há indícios de que brigadistas e ONGs estão entre os suspeitos. Segundo o MPF, que requisitou acesso ao inquérito da Polícia Civil paraense, o assédio dos grileiros, a ocupação desordenada da região e a especulação imobiliária estão entre os possíveis responsáveis pelo fogo.

Depois dos questionamentos, o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), determinou que o delegado que comandava o inquérito fosse trocado "para que tudo seja esclarecido da forma mais rápida e transparente possível". O governador colocou no comando da investigação o diretor da Delegacia Especializada em Meio Ambiente, Waldir Freire.

Nesta quinta, após a repercussão do caso, o mesmo juiz que ordenou a prisão preventiva dos quatro brigadistas determinou a soltura dos acusados, que responderão ao caso em liberdade.

"Leonardo DiCaprio, você tá colaborando com a queimada"

Apesar das dúvidas envolvendo o inquérito, ele foi tratado como verdade absoluta por Jair Bolsonaro na transmissão ao vivo nesta quinta. A narrativa coincide com a acusação que o presidente faz, desde o início da crise das queimadas, em agosto, de que as ONGs são responsáveis pelos incêndios. Ele nunca apresentou evidências dessa acusação. A Polícia Civil do Pará, por sua vez, iniciou sua investigação em setembro.

Na live desta quinta, Bolsonaro dialogou com o presidente da Embratur, Gilson Machado, sobre o caso. "Eu falei que suspeitava de ONGs e a imprensa passou três dias comendo meu fígado. Agora a casa caiu", disse Bolsonaro.

Machado, então, afirmou que "pegaram provas" dos homens "vendendo material fotográfico para uma ONG famosíssima do mundo” e que Leonardo DiCaprio "pagou US$ 500 mil pela fotografia de uma queimada fabricada por uma ONG".

Bolsonaro, na sequência, continuou com as acusações. "Uma ONG contratou R$ 70 mil por uma fotografia de queimada. O que eles fizeram? 'Taca fogo no mato'. Tira foto, filma, manda para a ONG, ela entra em contato com o Leonardo DiCaprio e ele doa US$ 500 mil dólares para o pessoal que está tacando fogo."

Em seguida, o presidente ironizou o ator, que é ativista do meio ambiente. "Leonardo DiCaprio, você tá colaborando com a queimada na Amazônia, assim não dá. Pisou na bola, pelo amor de Deus."

O presidente ainda citou "fotos que estão circulando" – "parece que são verdadeiras, não tenho certeza" – de que os quatro brigadistas "viviam numa luxúria de fazer inveja para qualquer trilionário e ganhando a vida tacando fogo na Amazônia", completou.

No fim, Bolsonaro fez uma recomendação. "Não doe dinheiro para ONG, acaba com essa história. Ela não está lá para preservar o meio ambiente, mas por interesse próprio", acusou.