Bolsonaro volta a criticar isolamento total e diz que governo não pode impedir ambulantes de trabalhar

Gustavo Maia
O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro questinou mais uma vez nesta quarta-feira o isolamento total adotado por estados e municípios, em resposta ao novo coronavírus, e afirmou que o governo não pode proibir alguém de vender "churrasquinho" e "biscoito na praia". As declarações foram dadas em entrevista por telefone, do Palácio do Planalto, ao jornalista José Luiz Datena, do Brasil Urgente, da Band.

— Como é que nós podemos proibir que essas pessoas se locomovam? Como é que você pode proibir que uma pessoa pegue e vá numa praça vender teu churrasquinho de gato? Ou vender o teu biscoito na praia? É isso que ele se referiu — argumentou ao citar as declarações, de segunda-feira, do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

— Alguns setores da imprensa falaram que eu omiti uma passagem dele. Não, não omiti nada. Ele mesmo disse que é da África, país pobre, e que cada país tem a sua realidade. O país que pode, por exemplo, pagar 2.500 libras para o teu desempregado, tudo bem. O Brasil nós fomos no limite aqui de R$ 600 por cada um dos aproximadamente 54 milhões que podem se beneficiar desse projeto nosso aqui, desse nosso abono, vamos assim dizer. E podemos resistir por três meses. Se passar disso, a nossa dívida vai ser enorme, e a gente começa a ficar preocupado como é que a economia pode se recuperar lá na frente. É essa a grande preocupação, esse foi o recado — afirmou.

Na sua explicação, no entanto, Bolsonaro repetiu que o diretor da OMS "falou que esse pessoal tem que trabalhar". Mas o que o dirigente da entidade manifestou foi a preocupação com pessoas isoladas em lugares mais pobres do mundo que têm que trabalhar diariamente para ganhar o "pão de cada dia". Ele cobrou ainda dos governos que adotem medidas para garantir a renda da população mais pobre com a crise do coronavírus.

Ao criticar o isolamento total, Bolsonaro sugeriu que quem tiver menos de 40 anos poderia se infectar agora com a Covid-19 para no futuro não transmitirem o vírus aos mais idosos. No meio de sua fala, o presidente comentou que, com a chegada do frio ao país, "vai morrer mais gente por haverá um pico de ida aos hospitais". E propôs uma solução:

— A garotada abaixo de 40 anos, a princípio, contraindo o vírus, não vai ter problema. Agora essa garotada, vamos supor, se infectando agora, ela seria uma barreira no futuro para não transmitir o vírus aos mais idosos. É uma conta que você bota na mesa e você vê que as medidas por parte de alguns governadores e alguns prefeitos foram excessivas porque atingiram a roda da economia — declarou.

Questionado se poderia tomar alguma medida contra algum Estado da Federação, depois de criticar chefes de Estado estaduais e municipais, Bolsonaro negou:

— Não existe uma hierarquia entre presidente da República, governadores e prefeitos. Não existe. Os governadores e os prefeitos têm uma liberdade para tomar providências. O que eu critico são alguns prefeitos, alguns governadores que ministraram uma dose de remédio excessiva, e isso acaba se transformando num veneno.

Citando "uma superexposição da mídia" que segundo ele deixou o pessoal "preocupado", Bolsonaro reiterou que "às vezes tem muita coisa no mundo que mata muito mais das consequências do pânico do que daquele mal em si".

— E a população não pode viver esse clima de pânico. Até porque o que a população tem que ser informada é que o vírus é igual a uma chuva, ele vem e você vai se molhar. Você não vai morrer afogado. Em alguns casos, lamentavelmente, haverá afogamento. Aquelas pessoas que, não é porque têm mais de 60 anos, é porque têm um problema a mais - disse o presidente.

Ele apontou ainda que pessoas que têm "uma imunidade pequena" são"mais fracas" e suscetíveis a sofrer mais com a doença. E citou quem vive na miséria ou pobreza extrema ao descrever a quem se referia:

— Quem são essas pessoas mais fracas? A pessoa às vezes vive na miséria, pobre ao extremo, então é fraca por natureza, vamos assim dizer, né?, dada a falta de uma alimentação mais adequada. Então essas pessoas é que sofrem mais com esse vírus que chegou, mas eu tenho certeza que vai embora um dia — comentou.

Questionado sobre o que provocou a mudança no tom de seu discurso e se mudou alguma coisa com relação ao que pensava sobre a doença, Bolsonaro disse que seu pronunciamento foi "totalmente" suas palavras, mas contou que colocou no papel o que queria transmitir e teve ajuda de pessoas do Planalto "que ajudaram a amenizar nas palavras".

— O objetivo é o mesmo. Se eu não me engano, eu falo nesse meu pronunciamento de ontem três vezes a palavra "emprego". Alguns falam "ah, o cara tá preocupado com o emprego e não com a vida". Agora um país de desempregados, de pobres, a quantidade de pessoas que vêm a morrer por falta de renda, de alimentação, entre outras coisas, é enorme. É muito maior do que a própria doença em si. Então, com outras palavras ontem, eu basicamente dei esse recado.

Sobre sua posição no pronunciamento da terça-feira, Bolsonaro foi enfático, e citou repercussões econômicas do isolamento adotado por governadores, como o do Rio Grande do Sul:

— Eu não mudei nada. Ele mudou. Agora eu, sim, reconheço a você que suavizei nas palavras. Mas quem pegar e prestar atenção em cada frase nossa continuamos dando o recado: se o Brasil continuar dessa forma, desse isolamento horizontal, como se eu não me engano o Rio Grande do Sul anunciou mais 30 dias. Eu não vou criticar o governador, agora será que a população aguenta mais 30 dias sem trabalhar? Porque o elemento, o empresário, o comerciante, vai ter que demitir, porque não está vendendo, vai ter que demitir — afirmou.