Bolsonaro volta a minimizar coronavírus: 'em alguns poucos casos pode levar a óbito'

Gustavo Maia e Leandro Prazeres
PA Brasília (BSB) 18/03/2020 Usando uma máscara durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro anunciou na tarde desta quarta-feira que o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, contraiu o novo coronavírus. Além dos ministros, como o da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Economia, Paulo Guedes, o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres também se sentou à mesa ao lado de Bolsonaro. . Foto Pablo Jacob / Agencia O Globo

BRASÍLIA — Um dia depois de reconhecer pela primeira vez a gravidade do avanço da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro voltou a minimizar os efeitos da doença em transmissão ao vivo pelo Facebook na noite desta quinta-feira.

De máscara, ao lado de uma intérprete de libras, ele começou a live combinando com ela —aparentemente sem saber que já estava no ar— o que seria um recado à imprensa por conta da declaração de dois dias atrás de que "vai ter uma festinha tradicional" no Palácio da Alvorada, no próximo sábado, seu aniversário.

— Eu vou falar "você foi convidada?", você fala "não", tá? Pro meu aniversário... e é verdade, ninguém tá mentindo aqui. Tá valendo aí? Brasília, 19 de março, 19h. Daqui a dois dias vai ter uma festa aqui em casa. Atenção, imprensa, vai ter uma festa aqui em casa, meu aniversário. Eu, a minha esposa e as duas filhas. Ou será que eu tô proibido de fazer essa festinha aqui em casa? Sempre foi assim, nunca tive comemoração de aniversário, não é porque eu não tive oportunidade, é porque eu não gosto mesmo, tá? Mas tudo bem... — declarou.

Em seguida, ele contou ter recebido a notícia de que o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Sergio Segovia, foi diagnosticado com o Covid-19, e fez questão de dizer que ele lhe disse que não está sentindo nada.

— Tudo normal a vida dele. Ele deve ter os seus 55 anos de idade, um pouquinho menos — comentou.

Em seguida, Bolsonaro relatou conversas com dois minitros infectados com o novo coronavírus, Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), e Bento Albuquerque (Minas e Energia). Com 72 e 61 anos de idade, respectivamente, ambos fazem parte do grupo de risco para a doença. Segundo o presidente, Heleno disse estar assintomático e que tinha acabado de "fazer 50 minutos de bicicleta". Já Albuquerque, também em isolamento domiciliar, teria falado apenas que sentia "vontade de trabalhar".

— Logicamente, para essas pessoas, se não tivessem feito o teste, estariam trabalhando, transmitindo o vírus para alguém, obviamente, mas não estariam sabendo que estavam fazendo essa transmissão do vírus. Para algumas pessoas, mais idosas, que têm outros problemas, a infecção torna-se grave. E, realmente, em alguns poucos casos pode levar a óbito — afirmou o presidente.

Ele continuou reiterando a preocupação do governo com o Covid-19, mas logo aproveitou para fazer propaganda da entrevista que concedeu nesta quinta para o Programa do Ratinho, do SBT:

— Então a preocupação do governo existe, mas eu quero dizer a vocês o seguinte, que amanhã, às 22h30, no SBT, eu gravei uma entrevista de um pouco mais de uma hora para o Ratinho. Então falei muita coisa que vai ao ar amanhã, então não vou entrar em muito detalhe sobre a questão do coronavírus, até porque, amanhã, se Deus quiser, vai estar ali no Programa do Ratinho.

Referindo-se ao fechamento de fronteiras do Brasil com oito países, ele comentou que essa é uma medida que ajuda "a prevenir um pouco da entrada de pessoas possivelmente infectadas no Brasil". Na sequência, fez uma ponderação sobre a eficácia da iniciativa.

— Se bem que o trabalho de todos os países no momento é alongar a curva da infecção, porque se for muito rápida, não temos meio de atendê-los, com hospitais, com equipamentos e com UTIs. Se bem que é uma pequena parcela da população que estará sujeita a isso. Mais da metade, adquire o vírus e nem fica sabendo. Dessa outra metade que sobra, quase 80 e poucos por cento, segundo dados estatísticos aí, vão ter algum tipo de sintoma. E apenas em torno de 5%, e assim mesmo, um percentual menor disso, depois, em cima disso, que pega os mais idosos, que vai ter algum problema mais grave — declarou.

— Mas obviamente estamos tomando as medidas todas cabíveis. O meu trabalho é não levar pânico à população brasileira — complementou o presidente.

Ao fim, Bolsonaro lamentou a sétima morte contabilizada no Brasil após a chegada do Covid-19 e apontou que pedirá nesta sexta ao Ministério da Saúde que todos os óbitos registrados em decorrência do novo coronavírus sejam disponibilizados com a idade da pessoa e se a vítima sofria de algum problema prévio.

— Obviamente, em sendo infectado, até que ponto o vírus influenciou nesse óbito ou essa pessoa já estava numa situação bastante complicada pela idade avançada e também por problemas de saúde — afirmou.