Bolsonaro x Rodrigo Maia: o que está por trás da guerra contra a “velha política”?

Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Foto: Agência Brasil

De duas, uma. Ou Jair Bolsonaro é um paraquedista que levou a sério demais a ideia de virar presidente e agora não sabe o que fazer com a geringonça ou a guerra declarada contra o Congresso e a “velha política” é parte de uma estratégia mais sofisticada do que gostariam as pipocas e os memes de seus opositores.

Se for a segunda opção, Bolsonaro e seu grupo já perceberam as consequências do tombo na popularidade do governo apontado na semana passada pelo Ibope (de 49% para 34% em menos de três meses).

O levantamento foi publicado no momento em que o índice de sentimento em relação ao governo nas redes sociais monitorado startup Arquimedes, especializada no assunto, começa a se deteriorar.

Conforme noticiou a colunista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, a empresa captou mau humor em relação ao governo após notícias como a liberação de R$ 1 bilhão em emendas para congressistas, os ataques de Bolsonaro a uma jornalista, a prisão de milicianos acusados de matar Marielle Franco e – principalmente – a proposta de previdência dos miliares.

Menos de três meses após assumir prometendo mudar “tudo isso que está aí”, Bolsonaro agora precisa do Congresso para aprovar as reformas, mas, segundo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, está “terceirizando” as articulações.

Bolsonaro respondeu dizendo que divergências acontecem porque alguns não querem largar a “velha política”. No auge da tensão, Rodrigo Maia aconselhou o presidente a sair do Twitter e se dedicar mais às reformas.

Parece briga de rua”, definiu o vice-presidente, Hamiton Mourão.

A artilharia contra a “velha política”, sem exatamente deixar claro qual é a nova (feat. Rodrigo Maia), acontece justamente no contexto em que, com a popularidade em queda, Bolsonaro corre o risco de ser visto como um político “comum” – desses que negociam com o Congresso, cedem espaço no governo, discutem emendas, queima sola de sapato, promove reuniões com os pares, convence e ouve contrapontos sem qualquer imunidade mitológica a suspeitas de corrupção. Vide o laranjal do PSL, seu partido.

O problema é que, no Brasil pós-Lava Jato, política se tornou palavrão e presidencialismo de coalizão virou sinônimo de encrenca. A ojeriza é compartilhada por quem confunde coalizão com má coalizão.

Bolsonaro, após um breve ensaio de conciliação após a eleição nas duas Casas parlamentares, opta agora pela colisão (com o perdão do trocadilho).

E por quê? Porque foi a retórica antissistema que o levou até onde está e é ali que reside a sua força.

O pesselista foi eleito após anos de desgaste e esgarçamento da classe política, sobretudo com o avanço da Lava Jato. Usou como base um discurso disruptivo de quem não prevê o dilúvio após seu reinado, mas a própria dependência do dilúvio.

Quem diz isso não sou eu, mas o próprio presidente, que em jantar nos EUA, na semana passada, disse que antes de começar a construir precisa destruir muita coisa em seu país. (Não conheço maior confissão de ausência de projetos, mas segue o baile).

Mais ou menos como aconteceu com Lula, eleito para ser um contraponto à conciliação entre elite econômica e velhas oligarquias e que no fim governou – e foi engolido – pelo velho PMDB, Bolsonaro nada ganha ao se apresentar como “mais um” – pelo contrário, ele se dissolve quando sua retórica belicista se mimetize e se acomoda ao ambiente político de Brasília no qual sobreviveu por 30 anos como outsider.

Aqui é preciso entender a influência de Olavo de Carvalho na arquitetura da destruição.

Como escreveu Demétrio Magnoli, também na Folha de S.Paulo, ao comentar os ataques do incendiário guru bolsonarista contra o próprio governo, “o líder que não pretende ser desmascarado pela inevitável falência de sua ‘revolução’ precisa identificar e denunciar, previamente, os traidores da causa. Daí, o recurso à ‘revolução permanente’: o líder dispara contra a revolução que inspirou”.

A consequência dessa “revolução permanente”, continua Magnoli, é a perene ingovernabilidade. “O governo carece da coesão, da autoridade e da força persuasiva para formar maiorias parlamentares sólidas. O projeto da reforma previdenciária, ato inaugural da ‘revolução’ de Paulo (Guedes, superministro da Economia), corre o risco de ser tragado no vórtice da ‘revolução’ de Olavo”.

Em outras palavras: ou Bolsonaro governa ou mantém a figura do mito que sobreviveu e foi eleito para abalar as estruturas. Para colocar exatamente o que no lugar ainda ninguém sabe. Talvez nem o capitão.

Como resumiu o jornalista João Carlos Magalhães, o governo está azedando e pode até mudar de rumo; o problema é que ninguém sabe o que Bolsonaro e sua trupe, muitos deles sedentos por guerra, vai fazer quando a democracia parar de sorrir pra eles.