Bolsonaro x Urnas eletrônicas: A saga do presidente contra o sistema que o elegeu

Presidente Jair Bolsonaro indo votar na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 2022 (Foto: Agência Anadolu via Getty Images / Fabio Teixeira)
Presidente Jair Bolsonaro indo votar na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 2022 (Foto: Agência Anadolu via Getty Images / Fabio Teixeira)

Em um Brasil onde o questionamento à credibilidade das urnas eletrônicas não parecia um problema a ser combatido, um deputado federal do baixo clero no início de uma corrida presidencial já dava os primeiros sinais da batalha que travaria alguns anos depois:

Quem caiu de paraquedas na política brasileira de 2022 ou aqueles que apenas acompanham fatos esparsos podem até pensar que a luta de Jair Bolsonaro (PL) contra o sistema eleitoral é recente. Essa guerra, porém, começou em 2015, quando ainda era deputado federal. Naquele ano, Bolsonaro emplacou uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) para implementar a impressão de comprovante de votação. O projeto, contudo, não chegou a passar pelo Senado.

Como um pequeno conflito que se não resolvido no começo e da maneira correta pode se transformar em uma enorme batalha, o ataque de Bolsonaro ao processo eleitoral brasileiro já havia revelado o seu caráter sistemático nas eleições de 2018. Anos depois, o problema ganharia outra dimensão.

No Facebook, menções a termos como "fraude" e "fraudadas" cresceram na última semana. Na segunda-feira (3) passada, foram feitas cerca de nove mil publicações com mais de 390 mil interações. Uma semana antes (26), foram pouco mais de três mil publicações com quase 137 mil interações, segundo dados do CrowdTangle, ferramenta de monitoramento de conteúdos nas redes sociais.

Os mesmos termos apareceram mais de 15 mil vezes em grupos bolsonaristas no Telegram e no WhatsApp, segundo um levantamento do Observador da Folha de S. Paulo e da Quaest. Sem provas, usuários afirmam que o resultado da votação do último domingo (2) teria sido fraudado.

2018: Um ensaio para 2022

Em uma transmissão ao vivo, em 16 de agosto de 2018, o então candidato ao Planalto revelou uma teoria da conspiração sobre as eleições daquele ano. Apesar de retirado do ar no Facebook por conta de uma decisão judicial, a transmissão segue disponível em seu canal oficial no YouTube. Na gravação, Bolsonaro narra sua saga na aprovação do voto impresso e lamenta a derrubada do projeto, afirmando – sem provas nem indícios – que essa seria a única garantia contra uma fraude eleitoral que estaria supostamente sendo arquitetada.

Ele se valeu de um discurso bastante semelhante ao utilizado em 2022: "Não podemos deixar de esquecer que em 2014, em Quito [...] Dilma Rousseff, dentre outras medidas, decidiu criar uma unidade técnica regional sul americana. O PT descobriu o caminho para o poder, o voto eletrônico". Na época, a informação foi checada e considerada insustentável pelo Aos Fatos, já que não houve qualquer caso de fraudes em urnas eletrônicas envolvendo a unidade técnica da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que foi, na verdade, criada em 2012 para observação independente das eleições do continente.

Ainda no hospital – se recuperando da facada sofrida em Juiz de Fora (MG) –, ele completou: "A grande preocupação realmente não é perder no voto, é perder na fraude, então essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez até no primeiro, é concreta".

Eleito cinco vezes deputado federal pelo sistema eletrônico, ele voltaria a desacreditar o modelo em, ao menos, oito oportunidades entre 2018 e 2019:

Made with Flourish
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De acordo com uma análise feita por Luigi Mazza para a Revista Piauí, entre 2019 e setembro de 2022, o presidente atacou o sistema eleitoral em, pelo menos, 35 de suas 181 lives semanais. O conteúdo somava mais de 39 milhões de visualizações no Facebook e no YouTube até setembro deste ano.

Conexão Brasil - Estados Unidos

President Donald Trump and visiting Brazilian President Jair Bolsonaro speak during a news conference in the Rose Garden of the White House, Tuesday, March 19, 2019, in Washington. (AP Photo/Manuel Balce Ceneta)
President Donald Trump and visiting Brazilian President Jair Bolsonaro speak during a news conference in the Rose Garden of the White House, Tuesday, March 19, 2019, in Washington. (AP Photo/Manuel Balce Ceneta)

Marcado pelas eleições municipais no Brasil e pela disputa presidencial dos Estados Unidos, o ano de 2020 também foi marcado por diversos ataques de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas. Seguindo os passos do agora ex-presidente dos EUA, Donald Trump, o mandatário brasileiro embarcou no clima conspiratório contra o sistema eleitoral estadunidense e aproveitou para descredibilizar o brasileiro.

Em março daquele ano, Bolsonaro afirmou em um evento em Miami, nos EUA, que a eleição de 2018 – na qual ele foi eleito ao Planalto – foi fraudada: "Acredito pelas provas que tenho em minhas mãos, e vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno. Mas, no meu entender, houve fraude". Em novembro, o mandatário voltou a falar sobre a suposta fraude que teria desviado votos em 2018.

"Na minha eleição, em 2018, só entendo que fui eleito porque tive muitos votos. Tinha reclamações que o carinha votava no 17 e não conseguia votar, mas votava no 13. Vão querer que eu prove, é sempre assim, mas o que acontecia em muitas seções: colocavam um pingo de cola na tecla 7 e a pessoa não votava no 17", declarou ele em 29 de novembro após votar no segundo turno das eleições municipais. Boatos semelhantes circularam nas redes sociais e foram desmentidos pelo TSE.

Naquele novembro de 2020, dias antes, o presidente fez declarações favoráveis à impressão do voto e contrárias ao atual sistema eletrônico. No dia 16, por exemplo, ele afirmou que "falta no Brasil uma forma de auditar os votos, para ter certeza de que quem você votou recebeu aquele voto". Entre 2020 e 2022, ele repetiria, pelo menos, 33 vezes essa informação falsa, de acordo com levantamento do Aos Fatos.

Em 12 de dezembro de 2020, o presidente chegou a ameaçar a realização do pleito de 2022. "Se a gente não tiver o voto impresso, pode esquecer a eleição", disparou a apoiadores em um encontro em ​​São Francisco do Sul (SC) transmitido em seu perfil oficial no Facebook.

Ainda explorando a situação ocorrida nos Estados Unidos, o presidente brasileiro afirmou em janeiro de 2021 que caso o voto impresso não fosse adotado no Brasil em 2022, teríamos "problema pior que os Estados Unidos" em referência à invasão ao Congresso estadunidense por apoiadores de Trump.

Fraudes sem provas

Em 2021, Jair Bolsonaro voltaria a atacar o sistema eletrônico de votação, ao menos, mais 25 vezes. Foram diversas declarações dadas aos seus apoiadores, à imprensa, feitas em suas lives semanais e em publicações nas redes sociais.

Além de teorias já repetidas desde 2018, como a de que ele teria sido vítima de uma fraude eleitoral naquele ano, o presidente contou mentiras sobre o funcionamento das urnas, da apuração dos votos e sobre pleitos anteriores, por exemplo.

Em uma live realizada em 29 de julho de 2021, após meses prometendo apresentar provas sobre a suposta fraude nas urnas, o presidente admitiu não ter como comprovar as suas alegações: "Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas". Ainda assim, ele insistiu em apresentar pretensos indícios, retirados de boatos que circulam pela internet.

Uma das teorias citadas por ele havia sido apresentada em um vídeo produzido por Naomi Yamaguchi, eleita deputada federal em 2018 pelo PSL. Na gravação, é apresentada uma análise matemática sobre a apuração minuto a minuto do segundo turno de 2014, que comprovaria uma manipulação que hipoteticamente favoreceria a vitória Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB). Seguindo a teoria, Bolsonaro afirmou que teria sido identificado um padrão nas curvas de evolução dos votos de Aécio e Dilma. Contudo, as afirmações são falsas, conforme demonstrado pelo TSE e pela BBC News Brasil.

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Eleições, só se forem "limpas"

Neste ano de 2022, Bolsonaro manteve de pé a desconfiança contra o sistema eletrônico de votação. Em fevereiro, ele falou sobre "possíveis vulnerabilidades" das urnas e do sistema eleitoral, o que se provou falso ao longo do ano por meio dos diversos testes realizados nos equipamentos e programas. Em maio, em uma coletiva de imprensa, quando questionado se aceitaria o resultado das eleições caso fosse derrotado, ele desviou: "Democraticamente eu espero eleições limpas".

Outro tópico recorrente foi sobre a modernização dos equipamentos de votação. O presidente afirmou em 7 de julho deste ano, em uma transmissão ao vivo em seu canal no YouTube, que as urnas eletrônicas não se modernizaram. "Tem um videozinho na internet mostrando certos aparelhos, como o telefone, como era 96 e como é em 2022 [...], a única coisa que não mudou foi a urna eletrônica".

Em um discurso para médicos na sede do CFM (Conselho Federal de Medicina), o mandatário voltou a insistir na alegação. As informações viralizaram nas redes sociais dias depois, mas, conforme explicado pelo Yahoo! Notícias, o Brasil não adota mais os modelos de urnas utilizados entre 1996 e 2008.

Ainda em julho, no dia 18, o presidente chegou a repetir informações comprovadamente falsas sobre os sistema eleitoral a embaixadores em uma reunião no Palácio do Planalto. "Segundo o TSE, os hackers ficaram por oito meses dentro do computador do TSE [em 2018], com código-fonte, senhas, muito à vontade dentro do TSE. E [a Polícia Federal] diz, ao longo do inquérito, que eles poderiam alterar nome de candidatos, tirar voto de um e mandar para o outro", alegou. Em agosto, ele voltou a falar sobre o ataque hacker que, ao contrário de suas afirmações, não afetou o resultado do pleito.

Embora o presidente tenha diminuído o número de ataques com a aproximação das eleições, às vésperas do 2 de outubro, ele afirmou em, ao menos, duas oportunidades que deveria ganhar no primeiro turno, ao contrário do que previam as pesquisas eleitorais. Em uma entrevista ao SBT, o presidente afirmou: "Se nós não ganharmos no primeiro turno, é porque algo de anormal aconteceu dentro do TSE". Em uma live um dia antes da eleição, ele desafiou: "A gente não consegue ver outro resultado de que as eleições sejam decididas amanhã com 60%". O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou na primeira posição com 48,43%, enquanto o presidente Jair Bolsonaro obteve 43,2%.

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