Bombardeio dos EUA mata importante general iraniano em Bagdá

Por Sarah BENHAIDA
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General Qassem Soleimani, em 1º de outubro de 2019, em Teerã

O enviado do Irã para assuntos iraquianos, o poderoso general Qasem Soleimani, e um comandante pró-Irã morreram nesta sexta-feira em um bombardeio americano em Bagdá, o que provocou pedidos de vingança da República Islâmica e aumentou os temores de um conflito aberto entre Washington e Teerã.

O general Soleimani era responsável pelas questões iraquianas no exército ideológico do Irã, enquanto Abu Mehdi al Muhandis, que tinha dupla cidadania iraquiana e iraniana, era o número dois das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al Shaabi, uma coalizão de paramilitares majoritariamente pró-Teerã integrados ao Estado iraquiano.

Pouco depois de suas mortes, o Pentágono anunciou que o presidente americano, Donald Trump, deu a ordem para "matar" Soleimani.

"Esta é a maior operação de decapitação já realizada pelos Estados Unidos, maior que as que mataram Abu Bakr al Bagdadi ou Osama bin Laden", líderes do Estado Islâmico (EI) e da Al-Qaeda respectivamente, afirmou Phillip Smyth, analista americano especializado em grupos armados xiitas.

"Não há nenhuma dúvida de que a grande nação do Irã e outras nações livres da região se vingarão por este crime horrível dos criminosos Estados Unidos", afirmou o presidente iraniano, Hassan Rohani.

Para o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamad Javad Zarif, esta é uma "escalada extremamente perigosa e imprudente". A diplomacia iraniana convocou o embaixador da Suíça, que representa os interesses dos Estados Unidos em Teerã.

- "Guerra devastadora no Iraque" -

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, afirmou que o ataque vai "desencadear uma guerra devastadora no Iraque", ao mesmo tempo que o influente líder xiita iraquiano Moqtada Sadr anunciou a reativação de sua milícia anti-EUA, o Exército de Mehdi, e ordenou que seus combatentes fiquem preparados.

Há vários anos o Iraque se encontra no meio do fogo cruzado entre seus dois grandes aliados: Estados Unidos e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar as questões iraquianas. Mas Teerã e o movimento pró-Irã se infiltraram no sistema aplicado pelos americanos.

As forças pró-Teerã acumularam um arsenal graças ao Irã, mas também ao longo de anos de combate junto com os americanos, em particular contra o Estado Islâmico. O movimento atacou a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá na terça-feira.

Nesta sexta-feira, Washington respondeu à ação contra a embaixada, que fica no centro da ultraprotegida Zona Verde de Bagdá, assim como a semanas de ataques com foguetes contra seus diplomatas e soldados.

Os ataques foram atribuídos pelo governo dos Estados Unidos aos combatentes pró-Irã no Iraque, mas nunca foram reivindicados.

"Os serviços de inteligência americanos seguiam Qasem (Soleimani) há muitos anos, mas nunca apertaram o gatilho. Ele sabia, mas não calculou até que ponto suas ameaças de criar outra crise de reféns na embaixada (em Bagdá) mudaria as coisas", explicou à AFP Ramzy Mardini, do 'Institut of Peace', recordando o trauma provocado nos Estados Unidos pela tomada de reféns na representação diplomática americana em Teerã em 1979.

"Trump mudou as regras ao eliminá-lo", disse.

- "Ordem de matar" -

O bombardeio americano teve como alvo um comboio de veículos dentro do perímetro do aeroporto de Bagdá e matou pelo menos nove pessoas, de acordo com fontes das forças de segurança iraquianas.

Além do general Soleimani, a outra figura importante que morreu no ataque foi Abu Mehdi al Muhandis, líder operacional da Hashd al Shaabi e auxiliar do general no Iraque. Os dois serão enterrados no sábado. Iraque e Irã decretaram três dias de luto.

"Sob as ordens do presidente, o exército americano adotou medidas defensivas decisivas para proteger o pessoal americano no exterior ao matar Qasem Soleimani", afirmou o Departamento de Defesa dos Estados Unidos em um comunicado.

Minutos antes, Trump havia tuitado uma bandeira americana.

Mas as consequências do assassinato seletivo de uma das figuras mais populares do Irã provocaram preocupação entre os congressistas, a menos de um ano das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

O Congresso americano não foi informado com antecedências sobre o ataque.

Este bombardeio ameaça provocar "uma perigosa escalada da violência", advertiu a presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi.

A notícia do ataque provocou uma alta de 4% dos preços do petróleo na Ásia.

O petróleo iraniano está submetido a sanções americanas e a crescente influência de Teerã no Iraque, o segundo maior produtor da Opep, gera o temor entre os especialistas de um isolamento diplomático e de sanções políticas e econômicas.

A embaixada dos Estados Unidos em Bagdá recomendou a seus cidadãos que deixem o Iraque "imediatamente".

As mortes desta sexta-feira aumentam o temor citado por vários analistas há alguns meses: que o território do Iraque se transforme em um campo de batalha indireto para Irã e Estados Unidos.

Após o bombardeio, um comandante da Hashd pediu a todos os combatentes que "estejam preparados".

Na praça Tahrir de Bagdá, epicentro dos protestos contra o governo e seu aliado Irã que abalam o país há mais de três meses, dezenas de iraquianos celebraram a morte do general Soleimani. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, compartilhou um vídeo no Twitter de pessoas "dançando pela liberdade".