Três anos depois, herói de atentado na Tunísia só pensa em fugir

Natalia Román Morte

Túnis, 19 mar (EFE).- Três anos depois do atentado que matou 22 turistas estrangeiros e deu início a uma onda de ataques jihadistas na Tunísia, Aladin Hamdi, conhecido como "o herói do Bardo" por ter ajudado no resgate de reféns em um museu, se sente marginalizado, ameaçado e tem vontade de fugir.

Desprezado pelo governo, que não cumpriu a promessa de melhoria de contrato feita dias depois da história que o transformou em estrela midiática, Hamdi também é ameaçado pelos jihadistas por "ajudar os infiéis" e pretende emigrar à Europa como solução.

"Quando ouvi gritos e tiros de longe, tinha certeza que os terroristas não vinham por nossa causa, mas pelo parlamento", relembrou Hamdi, guia no Museu Nacional do Bardo, durante uma entrevista à Agência Efe sobre os fatos daquele dia 18 de março.

"Depois, o barulho se intensificou, os sons dos disparos eram mais fortes e ouvi a voz de alguém chorando. Abri a porta devagar e era um homem de aproximadamente 50 anos, um estrangeiro, que estava coberto de sangue", relatou.

Aquele homem o contou sobre o nível da tragédia e não buscava refúgio, apenas ajuda para salvar a esposa, que estava no andar de baixo.

"Um amigo e eu fomos com ele e a vimos de longe, estava ferida no corredor entre duas salas. Eu disse para nos escondermos enquanto esperávamos a polícia. Mas ele soltou a minha mão e começou a correr dizendo que queria morrer junto a ela", afirmou.

"Um momento depois, saí da sala e encontrei a Brigada Antiterrorista, que apontou a arma para mim, até que mostrei a eles minha identificação do museu. Falei onde estavam as pessoas escondidas e todos foram evacuados, mas eu fiquei para dizer onde estavam os terroristas", acrescentou.

Hamdi também guiou os agentes pelos corredores do museu, que o parabenizaram pela atitude, mas ao término de tudo o algemaram com diversas outras pessoas para que fossem interrogados em uma delegacia.

"Ele nos agrediram, pediram para tirarmos os cadarços dos sapatos e os cintos e nos colocaram em uma pequena cela com 30 ou 40 salafistas. Tínhamos medo e ficamos em um cantinho sentados no chão, sem água, nem nada. Quando voltei para casa, minha mãe tinha acabado de voltar do hospital e quase enfartou porque não sabia nada de mim, não foi comunicada e não sabia se eu estava vivo ou morto", contou.

A partir daí, começaram a fama - foi até entrevistado por canais de televisão - e o pesadelo. Morador do bairro de Cité Ettadhamen, reduto salafista em Túnis, teve que deixar a família porque na rua os fanáticos ameaçavam cortar sua cabeça: "porque eu tinha participado da morte de nossos irmãos muçulmanos e salvado os infiéis", disse.

A polícia também seguia seus passos e acompanhava as declarações dadas a meios de comunicação locais e estrangeiros, aos quais relatou diversas falhas de segurança no museu.

"Sempre que eu preparava meus documentos para fugir, a polícia vinha à minha casa e me perguntava por que não acreditava no Ministério do Interior e questionava a Segurança Nacional. Me levavam à delegacia, me deixavam lá por 24 horas e depois me liberavam", denunciou.

"A segurança no museu melhorou, não se pode negar. Mas poderiam ter evitado o atentado. Me acusaram de atentar contra a imagem do Instituto Nacional de Patrimônio, atentar contra o pudor e não respeitar a hierarquia. De fraude aos turistas, roubo e venda (ilegal) de folhetos turísticos", desabafou, ao reconhecer que a sinceridade o prejudicou.

Situação similar de assédio e abandono também é vivida por outros protagonistas involuntários daqueles incidentes, como "uma companheira que teve um acidente quando os turistas tentavam escapar e a atropelaram".

"Hoje o seu corpo está destroçado, está imóvel, abandonada em um canto e não recebe nenhum salário. Ninguém deu atenção a nenhum desses companheiros", ressaltou Hamdi, que hoje trabalha em uma empresa contratada pelo Instituto Nacional de Patrimônio que se encarrega da segurança em um pequeno museu.

"Sem contrato, sem seguridade social e sem salário fixo, costumam me pagar 500 dinares (cerca de R$ 660) a cada dois ou três meses" comentou, acrescentando que por isso também trabalha na construção para tentar economizar e fugir.

"Tentei me enganar, mas a única solução é emigrar, não importa para onde", confessou o jovem, de 25 anos. EFE