Bombeiros mantêm buscas por sobreviventes em Brumadinho

Por Pascale TROUILLAUD, Douglas MAGNO
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Helicóptero dos bombeiros sobrevoa a área afetada pela enxurrada de lama provocada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, 25 de janeiro de 2019

Apesar da chuva, os bombeiros continuavam as buscas por sobreviventes em Brumadinho, neste sábado (26), onde na sexta-feira o rompimento de uma barragem de contenção de resíduos da Vale deixou, até o momento, 34 mortos e cerca de 300 desaparecidos.

"São 34 corpos retirados dos resíduos", informou o Corpo de Bombeiros do estado de Minas Gerais, atualizando o balanço anterior de 11 mortos, enquanto o número de desaparecidos permanece em 296.

Segundo as autoridades, praticamente todos os desaparecidos são funcionários, ou trabalhadores terceirizados, da Vale. Das 170 pessoas resgatadas, 23 foram hospitalizadas.

A catástrofe aconteceu por volta das 15h de sexta-feira no município de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, e sepultou boa parte das instalações do complexo mineiro Córrego do Feijão, da mineradora Vale.

O desespero toma conta de quem não sabe o paradeiro de familiares e de amigos.

"Tinha gente aqui, casas. Estou arrasada com essa tragédia", disse à AFP Rosilene Aganetti, de 57 anos, apontando para o rio de lama que corre em uma região vizinha.

Imagens aéreas mostram casas destruídas, animais enlameados e veículos cobertos pela maré marrom, que também toma conta da vegetação nesta área.

Na sexta à noite, o governador do estado, Romeu Zema, afirmou que as chances de encontrar sobreviventes eram "mínimas", mas o Corpo de Bombeiros informou que três pessoas foram encontradas com vida e que "há chance de encontrar mais".

Os trabalhos de busca devem se estender durante semanas, "para que possamos dar notícias a todas as famílias dos desaparecidos", declarou o comandante do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, coronel Edgard Evesto.

O dia amanheceu com sol em Brumadinho, uma localidade de 39 mil habitantes, mas durante a tarde houve pancadas de chuvas que podem atrapalhar as buscas.

- Vale na mira -

"Faremos o que estiver ao nosso alcance para atender as vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias como a de Mariana e Brumadinho", tuitou o presidente Jair Bolsonaro, que sobrevoou a região de helicóptero na manhã deste sábado.

Em um tuíte posterior, Bolsonaro disse que aceitou a ajuda tecnológica oferecida pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, "para a busca de desaparecidos". Ambos estreitaram laços recentemente.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, manifestou suas condolências "às vítimas e ao governo do Brasil" e disse que a organização está pronta para ajudar "nas ações de emergência".

Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, a 125 km de Brumadinho, deixou 19 mortos e provocou uma enxurrada de resíduos que contaminou terras e rios ao longo do rio Doce em Minas Gerais e no Espírito Santo, até chegar ao mar.

Aquela barragem pertencia à Samarco, empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP-Billiton.

O governo anunciou neste sábado a aplicação de uma primeira multa de R$ 250 milhões à Vale por crimes ambientais.

A secretaria estadual do Meio Ambiente também prepara outra multa, e a Justiça de Minas Gerais decretou o bloqueio de R$ 1 bilhão da Vale para ressarcir as vítimas.

Também decretou a quebra do sigilo telefônico dos funcionários da Vale desaparecidos para facilitar sua localização.

Segundo o presidente da Vale, Fábio Schvartsman, a represa não era usada há três anos e era verificada regularmente.

A tragédia provocou duras críticas de organizações ambientalistas, como Greenpeace e SOS Mata Atlântica, de líderes políticos e de especialistas em gestão de riscos.

"É incrível: três anos e dois meses depois de Mariana, outro acidente na mesma região e com as mesmas características. Podemos dizer que não houve nenhum avanço com relação às medidas de governo, nem às práticas empresariais", disse à AFP o diretor de campanha do Greenpeace Brasil, Nilo d'Ávila.

"Que a tragédia de Brumadinho abra os olhos do governo. Meio ambiente não é zoeira de esquerda: é respeito à vida das pessoas e do planeta. O Governo deve regular e fiscalizar com mais energia sem demonizar quem disso se ocupa", tuitou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.