Bondinho faz 110 anos e ganha de presente música de Menescal, mais diversidade na sua operação e promessa de tirolesa radical

Formada em serviço social, Anna Caroline Boyd, de 39 anos, tinha pânico de altura até ir trabalhar no bondinho do Pão de Açúcar. Primeiro, nas estações, recebendo público. Só que, há um ano, ela se tornou operadora no teleférico: a única mulher na função dentro de uma equipe de 40. Acabou virando atração entre os visitantes, por seu pioneirismo. São cem viagens subindo e descendo nas duas linhas por dia. Nos seus 110 anos, completados hoje, o teleférico - o segundo ponto turístico mais visitado do país, perdendo somente para o Cristo Redentor - passa por uma renovação, buscando maior diversidade nos seus quadros e público e também o máximo de sustentabilidade. Em 2022, o bondinho conseguiu zerar suas emissões de carbono e ganhou uma nova marca - a Parque Bondinho Pão de Açúcar -, além do lema "felicidade lá em cima". De presente, ainda recebeu uma canção de Roberto Menescal, Cris Delanno e Alex Moreira, chamada "O bondinho" e com a cara da Bossa Nova.

Menescal e Cris Dellano apresentarão a música, pela primeira vez, hoje, ao vivo, para o público no local, numa programação que começa às 10h. Diz um trecho: "Vamos seguir viagem/nesse caminho que não tem fim/Para olhar em volta/e ver o Rio tão lindo assim". As comemorações incluem hoje entrada gratuita para os aniversariantes do dia e distribuição de bolo, que será embalada pelo DJ Tommax, das 16h às 19h, no Mirante Maria Ercília.

Para Anna Caroline Boyd, o maior presente que o bondinho lhe oferece é conhecer o mundo viajando pelo céu do Rio. Ela derramou lágrimas e muito suor para conquistar o posto de operadora. Nos testes e treinamentos, enfrentou idas e vindas do lado de fora do bonde, em cima do truck - ligado aos cabos, carrega componentes dos sistemas de freio e segurança.

- Há três anos, participei de uma seleção no bondinho e passei a trabalhar recepcionando as pessoas nas estações. Eles queriam contratar uma mulher, mas no começo eu não sabia disso - recorda ela. - Tempos depois, tive a oportunidade de fazer o curso de operação do teleférico e consegui passar. Foi uma comoção geral entre funcionários e guias de turismo. A empresa mudou bastante, e hoje é muito mais inclusiva. E o mais legal do meu trabalho é o contato com pessoas do mundo todo. Sou muito comunicativa, converso com todos e, para quem tem medo, conto a minha história. No bondinho, via não só uma oportunidade de emprego, como de superar um medo que me limitava.

A atração é Inovadora desde sempre.Na sua criação, em 1912, o bondinho do Pão de Açúcar era visto como uma ideia louca. Mesmo na Europa os teleféricos eram coisa rara. Numa tarefa hercúlea, dezenas de alpinistas liderados pelo engenheiro Augusto Ramos, idealizador do teleférico, escalaram o Morro da Urca e o Pão de Açúcar para implantar guinchos manuais, que ajudariam a levar até os dois cumes os sistemas de engrenagens. Equipamentos também foram carregados a pé, um trabalho que hoje poderia ser facilmente executado por helicópteros. Em 27 de outubro de 1912, o "camarote carril" (que lembrava na forma os bondes que circulavam pelas ruas), feito de madeira na Alemanha, deslizou pela primeira vez, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca.

As tecnologias evoluíram de lá para cá. Em 1960, o bondinho ganhou estrutura de metal. E, 12 anos depois, o design exclusivo visto até hoje, que lembra uma bolha ou as formas de um diamante. Quatro operam simultaneamente nos 528 metros da Praia Vermelha ao Morro da Urca e nos 735 metros até o Pão de Açúcar, num total de seis minutos de viagem. Cada cabine comporta 65 pessoas. Mais de 50 milhões de pessoas passaram por elas.

Durante 57 anos funcionário da companhia, o engenheiro Giuseppe Pellegrini, hoje com 84 anos, lembra que até vacas nelore já subiram morro acima pelos cabos de aço.

- Há mais 30 anos, fizemos no Morro da Urca um leilão de vacas nelore. Subimos quatro vacas em gaiolas especiais embaixo do bonde - conta Pellegrine, cuja história se confunde com a do Pão de Açúcar.

Em 1962, nos dos 50 anos do bondinho, ele, que já tinha como esporte a escalada, pediu para participar das festividades. A sugestão do representante dos clubes de montanhismo foi acatada por Cristóvão Leite de Castro, que então ocupava o comando que foi de Augusto Ramos. E a ideia de usar escaladores virou o ponto alto da comemoração. Imediatamente em seguida, foi convidado a trabalhar lá. Pellegrini é uma espécie de James Bond do bondinho da vida real - vale ressaltar que ele foi o responsável por dar todo o suporte à equipe de "007", no filme de 1979 em que o ator Roger Moore aparece numa cena de luta sobre o bonde.

-Modestamente, escalei 3.500 vezes o Pão de Açúcar, uma quantidade recorde. Meu escritório ficava no Morro da Urca, mas eu escalava todo dia o Pão de Açúcar pela face em frente à Urca e por outra mais atrás. Num dia, cheguei a escalar quatro vezes. E, mais de uma vez, levei nove minutos da base até o cume - revela ele, contando que já viveu experiências radicais no trabalho. - Num treinamento de resgate, fiz uma descida de rapel do bonde cargueiro, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca, até o meio da Praça General Tibúrcio.

O engenheiro, que chama o bondinho de indestrutível - é o mais antigo do mundo e sem registros de acidentes com gravidade-, não escala mais, mas promete uma aventura cheia de adrenalina: atravessar na tirolesa de 755 metros ligando o Pão de Açúcar ao Morro da Urca. Em implantação, o projeto terá quatro linhas, num trajeto que será feito em menos de 50 segundos, com velocidade de 100km/h. Essa é mais uma novidade do bondinho que olha para o futuro.

- Vamos entregar em março do ano que vem a tirolesa entre o Pão de Açúcar e o Morro do Urca. Não será a maior do mundo, nem a mais rápida, mas vai ser a mais linda. Imagina só descer o Morro da Urca descortinando o Rio? - empolga-se o CEO do Parque Bondinho do Pão de Açúcar, Sandro Fernandes, dizendo que o plano é divulgar o complexo turístico ao mundo para além dos bondes.

Os morros da Urca e do Pão de Açúcar compõem, desde 2006, um monumento natural criado por decreto municipal. O conjunto de montanhas é ainda tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1973, e foi peça importante para que o Rio ganhasse o título da Unesco de Patrimônio Mundial como paisagem cultural, em 2016. Neste mesmo ano, a empresa do bondinho adotou as trilhas da área, incluindo a do Morro da Urca, a mais visitada do Brasil, antes degradada.

- Cuidamos hoje de mais de 40 mil metros quadrados do monumento natural, incluindo a Pista Cláudio Coutinho e a trilha do Morro da Urca. Agrega muito valor mostrar para toda a sociedade que é possível interagir, sim, com a natureza preservando e educando - destaca Fernandes, que desde 2018 é CEO do bondinho e comemora: - Ter uma marca e uma história de 110 anos no Brasil é para pouquíssimos!

As comemorações vão seguir até o ano que vem. Amanhã, sexta, haverá show de Maria Rita no Morro da Urca (ingressos a R$110), mesmo lugar dos lendários shows do Noites Cariocas. Em novembro, será inaugurada uma exposição imersiva chamada Cápsula do Tempo, que permitirá ao público revisitar momentos importantes da história do parque. Fora isso, a loja Pierim desenvolveu uma coleção comemorativa de souvenirs e peças de vestuário inspiradas no Parque Bondinho. Algumas estampas levam a fauna e a flora da Mata Atlântica e são assinadas pelo artista Bruno Big. E a cervejaria Praya lançou uma série de latas comemorativas em homenagem ao aniversário. Elas contam com um QRCode que direciona para um vídeo sobre os grandes marcos da atração carioca.