Bonecas achadas no lixo viram novos brinquedos no interior de SP durante a pandemia

LAIS SEGUIN
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PIRACICABA, SP (FOLHAPRESS) - Por 13 anos, Jeiza Santos, 64, levou para a neta bonecas que encontrava no centro de reciclagem da Cooperativa Eldorado, de Cordeirópolis (SP), onde recolhe e separa há 17 anos o lixo reutilizável da cidade. A menina cresceu e, no ano passado, ao completar 14 anos, passou a recusar os presentes, agora considerados por ela infantis. "Quando minha neta era criança, eu levava essas bonecas para ela brincar", disse. Sem saber mais para onde levar os brinquedos -em sua maioria bonecas- que achava no lixo, ela procurou ajuda da prefeitura. Foi quando a cidade, a 160 km de São Paulo, ganhou uma nova fonte de brinquedos para doação durante a pandemia. Os itens que Jeiza encontrava passaram a ser enviados às crianças da cidade, impedidas de frequentar a sala de brinquedos do Centro de Convivência da cidade em razão das medidas de restrição para frear a contaminação pelo novo coronavírus. Com os achados de Jeiza, a distribuição que seria limitada ao Natal passou a ocorrer ao longo de 2021. Os novos destinos dos brinquedos encontrados no lixo de Cordeirópolis fez com que uma nova ideia surgisse: a restauração de bonecas danificadas. Duas mulheres que realizavam trabalhos artesanais com a comunidade, inclusive com a confecção de máscaras para doação durante a pandemia, foram chamadas para participar do projeto. Com cuidado, Jeiza separa, higieniza, retira as marcas de tinta das bonecas e as entrega nas mãos das artesãs e costureiras Sônia da Silva, 62 e Marilene Santos, 60. Elas consertam os corpos de pano e fazem as novas roupas. Quando as recebem, todos os detalhes são observados. Algumas precisam de um ajuste no braço, outras na barriga ou pernas, e com um tempo na máquina de costura, ficam em boas condições. "Todas as bonecas recebem o mesmo tratamento: banho, corte de cabelo, penteado e figurino novo", explica Sônia. A idade avançada e a vista cansada pelo tempo não são empecilhos. Nada atrapalha o carinho que elas têm com cada boneca e pelas crianças que, com um sorriso, agradecem pelo ato de bondade. Quando foi convidada, Sônia já tinha um passado relacionado à restauração de bonecas. Sua mãe, Iracema Maria Rosa, 95, no caminho que faziam para pescar, recolhia partes de bonecas que eram jogadas no lixo para montar e dar às netas. A iniciativa a ajudou a aliviar a depressão dela, segundo a filha. "Eu tive uma infância difícil, já nasci adulta. Nós não tínhamos dinheiro, então minha mãe fazia bonecas com restos de pano velho. Por isso eu vejo a importância desse trabalho coletivo que fazemos e do brinquedo na vida de uma criança", constatou. Segundo Marilene, nunca houve tempo para brincar muito. Na Bahia onde cresceu, com 11 anos, cuidava de seis sobrinhos. A primeira boneca que teve foi encontrada no lixo. Desde o final do ano passado, elas realizam os trabalhos de coleta e restauração e depois as doam para crianças carentes. Entre dezembro e janeiro, foram cerca de 500 bonecas. A ação não se limitou às festividades e segue em curso neste ano, com apoio da prefeitura. Além das doações, os brinquedos também devem voltar a encher o Centro de Convivência, quando as restrições em razão da pandemia acabarem. A prefeitura também pensa em uma campanha de sustentabilidade para incentivar a população a não jogar os brinquedos fora, e em vez disso, doar para o projeto. "Nós queremos expandir o projeto, começar a restaurar outros brinquedos que acabam no lixo, além das bonecas", afirmou Marilene.