Bonecos acabam com a solidão de uma aldeia despovoada no Japão

Por Natsuko FUKUE
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Alguns "alunos" de pano fabricados por uma japonesa para "repovoar" sua aldeia de Nagoro, em 16 de março de 2019

Para preencher o vazio e "repovoar" uma aldeia, uma japonesa muito habilidosa fez inúmeros bonecos. E agora eles são vistos sentados com seus livros em uma escola fechada, alinhados na rua... Em todos os lugares de uma aldeia carente de moradores.

Nagoro é uma aldeia montanhosa do oeste do Japão, a mais de 500 km da capital. Um povoado que teria caído no esquecimento se não fosse pela imaginação de Tsukimi Ayano, que foi colocando criaturas do tamanho de pessoas aqui e ali para afastar a solidão.

"Somos apenas 24 pessoas vivendo aqui, e os bonecos, 10 vezes mais: são cerca de 270", explica esta habitante de 69 anos que vive sozinha com seu pai.

A escola fechou há sete anos pela falta de professores, lembra. "Agora já não há crianças. A pessoa mais jovem da aldeia tem 55 anos".

Em frente a uma loja abandonada, uma "família" espera, muito agasalhada, neste dia frio de março. E perto do ponto de ônibus, um "pai" arrasta um carrinho cheio de "crianças".

- Pedaços de pau, jornais e lã -

Há 16 anos Ayano colocou na horta um espantalho vestido com a roupa de seu pai. "Uma pessoa que passou por ali acreditou que era ele e o cumprimentou, foi divertido", lembra.

Desde então ela não parou de criar bonecos. Usa pedaços de pau e jornais para fazer o corpo, tecido elástico para o rosto e lã para o cabelo. Como toque final, pinta de rosa os lábios e as bochechas.

Quando Ayano era criança, Nagoro contava com cerca de 300 pessoas, tanto residentes como trabalhadores do setor florestal e da construção de represas.

"Pouco a pouco as pessoas foram indo embora. Agora você se sente sozinho", declara Tsukimi Ayano. "Fiz bonecas, algumas vezes, para me lembrar de quando a aldeia era animada".

Este caso é emblemático do mal da terceira economia mundial, que enfrenta um rápido declínio demográfico em um contexto de baixa taxa de natalidade.

- Êxodo rural -

Como Nagoro, cerca de 40% dos aproximadamente 1.700 municípios do Japão sofrem despovoamento.

O arquipélago envelhece lentamente. Em breve será o país com a população mais velha do mundo, o que significa que 28% dos habitantes terão ao menos 65 anos. Serão quase 40% em 2050.

Nesse ano a população haverá diminuído dos 127 milhões atuais para 100 milhões.

Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos povoados japoneses viviam da silvicultura e da agricultura mas os jovens começaram a ir embora das aldeias nos anos 1960.

"A economia era florescente em Tóquio e nas regiões industriais de então. Ali se podia ganhar dinheiro", afirma Takumi Fujinami, economista do Instituto de Pesquisa do Japão.

O fenômeno continuou durante os últimos anos apesar da promessa do primeiro-ministro, Shinzo Abe, de revitalizar as regiões. "Fazer a população voltar é muito difícil", afirma o especialista. Dar ajudas para atrair pessoas não é suficiente.

"Antes de nada é importante subir os rendimentos ou melhorar as condições trabalhistas daqueles que vivem nas zonas rurais", estima.

Na falta de habitantes, as bonecas de Nagoro atraem os turistas de carne e osso. Alguns procedem dos Estados Unidos ou da Europa.

"Antes de eu começar a fabricar estas criaturas, ninguém parava aqui", afirma Ayano com um sorriso. "Não sei como será Nagoro dentro de 10 ou 20 anos, mas continuarei fabricando bonecas".