Bonnie Tyler: 'Nunca fui um símbolo sexual, eu apenas tinha voz'

Símbolo sexual? A cantora Bonnie Tyler, do hit “Total eclipse of the heart” (que em fevereiro completa 40 anos de lançado e cujo videoclipe marcou época) quase cai da cadeira ao tomar conhecimento dos sentimentos que sua voz rascante e sua loura figura despertavam nos adolescentes dos anos 1980.

— Nãããão! Eu nunca fui um símbolo sexual! Nunca! Eu apenas tinha voz. Isso aqui que você vê é tudo maquiagem, aplico Botox no meu rosto duas vezes por ano. Se você me encontrar de manhã, sem meus cílios postiços, você vai perguntar: quem é ela? — diverte-se, na entrevista por Zoom, a cantora galesa, que se apresenta pela primeira vez no Rio no sábado, às 21h, na Jeunesse Arena.

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Cantora que começou sua carreira aos 17 anos em bares e cabarés e que em 1978 teve seu primeiro hit mundial (o country rock “It’s a heartache”), Bonnie Tyler chega ao Brasil aos 71 anos “com a voz até mais forte do que quando era jovem” e a certeza de que não poderá deixar de cantar “Total eclipse of the heart” — música que atravessou décadas e hoje faz parte daquele seleto clube das que têm mais de 1 bilhão de views no YouTube.

— Nunca me canso de cantar essa música — garante Bonnie, que ganhou “Total eclipse of the heart” do compositor e produtor americano de rock Jim Steinman, falecido no ano passado. — Eu estava na gravadora RCA e muito do que me faziam gravar era country rock. Eles queriam renovar o contrato por mais cinco anos, só que eu não estava feliz e aí optei por ir para a Sony, para gravar rock. Lá, me perguntaram com quem eu queria trabalhar, e eu disse: Jim Steinman! Acharam que eu era maluca, porque ele estava estourado e nunca ia querer trabalhar comigo... mas fizemos dois álbuns juntos!

Boa parte do sucesso de “Total eclipse” veio do seu clipe – uma peça hoje clássica dos primeiros dias da MTV, na qual Jim Steinman e o diretor australiano Russell Mulcahy exploraram a figura da cantora dentro de um vestido branco esvoaçante e abusaram no nonsense, com um roteiro que tem junta estudantes de um colégio interno a ninjas dançarinos e toques de horror paranormal. Mas algumas vezes as coisas passaram do limite, recorda-se a cantora.

— Eles queriam botar um colegial pelado soltando uma pomba. Eu disse: “sem chance!”. Tenho uma família grande, com muitos sobrinhos e sobrinhas, não ia rolar! Então, fizeram a cena com o menino vestindo o uniforme do colégio. Russell não ficou nada feliz com isso! — gargalha Bonnie Tyler, ciente das milhares de paródias que o clipe gerou (a de que ela mais gosta é uma feita com Lego, na qual sua cabeça se desprega do corpo e cai). — Odeio gravar clipes, mas tenho que admitir que fiquei feliz quando “Total eclipse of the heart” disputou um Grammy com “Billie Jean”!

Gravação com Fábio Jr.

A fase rock nos anos 1980 trouxe outros sucessos, como “Holding out for a hero” (também composta por Jim Steinman, que entrou na trilha do filme “Footloose: ritmo louco”) e “Have you ever seen the rain”, regravação de sucesso do grupo Creedence Clearwater Revival – e ambos estão no repertório do show. Foi nos 80 também que Bonnie Tyler gravou em Londres com Fábio Jr. uma participação na faixa “Sem limites pra sonhar”, do brasileiro.

— Passamos alguns dias trabalhando juntos e não nos vimos novamente desde então. Ele foi muito gentil e me deu um anel de ouro com todo tipo de pedras preciosas do Brasil incrustadas. Lembro que ele estava participando de uma novela na época, as meninas viviam loucas por ele! — conta.

O show que Bonnie Tyler traz ao Brasil celebra os mais de 50 anos que se passaram desde que ela era uma menina no País de Gales chamada Gaynor Hopkins, fascinada por Janis Joplin e Tina Turner, subitamente descoberta por um caçador de talentos vindo de Londres.

— Na época, a Mary Hopkin (cantora folk galesa, célebre por ter sido contratada pela gravadora Apple, dos Beatles) mais fazia muito sucesso, e além disso morava bem perto de mim. E aí resolvi pegar o nome da minha primeira sobrinha, Sherene. Quanco comecei a gravar discos, (os produtores e compositores) Ronnie Scott e Steve Wolfe me disseram que Sherene parecia nome de dançarina do ventre (risos)... mas eu não me importava — jura ela. — Fiz então duas listas: uma com nomes cristãos e outra com sobrenomes. E depois de tentar várias combinações cheguei a Bonnie Tyler, que foi o nome perfeito, aquele que abençoou a minha carreira.